Por Machado de Assis (1888)
Aí temos explicado o movimento atual, que, em boa hora, vai sendo praticado em paz e harmonia. Note se bem que o movimento outrora tinha um caráter meio duvidoso, pedia-se o fechamento das portas aos domingos. O domingo, só por si, sem mais nada. é um dia protestante; e o movimento, limitando o descanso a esse dia, como que parecia inclinar à igreja inglesa. Daí a frieza do clero católico. Agora, porém, a plataforma (se me é lícito dizer uma palavra que pouca gente entende) abrange os domingos e dias santos. Deste modo não se pede só o dia do Senhor, mas esse e os mais que o rito católico estabelece em honra dos grandes mártires ou heróis da fé. e dos fastos da Igreja desde os primitivos tempos.
Seguramente, há maior número de dias vagos, mas o trabalho dos outros compensará os perdidos; por esse lado, não vejo perigo. Pode dar-se também que a definição das férias se estenda um pouco mas, pelo tempo adiante. Por exemplo, o dia 2 de novembro é feriado ou não? Vimos este ano duas opiniões opostas, a do Senado e a da Câmara. O Senado declarou que era, e não deu ordem do dia; a Câmara entendeu que não era, e deu ordem do dia. Foi o mesmo que se não desse, é verdade, porque lá não apareceu ninguém; mas a opinião ficou assentada. O Senado comemora os defuntos, a Câmara não. Talvez a Câmara não deseje lembrar o próximo fim dos seus dias O Senado, embalsamado pela vitaliciedade, pode entrar sem susto nos cemitérios. Não é a lei que o há de matar.
Pois bem, ainda nesses casos o acordo é possível entre caixeiros e patrões; fechem-se as portas ao meio dia. Os patrões e os rapazes irão de tarde aos cemitérios.
Noto, e por honra de todos, que não tem havido distúrbios nem violências. Há dias, é certo, um grupo protestou contra uma casa do Largo de S. Francisco de Paula, que estava aberta: mas quem mandou fechar as portas da casa não foi o grupo, foi o subdelegado. Tem havido muita prudência e razão, O próprio ato do subdelegado, olhando-se bem para ele foi bem feito. Já lá dissera Musset estas palavras: Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermée. Não podendo estar abertas as da loja de grinaldas, foi muito melhor fechá-las." 1: assim que eu gosto dos médicos especulativos' dizia um personagem de Antônio José.
Não sei se tenho mais alguma cousa que dizer. Creio que não. A questão chinesa está absolutamente esgotada; tão esgotada que tendo eu anunciado por circular manuscrita, que daria um prêmio de conto de réis a quem me apresentasse um argumento novo, quer a favor, quer contra os chins, recebi carta de um só concorrente, dizendo-me que ainda havia um argumento científico, e era este: "A criação animal decresce por este modo: — o homem, o chim, o chimpanzé..." Como vêem, é apenas um calembour; e se não houvesse no Evangelho e em Camões, era certo que eu quebrava a cara do autor; limitei-me a guardar o dinheiro no bolso.
Boas noites.
[82]
[18 novembro]
BONS DIAS!
Agora acabou-se! Já se não pode contar um caso, meio trágico em casa de família, que não digam logo vinte vozes:
— Já sei, outra Mme. Torpille!
— Perdão, minha senhora, eu vi o que lhe estou contando. O homem não tinha pés nem cabeça... Mas tinha uma cruz latina no peito.
— Isso não sei, pode ser. A senhora sabe se trago também alguma cruz latina ao peito'? Pois saiba que sim. . . Olhe, a cruz latina também figurou agora na revolução de rapazes em Pernambuco; a diferença é que não era no peito que eles a levavam mas às costas. Por falar em latim, sabem que Cícero...
Aqui não houve mais retê-las; todas voaram, umas para as janelas. Outras para os pianos, outras para dentro; fiquei só, peguei no chapéu e vim ter com os mous leitores, que são sempre os que pagam as favas.
E, prosseguindo, digo que o velho Cícero escreveu uma cousa tão certa, que até eu. que não sei latim, só por vê-la traduzida em sueco entendi logo o que vinha a ser, e é isto: Grata populo est tabella. . . Em português: "O voto secreto agrada ao povo, porque lhe dá força para dissimular o pensamento e olhar com firmeza para os outros".
Ora bem, este voto secreto, que me é tão grato, quer o nosso ilustre Senador Candido de Oliveira arrancá lo ao eleitor, no projeto eleitoral que apresentou ao Senado. Note-se que foi justamente por ser secreto o voto, que eu, embora conservador, votei em S. Ex.' para a lista tríplice. Não gostei da chapa do meu partido, e disse comigo: - Não, senhor; voto no Candido, no Afonso e no Alvim . Quando mais tarde o Cruz Machado (Visconde do Serro Frio) me falou na eleição, declarei- lhe que ainda uma vez levara às urnas a lista da nossa gente. Era mentira; mas para isso mesmo é que vale o voto secreto.
S. Ex.a quer o voto público. Há de ser escrito o nome do candidato em um livro com a assinatura do eleitor (art. 3.° § 1.° ) . Concordo que este modo dá certa hombridade e franqueza, virtudes indispensáveis. E fora de dúvida que, com o voto público. o caixeiro vota no patrão, o inquilino no dono da casa (salvo se o adversário lhe oferecer outra mais barata. o que é ainda uma virtude, a economia). o fiel dos feitos vota no escrivão, os empregados bancários votam no gerente. e assim por diante. Também se pode votar nos adversários. Mas, enfim, nem todos são aptos para a virtude. Há muita gente capaz de falar em particular de um sujeito, e ir jantar publicamente com ele. São temperamentos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Balas de estalo. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1888–1889.