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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

A tecla que vibrara em nosso espírito ressoava tão melodiosamente, que o pano descera sobre o primeiro ato do Hernani, sem darmos por isso. O Cunha me parecia conservar vivas saudades de suas relações com essa moça, que ainda o interessava apesar de tudo. Quanto a mim, todas as excentricidades e defeitos que atribuíam a Lúcia, ao passo que a faziam descer na minha estima, davam-lhe um sainete de originalidade e um picante sabor que me excitava. O vício também tem sua beleza e sua atração, como a virtude; a diferença é que no âmago do fruto os lábios encontram terra e cinza em vez de polpa deliciosa. 

 

Há de ter reparado em que me desse por desconhecido de Lúcia; é hábito meu, desde que entrei no mundo, não admitir os estranhos à intimidade de minha vida, ainda mesmo quando se trata de objetos sem conseqüência. Só dispo a minha alma entre amigos. 

 

Como já lhe disse, suspeitava que Lúcia devia assistir à ceia, para a qual Sá me convidara, na quinta-feira, jantando no Hotel da Europa. Naquela ocasião quis ter a certeza; e creia que subindo as escadas da segunda ordem desejava ter-me enganado. 

 

Preciso dizer-lhe a razão? 

 

Ela não estava só: uma multidão de adoradores invadira a porta de seu camarote. Cortejei-a e passei, esperando a ocasião em que lhe pudesse falar. Tudo quanto achei para mandar levar-lhe foi sorvetes, doces, algumas flores de baile que vendiam à porta, e o libreto da ópera. As mulheres, a senhora o sabe por experiência, agradecem mais essas pequenas atenções de que a cercam, do que os verdadeiros sacrifícios; e eu tinha resolvido fazer a conquista de Lúcia por oito ou quinze dias. 

 

Estive com ela no intervalo seguinte. 

 

— Não tinha nem uma moça bonita do seu conhecimento a quem dar estas flores tão lindas? disse apertando-me a mão e mostrando dois cactos que se estrelavam, um no seio e outro entre os seus cabelos. 

 

— Sabes quem as mandou? 

 

— Adivinhei pelo cheiro. É tão suave!...  

 

— Ficam-te muito bem; parecem ter nascido aí entre as rendas e os cabelos. 

 

— Hei de enfeitar-me sempre assim. 

 

— E com as flores que eu te mandarei todas as manhãs. 

 

— Disse isto à toa. Não tenho paciência, nem gosto para estas coisas! Agora foi uma lembrança e já me está aborrecendo, replicou, batendo com a ponta dos dedos afilados nas pétalas da flor. 

 

Notei no tom de Lúcia durante o resto desta conversa uma diferença extraordinária com o modo singelo e modesto que ela tinha em sua casa; agora era a frase ríspida, incisiva e levemente embebida na ironia que destilava de seus lábios, e cujas gotas a maior parte das vezes salpicavam a ela própria. A cortesã revelava-se a mim sem rebuços, depois que deixara cair na falda do leito o seu último véu. Não sei se estimei ou senti essa brusca transição; a franqueza me punha mais à vontade, é certo, porém desvanecia uma doce ilusão, que, por mais transparente que seja, nubla o espírito crédulo, quando procura no fundo do prazer um átomo sequer de amor. 

 

Perguntei-lhe afinal se me permitia acompanhá-la depois do teatro. 

 

— Esta noite não me pertence!... 

 

— Não vais para casa? 

 

— Não. 

 

— Já sei! Estás convidada para uma ceia... 

 

— Quem lhe disse? 

 

— Em casa do Sá. 

 

— Ah! Não me lembrava que ele é seu amigo! E o senhor, também vai?... 

 

— Para ter o prazer de tua companhia. 

 

— Ainda não estou inteiramente resolvida! murmurou com lentidão, e atalhou logo com certo estouvamento: porém não, vou! Por que deixaria de ir? Havemos de divertir-nos muito: o Sá tem gosto. 

 

Acendeu-se nos seus olhos o fogo que já uma vez me tinha queimado as faces; só mais 

tarde devia ter a explicação desse olhar. 

 

Quando tomei o meu lugar nas cadeiras, Lúcia tinha desaparecido. 


VI 

 

Sá habitava, num dos arrabaldes da corte, uma chácara, que caprichara em preparar. 

 

Com trinta anos de idade, um caráter fleumático e uma imaginação ardente, o meu amigo tinha errado a sua vocação; a natureza o destinara para milionário, tal era o seu desprezo pelo dinheiro quando se tratava de realizar um de seus mil sonhos dourados. Gozando do conforto e mesmo da elegância que lhe permitia uma folgada abastança, as flores que ia colhendo pelo caminho estavam longe de satisfazer-lhe as fantasias orientais; por isso impunha a si mesmo o sacrifício de acumular algumas pequenas reservas, fruto das economias de muitos dias, para consumi-las em poucas horas, com um desapego selvagem. 

 

(continua...)

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