Por José de Alencar (1857)
Ninguém na praça conhecia esse moço, que aí aparecera havia pouco tempo; mas as suas maneiras eram tão finas, os seus negócios tão claros e sempre à vista, as suas transações tão lisas, que os negociantes nem lhe perguntavam o seu nome para aceitarem o objeto que ele lhes oferecia.
Todas as pessoas já tinham partido e ficara apenas o moço, que sem dúvida esperava alguém; entretanto, ou porque ainda não tivesse chegado a hora aprazada, ou porque já estivesse habituado a constranger-se, não dava o menor sinal de impaciência.
Finalmente a pessoa esperada apontou na entrada da rua do Sabão e aproximou-se rapidamente.
A senhora, que talvez tenha imaginado um personagem de grande importância vai decerto sofrer uma decepção quando souber que o desconhecido era apenas um mocinho de dezenove para vinte anos.
Um observador ou um homem prático, o que vale a mesma coisa, reconheceria nele à primeira vista um desses virtuosido comércio, como então havia muitos nesta boa cidade do Rio de Janeiro.
A classificação é nova e precisa uma explicação.
A lei, a sociedade e a polícia estão no mau costume de exigir que cada homem tenha uma profissão; donde provém esta exigência absurda não sei eu, mas o fato é que ela existe, contra a opinião de muita gente.
Ora, não é uma coisa tão fácil, como se supõe, o ter uma profissão. Apesar do novo progresso econômico da divisão do trabalho, que multiplicou infinitamente as indústrias e, por conseguinte, as profissões, a questão ainda é bem difícil de resolver para aqueles que não querem trabalhar.
Ter uma profissão quando se trabalha, isto é simples e natural, mas ter uma profissão honesta e decente sem trabalhar, eis o sonho dourado de muita gente, eis o problema de Arquimedes para certos homens que seguem a religião do dolce far niente.
O problema se resolveu simplesmente.
Há uma profissão, cujo nome é tão vago, tão genérico, que pode abranger tudo. Falo da profissão de negociante.
Quando um moço não quer abraçar alguma profissão trabalhosa, diz-se negociante, isto é, ocupado em tratar dos seus negócios.
Um maço de papéis na algibeira, meia hora de estação na Praça do Comércio, ar atarefado, são as condições do ofício.
Mediante estas condições o nosso homem é tido e havido como negociante; pode passear pela rua do Ouvidor, apresentar-se nos salões e nos teatros. Quando perguntarem quem é este moço bem vestido, elegante, de maneiras tão afáveis, responderão — É um negociante.
Eis o que eu chamo virtuosi do comércio, isto é, homens que cultivam a indústria mercantil por curiosidade, por simples desfastio, para ter uma profissão.
É tempo de voltar dessa longa digressão, que a senhora deve ter achado muito aborrecida.
O mocinho negociante, tendo chegado à Praça do Comércio, tomou o braço da pessoa que o esperava, dizendo-lhe:
— Está tudo arranjado.
— Seriamente? exclamou o outro moço, cujos olhos brilharam de alegria.
— Pois duvidas!
— Então, amanhã...
— Ao meio-dia.
— Obrigado! disse o moço, apertando a mão de seu companheiro com efusão.
— Obrigado, por quê? O que fiz vale a pena de agradecer? Ora, adeus! Vem jantar comigo.
— Não, acompanho-te até lá; mas preciso estar às quatro horas em minha casa.
Os dois moços de braço dado dobraram o canto da rua Direita.
CAPÍTULO XI
Seguram pela rua do Ouvidor.
— Não sei que interesse, dizia o nosso negociante, continuando a conversa; não sei que interesse tens tu, Carlos, em resgatares aquela letra!
— É uma especulação que algum dia te explicarei, Henrique, e na qual espero ganhar.
— É possível, respondeu o outro, mas permitirás que duvide.
— Por quê?
— Ora, é boa! uma letra de um homem já falecido, de uma firma falida!
Aposto que não sabias disto?!
— Não; não sabia! disse Carlos, sorrindo amargamente.
— Pois então deixa contar-te a história.
— Em outra ocasião.
— Por que não agora? Reduzo-te isto a duas palavras, visto que não estás disposto a escutar-me.
— Mas...
— Trata-se de um negociante rico, que faleceu, deixando ao filho coisa de 300 contos de réis e algumas dívidas, na importância de um terço dessa quantia. O filho gastou o dinheiro e deixou que protestassem as letras aceitas pelo pai, o qual, apesar de morto, foi declarado falido.
Enquanto seu companheiro falava, Carlos se tinha tornado lívido; conhecia-se que uma emoção poderosa o dominava, apesar do esforço de vontade com que procurava reprimi-la.
— E esse filho... o que fez? perguntou com voz trêmula,
— O sujeito, depois de ter-se divertido à larga, quando se viu pobre e desonrado, enfastiou-se da vida e fez viagem para o outro mundo.
— Suicidou-se?
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.