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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Por que, para que me expus a desestimar a aurora que é tão formosa, e a descobrir na natureza e na influência do sol que dizem ser fonte de vida, tantos germens de destruição e de morte? Por que e para que ficar-me na alma esta desconfiança das ilusões da aurora, esta certeza de que o sol é também assassino da criação e assolador da terra?...

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E por que esta luneta mágica além de três minutos de fixidade só me deixou ver os males e os horrores que 0 sol pode produzir e negou-me a contemplação dos seus benefícios?

Oh! foi dolorosa; mas será profícua a lição; doravante saberei defender-me da vingança terrível da salamandra escravizada: aborreço. Não experimentarei mais a visão ao mal; basta-me a visão da superfície e das aparências. Se o mundo é de enganos, se a vida é de ilusões, se na terra a felicidade do homem está nas ilusões dos sentidos, e nos enganos da alma, eu quero iludir-me e enganar-me para ser feliz.

Oh! vem, minha luneta magica, vem! mas para que eu te fixe somente dois minutos sobre cada objeto.

E eu fixei a luneta nas flores, cujo matiz, e cujas cores variadas e belas enfeitiçaram meus olhos, fixei-a nos passarinhos, nas borboletas, nas folhas das arvores que ainda lagrimejavam gotas de orvalho e festejei todos estes tesouros da natureza, que eu via, e distinguia perfeitamente pela primeira vez.

Gozei uma hora de inexplicável encantamento, gozei muito, muito; mas, preciso é confessar, os meus gozas, suavíssimos embora, foram sempre perturbados por dois sentimentos que de certo modo os deixavam incompletos.

Fixando a minha luneta eu sentia logo e quase ao mesmo tempo medo e curiosidade; medo de esquecer o tempo e de chegar à visão do mal, e curiosidade teimosa, insistente, insidiosa e cada vez mais forte dessa mesma visão do mal.

Pouco e pouco venci o medo, medindo instintivamente os minutos; não pude porém vencer, domar a curiosidade, que em luta aberta com a minha razão, martirizava-me, aguçando um desejo fatal.

Essa curiosidade era como a tentação do demônio que nos arrasta ao pecado; meus lábios haviam já tocado uma vez na taça oferecida pela tentação, e o veneno que eu bebera, abrasava o meu seio, e eu tinha sede devoradora da visão do mal.

A salamandra, o gênio, o demônio tentador estava incessantemente a dizer-me ao ouvido que eu era senhor de um poder, de que nenhum outro homem, nem sábio, nem rei, podia usar e aproveitar-se, e que só a fraqueza de animo ou os hábitos rudes da mais triste ignorância explicariam o abandono, o sacrifício desse poder encantado que me fazia penetrar e ler no intimo dos seres. E foi no instante em que mais violento era o combate da curiosidade com a razão que divagando, passeando com a minha luneta, vi a prima Anica entrar no jardim.



V

Fitei-a.

A prima Anica estava vestida de branco e com os cabelos solto. Eu já tinha idéia do seu rosto, mas ainda não apreciava bem o seu porte; agora não tenho dúvidas sobre o juízo que fazia do seu merecimento físico.

Anica não é feia, nem bonita; abre muito os olhos, porque os tem pequenos e sem o fogo do sentimento; seu rir é triste, sua cintura delicada, os braços são tão finos que movem dó, e os pés tão grandes, que fazem pena; tem cabelos pretos, finos e bastos; o seu parecer porem, a sua figura, o seu andar são de um desenxabimento, que desconsola. O melhor dom que a natureza lhe deu foi a voz, que é doce e maviosa como a queixa de uma santa.

Retirei a luneta antes de passar o terceiro minuto; mas imediatamente senti o impulso da curiosidade que se tornava irresistível.

Esqueci o protesto feito, esqueci a dor da primeira experiência da visão do mal, esqueci, sufoquei a razão que ainda me falava, condenando o desejo imprudente, e dizendo a mim mesmo: —Preciso saber com quem vivo.

De novo fitei a minha luneta sobre a prima Anica, que estava dando os bons dias às suas flores A principio vi somente o que já tinha visto, que ela não era nem bonita nem feia, mas notavelmente desenxabida. Passados três minutos, não lhe vi mais o rosto nem a figura, vi-lhe o coração e a alma; o coração era uma pedra de gelo, a alma era o espírito reduzido a cálculo, a alma era como o seu olhar sem o fogo do sentimento; no seu coração li a indiferença e a tristeza, na sua alma a ambição de um marido rico que lhe desse mais o gozo da mesa, do que o esplendor do luxo e das festas; era, é a mulher fria, egoísta positiva, material, incapaz de amizade, e ainda menos suscetível de amor, mulher que sendo esposa nunca desejaria um filho, nem teria zelos do marido, mulher sem caridade, porque só vivia ocupada de dormir bem, comer bem, e passar bem.

Encontrei a minha imagem na alma de Anica, mas a minha imagem estava ali, como se fora um X em um problema de álgebra: eu era em sua alma uma hipótese de marido, e como letreiro, como nome da minha imagem, li em caracteres aritméticos a soma das legitimas, das heranças que me haviam deixado meu pai e minha mãe! . . .

(continua...)

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