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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Para quem tem direitos adquiridos, parece-me um tanto forte! 

 

— É o seu engano, continuou o Cunha que estava de veia. A Lúcia não admite que ninguém adquira direitos sobre ela. Façam-lhe as propostas mais brilhantes: sua casa é sua e somente sua; ela o recebe, sempre como hóspede; como dono, nunca. Na ocasião em que o senhor a toma por amante, ela previne-o de que reserva-se plena liberdade de fazer o que quiser e de deixá-lo quando lhe aprouver, sem explicações e sem pretextos, o que sucede invariavelmente antes de seis meses; está entendido que lhe concede o mesmo direito. 

 

— Ao menos há reciprocidade! 

 

— Não lhe pede nada, nem sequer doces em tempo de festa, ou sorvetes quando está no teatro. Nunca a vi bordar em malhas transparentes um desses desejos disfarçados com que as mulheres iscam à generosidade de seus apaixonados. Se indagam do seu gosto a respeito de algum objeto que lhe destinam, desconversa e não responde; aceita friamente o que lhe dão, e nada mais. 

Ora, com uma mulher desta natureza, que não oferece a mínima ocasião de prestar-lhe um serviço e ganhar-lhe a amizade ou a gratidão, é possível ter direitos adquiridos? 

 

— Há de sofrer com isso!... Tenho-a visto duas ou três vezes e sempre vestida simplesmente. Não traz um brilhante; entretanto que outras, que não a valem, andam cobertas. Repare!... 

 

— Qual! Não é essa a razão! Nunca lhe faltam amantes; sei de grandes fortunas no Rio de Janeiro que se dariam por felizes se ela se decidisse a arruiná-las. E para não ir muito longe, embora não seja rico, caso ela ainda quisesse... 

 

— Ah! Então as suas relações estão cortadas? 

 

— Inteiramente; e de uma maneira célebre. Vou-lhe contar. Passeávamos numa noite de luar claro como dia; vendo minha mulher na janela, escondi-me involuntariamente no fundo do carro com receio de que me reconhecesse. Era inútil, porque estava distraída olhando para o mar. Entretanto Lúcia, por maldade, mandou ao cocheiro que parasse, saltou do carro, e esteve muito tempo, em pé, na grade, voltada para minha casa. Eu não sabia o que fizesse, compreende bem; não queria mostrar-me, e tinha medo de um escândalo. Felizmente ela foi caminhando, e a alguma distância mandou parar um tílburi que passava; o carro a tinha acompanhado; chegou-se à portinhola e disse-me: “Não  gosto de gente que se esconde, meu senhor. Vá olhar para o mar ao lado de sua mulher; é mais inocente e mais poético. De amanhã em diante não nos conhecemos”. Debalde quis impedi-la, meteu-se no tílburi; e o cocheiro, que tinha um excelente animal, logrou-me: foi-me impossível segui-los. Voltei nessa mesma noite e nos dias seguintes à sua casa, e achei sempre a porta fechada para mim; até que me recebeu para dizer-me com toda a macieza e doçura, que eu supunha ter comprado a chave de sua casa, e por isso ia-me restituir o preço de uma venda que ficara sem efeito. Saí para não voltar mais! 

 

— Arrufos! Se não a procurasse, ela o mandaria chamar no outro dia. É sempre a sombra do provérbio chinês: segue quem a foge. 

 

— São águas passadas. Estávamos falando da simplicidade de seu trajar. A razão é outra; é pura avareza. 

 

— Como! Não disse que ela não se deixava levar pelo interesse? Não compreendo. Uma mulher que rejeita ofertas brilhantes e leva o seu escrúpulo a nunca pedir, nem mesmo uma coisa insignificante... Essa mulher não pode ser avarenta! O senhor conserva algum ressentimento, disse eu sorrindo. 

 

— Ora! replicou ele encolhendo os ombros. Não faltam bonitas mulheres. Mas esse desinteresse de Lúcia é um cálculo, e um cálculo muito fino. Uma mulher que pede, marca o preço de sua gratidão ou do seu amor; a mulher que não pede é um abismo que nunca se enche! Tenho experiência destas coisas. 

 

— Em todo o caso, ainda que ela fosse de uma mesquinhez sórdida, as jóias não se gastam com o uso. 

 

— Se ela as vende! 

 

— Não é possível! 

 

— Também eu duvidei por muito tempo, mas tive a prova. Há aqui um Sr. Jacinto que fez sociedade com ela; tudo que lhe dão, até roupas, é imediatamente reduzido a dinheiro. Lúcia deve ter por aí em casa do Gomes ou do Souto seus trinta a quarenta contos. 

 

— Guarda para a velhice, se lá chegar. 

 

(continua...)

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