Por Machado de Assis (1900)
— Hoje os escravos estão altanados, costuma ele dizer. Se a gente dá uma sova num, há logo quem intervenha e até chame a polícia. Bons tempos os que lá vão! Eu ainda me lembro quando a gente via passar um preto escorrendo em sangue, e dizia: "Anda diabo, não estás assim pelo que eu fiz!" Hoje...
E o homem solta um suspiro, tão de dentro, tão do coração... que faz cortar o dito. Le pauvre homme!
1877
[6]
[1 janeiro]
A. S. EX.ª REVMA. SR. BISPO CAPELÃO-MOR
PERMITA-ME V. EX.ª Revma. que eu, um dos mais humildes fiéis da diocese, chame sua atenção para um fato que reputo grave.
Ignoro se V. Ex.ª Revma., já leu um livro interessante dado a lume na quinzena que ontem findou, O Rio de Janeiro, Sua História e Monumentos, escrito por um talentoso patrício seu e meu, o Dr. Moreira de Azevedo. Naquele livro está a história da nossa cidade, ou antes uma parte dela, porque é apenas o primeiro volume, ao qual se hão de seguir outros, tão Copiosos de notícias como este, folgo de esperá-lo.
Não sei se V. Ex.ª Revma. é como eu. Eu gosto de contemplar o passado, de viver a vida que foi, de pensar nos homens que antes de nós, ou honraram a cadeira que V. Ex.ª Revma. ocupa. ou espreitaram, como eu, as vidas alheias. Outras vezes estendo o olhar pelo futuro adiante, e vejo o que há de ser esta boa cidade de S. Sebastião um século mais tarde, quando o bond for um veículo tão desacreditado como a gôndola, e o atual chapéu masculino uma simples reminiscência histórica.
Podia contar-lhe em duas ou três colunas o que vejo no futuro e o que revejo no passado; mas, além de que não quisera tomar o precioso tempo de V. Ex.ª Reverendíssima, tenho pressa de chegar ao ponto principal desta carta, com que abro a minha crônica.
E vou já a ele.
Há no dito livro do Dr. Moreira de Azevedo um capítulo acerca da igreja da Glória, não me refiro à do Outeiro, mas à do Largo do Machado. Nesse capítulo, que vai da página 185 à página 195, dão-se interessantes notícias do nascimento da igreja da qual traz uma excelente descrição. Diz-se aí, página 190, o seguinte:
"Concluiu-se a torre em 1875, e em 11 de junho desse ano colocou-se ali um sino; mas há a idéia de colocar outros sinos afinados para tocarem por música".
Para este ponto é que eu chamo a atenção do meu prelado.
Que lhe pusessem a torre, uma torre por cima daquela fachada, foi idéia, piedosa decerto, mas pouco de aplaudir-se.
Não há talvez segundo exemplo debaixo do sol; tudo aquilo hurle de se voir ensemble. Contudo, repito, se a arte padece, a intenção merece respeito.
Agora porém, Revmo. Sr. há idéia de lhe porem sinos afinados: com o fito de tocar por música, uma reprodução da Lapa dos Mercadores.
A Lapa dos Mercadores era uma igreja modesta, metida numa rua estreita, fora do movimento, pouco conhecida de uma grande parte da população. Um dia deu-se o luxo dos sinos musicais; e dentro de duas semanas estava célebre. Os moradores do Largo do Paço, ruas do Ouvidor, Direita e adjacentes almoçavam musicalmente todos os dias, aos domingos sobretudo. Era uma orgia de notas, um dilúvio de sustenidos. Quem quer que era o regente, repinicava com um brio, um fôlego, uma alma, dignos de melhor emprego.
E não pense V. Ex.a Revma. que eram lá músicas enfadonhas, austeras, graves, religiosas. Não, senhor.
Eram os melhores pedaços do Barbe Bleu, da Bela Helena, do Orfeu nos Infernos; uma contrafação de Offenbach, uma transcrição do Cassino.
Estar-se à missa ou nas cadeiras do Alcazar, salvo o respeito devido à missa, era a mesma coisa. O sineiro,—perdão, o maestro,— dava um cunho jovial ao sacrifício do Gólgota, ladeava a hóstia com a complainte do famoso polígamo Barba Azul:
Madame, ah! Madame,
Voyez mon tourmenter!
J’ai perdu ma femme
Bien subitement.
E as meninas, cujos pais, por um santo horror às comédias, não as levavam ao Alcazar, tinham o gosto de dividir o pensamento entre a Rua Uruguaiana e Rua da Amargura, isto sem cair em pecado mortal, porque em suma, desde que Offenbach podia entrar na igreja, era natural que os fiéis contemplassem Offenbach.
Nem era só Offenbach; Verdi, Bellini e outros maestros sérios tinham também entrada nos sinos da Lapa. Creio ter ouvido a Norma e o Trovador. Talvez os vizinhos ouçam hoje a Aída e o Fausto.
Não sei se entre Offenbach e Gounod, teve Lecoq algumas semanas de reinado. A Filha de Madan1e Angot alegrando a casa da filha de Sant'Ana e S. Joaquim, confesse V. Ex.a que tem um ar extremamente moderno.
Suponhamos, porém, que os primeiros trechos musicais estejam condenados, demos que hoje só se executem trechos sérios, graves, exclusivamente religiosos.
E suponhamos ainda, ou antes, estou certo de que não é outra a intenção, se intenção há, em relação à igreja da Glória; intenção de tocarem os sinos músicas próprias, adequadas ao sentimento cristão.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.