Por José de Alencar (1857)
Outras vezes ouvia-se um tiro; os serventes corriam e apenas achavam uma pistola ainda fumegante, um corpo inanimado e, sobre ele, alguma carta destinada a um amigo, a um filho, ou a uma esposa.
Amantes infelizes, negociantes desgraçados, pais de família carregados de dívidas, homens ricos caídos na miséria, quase todos aí vinham, trazidos por um ímã irresistível, por uma fascinação diabólica.
As Obras da Misericórdia, como chamavam então este lugar, tinham a mesma reputação que o Arco das Águas Livres de Lisboa e a Ponte Nova de Paris.
Era o templo do suicídio, onde a fragilidade humana sacrificava em holocausto a esse ídolo sanguinário tantas vítimas arrancadas às suas famílias e aos seus amigos.
Essa epidemia moral, que se agravava todos os dias, começava já a inquietar alguns espíritos refletidos, alguns homens pensadores, que viam com tristeza os progressos do mal.
Procurava-se debalde a causa daquela aberração fatal da natureza e não era possível explicá-la.
Não tínhamos, como a Inglaterra, esse manto de chumbo, que pesa sobre a cabeça dos filhos da Grã-Bretanha; esse lençol de névoa e de vapores, que os envolve como uma mortalha.
Não tínhamos, como a Alemanha, o idealismo vago e fantástico, excitado pelas tradições da média idade e, modernamente, pelo romance de Goethe, que tão poderosa influência exerceu nas imaginações jovens.
Ao contrário, o nosso céu, sempre azul, sorria àqueles que o contemplavam; a natureza brasileira, cheia de vigor e de seiva, cantava a todo o momento um hino sublime à vida e ao prazer.
O gênio brasileiro, vivo e alegre no meio dos vastos horizontes que o cercam, sente-se tão livre, tão grande, que não precisa elevar-se a essas regiões ideais em que se perde o espírito alemão.
Nada enfim explicava o fenômeno moral que se dava então na população desta corte; mas todos o sentiam e alguns se impressionavam seriamente.
Era fácil, pois, naquela época, adivinhar o motivo que levava Jorge às quatro horas da manhã ao lugar onde se abriam os largos alicerces do grande hospital de Santa Luzia.
O moço afastou-se da praia e desapareceu, por detrás de alguns montes de areia que se elevavam aqui e ali pelo campo.
Meia hora depois ouviram-se dois tiros de pistola; os trabalhadores que vinham chegando para o serviço, correram ao lugar donde partira o estrondo e viram sobre a areia o corpo de um homem, cujo rosto tinha sido completamente desfigurado pela explosão da arma de fogo.
Um dos guardas meteu a mão no bolso da sobrecasaca e achou uma carteira, contendo algumas notas pequenas, e uma carta apenas dobrada, que ele abriu e leu:
"Peço a quem achar o meu corpo o faça enterrar imediatamente, a fim de poupar à minha mulher e aos meus amigos esse horrível espetáculo. Para isso achará na minha carteira o dinheiro que possuo."
Jorge da Silva
5 de setembro de 1844.
Uma hora depois a autoridade competente chegou ao lugar do suicídio e, tomando conhecimento do fato, deu as providências para que se cumprisse a última vontade do finado.
O trabalho continuou entre as cantilenas monótonas dos pretos e dos serventes, como se nada de extraordinário se houvesse passado.
CAPÍTULO X
Cinco anos decorreram depois dos tristes acontecimentos que acabamos de narrar.
Estamos na Praça do Comércio.
Naquele tempo não havia, como hoje, corretores e zangões, atravessadores, agiotas, vendedores de dividendos, roedores de cordas, emitidores de ações; todos esses tipos modernos, importados do estrangeiro e aperfeiçoados pelo talento natural.
Em compensação, porém, ali se faziam todas as transações avultadas; aí se tratavam todos os negócios importantes com uma lisura e uma boa-fé que se tornou proverbial à praça do Rio de Janeiro.
Eram três horas da tarde.
A praça ia fechar-se; os negócios do dia estavam concluídos; e dentro das colunas que formam a entrada do edifício, poucas pessoas ainda restavam.
Entre estas notava-se um negociante, que passeava lentamente ao comprido do saguão, e que por momentos chegava-se à calçada e lançava um olhar pela rua Direita.
Era um moço que teria quando muito trinta anos, de alta estatura e de um porte elegante, à primeira vista parecia estrangeiro.
Tinha uma dessas feições graves e severas que impõem respeito e inspiram ao mesmo tempo a afeição e a simpatia. Sua barba, de um louro cinzento, cobria-lhe todo o rosto e disfarçava os seus traços distintos.
A fronte larga e reflexiva, um pouco curvada pelo hábito do trabalho e da meditação, e o seu olhar fixo e profundo, revelavam uma vontade calma, mas firme e tenaz.
A expressão de tristeza e ao mesmo tempo de resignação que respirava nessa fisionomia, devia traduzir a sua vida; ao menos fazia pressentir na sua existência o predomínio de uma necessidade imperiosa, de um dever, talvez de uma fatalidade.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.