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#Crônicas#Literatura Brasileira

Balas de Estalo

Por Machado de Assis (1883)

Morreu um homem, deixando em testamento alguns legados. Noutro tempo, os legatários nunca mais perdiam de olho o inventário tinham procurador para lhes cuidar do negócio, farejavam o cartório, e passavam algumas noites em claro. Tudo mudou depois que os tigres se vendem na Rua do Hospício. Agora são os testamenteiros que andam atrás dos legatários. Um daqueles, desesperado de esperar por estes, fez um anúncio repleto de legítima impaciência, em que declara, decorrido algum tempo da publicação do testamento do Comendador Pacheco, que, estando o inventário a encerrar-se, pede aos interessados vão requerer o que for a bem do seu direito "sob pena de, julgadas as partilhas, irem haver do herdeiro da terça os seus legados."

Ubinam gentium sumus? Os legados atrás dos legatários as lingüiças farejando os cães! Deus meu, bateu finalmente a hora da harmonia e do desinteresse? Vamos ver as comendas atrás das casacas, e elas a fugirem-lhes vexadas e desdenhosas? Os vencimentos em vez de os irmos nós buscar, irão ter com a gente? Os bens passarão a correr atrás dos frades?

[30]

[15 maio]

CHEGANDO anteontem, à noite, de Macacu, onde fui estudar as febres de 1845, fiquei surpreendido com a notícia de ter o meu nome figurado em uma comissão que foi pedir a Lulu Sênior a reentrada do colega Décio. Jurei a todas as pessoas que era falso; mas mostraram-me o número da Gazeta em que Lulu Sênior narrava tudo, e com efeito vi o meu nome, e até palavras que me são atribuídas.

Parecendo-me a graça um tanto pesada, entendi que era caso de um desforço pelas armas, e incumbi dois amigos, o Dr. F. C., distinto médico, e um membro do parlamento, lhe irem pedir satisfação ou testemunhas.

Eram oito horas da manhã, quando os meus dois amigos treparam ao morro, e onze quando voltaram ambos com a alma aos pés. Imaginei a princípio que ele recusara o duelo; mas o Dr. F. C. tirou-me logo esta idéia, dizendo:

— Coisa pior, coisa pior.

— Que é então?

—Tenha ânimo; seja homem. O seu amigo...

— Que tem?

— Não se irrite contra ele. Tudo aquilo é um puro caso patológico. Estivemos seguramente duas horas juntos, e reconheci que ele está louco.

— Não me diga isto!

— Não digo louco varrido, formalmente louco; mas padece de alucinações, idéias delirantes; não está bom, não; e se não tiverem cuidado, pode acabar mal, muito mal. A história da comissão foi verdadeira, quero dizer, ele imaginou que tinha a comissão diante de si, conversou com as pessoas, ouviu as palavras e escreveu-as. Quando chegamos, ele supôs logo que éramos outra comissão, e que éramos cinco. Dirigiu se a uma cadeira vazia pare lhe dizer: — "Mas, V. S.a como relator da comissão. . . " Em suma, padece do que chamamos em medicina comissiomania ou mania das comissões. A prova é que o sondei logo, segundo nos ensinam os patologistas, e perguntei-lhe se iria hoje à igreja de S. Francisco, à Rua Municipal, e ao paquete Amazone. Respondeu-me alegre que sim, que tenha que falar em São Francisco com o comissário da Ordem Terceira, na Rua Municipal com dois comissários de café, e no paquete com o respectivo comissário. — Vê Sempre a mesma mania.

— Mas, então, perdido?...

Não, ainda pode salvar. Essas alucinações e delírios, quando não tratados, podem chegar à demência total, e mesmo à idiotice e à imbecilidade, para a qual noto-lhe uma certa tendência. Urge não perder tempo.

— Mas, doutor, é impossível, ele raciocina perfeitamente.

Que tem isso? Há mil, há cem mil pessoas no universo, que raciocinam perfeitamente. e. entretanto, padecem de uma dessas alucinações ou delírios. Conheço um alferes que está persuadido de ser major. Um deputado da legislatura de 1864 imaginava que o imperador lhe oferecia todas as manhãs a pasta dos negócios estrangeiros. Contou-me mais de uma vez como se passavam as coisas. O imperador entrava (era na casa de D. Maria, Rua da Ajuda), ia ao quarto dele, com a pasta na mão, e dizia-lhe: "Romualdo, tu por que é que não hás de ser ministro?" Pois bem; este deputado proferiu muitos dos melhores discursos parlamentares de 1864 e 1865. Você não tem lido nos jornais notícias de comissões que vão oferecer isto ou aquilo, um retrato, uma venera, etc., a pessoas completamente obscuras ou insignificantes?

—Tenho; leio muitas vezes.

— Pois saiba que não há tal. São casos de comissiomania. Essas pessoas vêem, sinceramente, por alucinação, uma comissão diante de si, oferecendo-lhes alguma coisa — venera ou retrato, ouvem os discursos, agradecem, convidam para um copo d'água, e crêem que dançam, e que as danças se prolongam até à madrugada. São casos puramente patológicos. Não há neles a menor sombra de comissão ao menos no estado agudo da moléstia, porque é observação feita que, quando a cura começa a operar-se, o doente ilude-se a si mesmo arranjando uma comissão de verdade, que vai deveras à casa dele com a venera, que ele mesmo comprou, e lhe fazem discursos, comem realmente, e as danças prolongam-se até de manhã...

— Pobre Lulu Sênior! Que faremos então?

(continua...)

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