Por Machado de Assis (1868)
Adiou, porém, para o dia seguinte, ou antes para o mesmo dia, porque a noite não lhe interrompeu o tempo, visto que Estêvão não dormiu um minuto sequer.
Capítulo X
Levantou-se da cama o pobre namorado sem ter conseguido dormir. Vinha nascendo o sol.
Quis ler os jornais e pediu-os.
Já os ia pondo de lado, por haver acabado de ler, quando repentinamente viu o seu nome impresso no Jornal do Comércio.
Era um artigo a pedido com o título de "Uma Obra-Prima." Dizia o artigo:
Temos o prazer de anunciar ao país o próximo aparecimento de uma excelente comédia, estréia de um jovem literato fluminense, de nome Antônio Carlos de Oliveira.
Este robusto talento, por muito tempo incógnito, vai enfim entrar nos mares da publicidade, e para isso procurou logo ensaiar-se em uma obra de certo vulto.
Consta-nos que o autor, solicitado por seus numerosos amigos, leu há dias a comédia em casa do Sr. Dr. Estêvão Soares, diante de um luzido auditório, que aplaudiu muito e profetizou no Sr. Oliveira um futuro Shakespeare.
O Sr. Dr. Estêvão Soares levou a sua amabilidade a ponto de pedir a comédia para ler segunda vez, e ontem ao encontrar-se na rua com o Sr. Oliveira, de tal entusiasmo vinha possuído que o abraçou estreitamente, com grande pasmo dos numerosos transeuntes. Da parte de um juiz tão competente em matérias literárias este ato é honroso para o Sr. Oliveira.
Estamos ansiosos por ler a peça do Sr. Oliveira, e ficamos certos de que ela fará fortuna de qualquer teatro.
O AMIGO DAS LETRAS.
Estêvão, apesar dos sentimentos que o agitavam então, enfureceu-se com o artigo que acabava de ler. Não havia dúvida que o autor dele era o próprio autor da comédia. O abraço da véspera fora mal interpretado, e o poetastro aproveitava-o em seu favor. Se ao menos não falasse no nome de Estêvão, este poderia desculpar a vaidadezinha do escritor. Mas o nome ali estava como cúmplice da obra.
Pondo de lado o Jornal do Comércio, Estêvão lembrou-se de protestar, e ia já escrever um artigo quando recebeu uma cartinha de Oliveira.
Dizia a carta: Meu Estêvão.
Lembrou-se um amigo meu de escrever alguma cousa a propósito da minha peça. Expliquei-lhe como se dera a leitura em tua casa, e disse-lhe como é que, apesar do vivo desejo que tinhas de ouvir lê-la, interrompeste-me para ir cuidar de um doente. Apesar de tudo isto, o meu referido amigo contou hoje no Jornal do Comércio a história alterando um pouco a verdade. Desculpa-o; é a linguagem da amizade e da benevolência.
Ontem entrei para casa tão orgulhoso com o teu abraço que escrevi uma ode, e assim manifestou-se em mim a veia lírica, depois da cômica e da trágica. Aí te mando o rascunho; se não prestar, rasga-a.
A carta tinha, por engano, a data da véspera.
A ode era muito comprida; Estêvão nem a leu, atirou-a para um canto.
A ode começava assim:
Sai do teu monte, ó musa!
Vem inspirar a lira do poeta;
Enche de luz a minha fronte ousada, E mandemos aos evos,
Nas asas de uma estrofe igente e altíssona, Do caro amigo o animador abraço!
Não canto os altos feitos
De Aquiles, nem traduzo os sons tremendos Dos rufos marciais enchendo os campos!
Outro assunto me inspira.
Não canto a espada que dá morte e campa; Canto o abraço que dá vida e glória!
Capítulo XI
Como havia prometido, Estêvão foi logo procurar o deputado Meneses. Em vez de ir direito ao fim, quis antes sondá-lo a respeito do seu passado. Era a primeira vez que o moço tocava em tal. Meneses não desconfiou, mas estranhou; mas tal confiança tinha nele que não recusou nada.
- Sempre imaginei, dissera-lhe Estêvão, que há na sua vida um drama. E talvez engano meu, mas a verdade é que ainda não perdi a idéia.
- Há, com efeito, um drama; mas um drama pateado. Não sorria; é assim. Que supõe então?
- Não suponho nada. Imagino que..
- Pede dramas a um homem político?
- Por que não?
- Eu lhe digo. Sou político e não sou. Não entrei na vida pública por vocação; entrei como se entra em uma sepultura: para dormir melhor. Por que o fiz? A razão é o drama de que me fala.
- Uma mulher, talvez...
- Sim, uma mulher.
- Talvez mesmo, disse Estêvão procurando sorrir, talvez uma esposa.
Meneses estremeceu e olhou para o amigo, espantado e desconfiado.
- Quem lho disse?
- Pergunto.
- Uma esposa, sim; mas não lhe direi mais nada. É a primeira pessoa que ouve tanta cousa de mim. Deixemos o passado que morreu: parce sepultis.
- Conforme, disse Estêvão; e se eu pertencer a uma seita filosófica que pretenda ressuscitar os mortos, mesmo quando é um passado...
- As suas palavras, ou querem dizer muito, ou nada. Qual é a sua intenção?
(continua...)