Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas a terrível concupiscência do nortista, sobrepujando logo a fantasia do vaidoso, não resistia à tentação de possuir, ao menos em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como dantes, começava mentalmente a despi-lo, peça por peça, até deixá-lo em pleno escândalo da carne.
* * *
Entrou em casa resolvido a levantar o vôo, custasse o que custasse.
— Sim, era preciso ir! Por Hortênsia, por sua mãe, por Amélia, por mera distração, por tudo! Precisava afastar-se daquele inferno, onde duas mulheres, como duas sombras, o torturavam; uma fugindo e a outra o perseguindo. Desde que recebeu a tremenda resposta de Hortênsia, sentia-se muito nervoso e irascível; Amélia suportava-o, sabe Deus como, fazendo milagres de paciência para não se afastar dos conselhos que lhe dera o irmão. Quase que já se não podiam sofrer um ao outro. Além disso, as cartas de Ângela repetiam-se agora desesperadamente. “Estaria a pobre mãe com efeito em risco de vida?...”pensava Amâncio. “Dependeria dele o salvá-la? ... E os seus interesses que havia tanto tempo o reclamavam?... E as saudades da pátria? E os prazeres que encontraria à volta do primeiro ano acadêmico?”
Os prazeres, sim, que Amâncio, pelo derradeiro paquete, recebera em uma das principais folhas diárias de sua província a seguinte notícia:
“Maranhense Distinto. Acaba de fazer brilhantemente o primeiro ano de seu curso na Escola de Medicina na Corte o nosso talentoso comprovinciano Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, filho de há pouco falecido e sempre chorado Comendador Manoel Pedro de Vasconcelos, um dos mais estimados negociantes que foi desta praça, enquanto não podemos pessoalmente abraçar o digno jovem e esperançoso discípulo de Hipócrates, apressamo-nos a enviar-lhe daqui os nossos sinceros parabéns, futurando em S.S, a mais uma glória legítima para a nossa
Atenas, já tão rica, aliás, em talentos privilegiados!”
Ninguém poderá imaginar o efeito que produziram tais palavras no espírito presunçoso de Amâncio. era a primeira vez que ele via o seu nome em letra redonda, seguido de alguns adjetivos laudatórios.
Por detrás daquela notícia pressentia o rapaz um paraíso de novas considerações que o esperava na província; antevia o sorriso das damas, a reverência dos pais de família e a inveja dos ex-colegas do Liceu.
— Não! não podia deixar de ir. O Maranhão, naquele momento, e por todos os motivos, representava para ele uma necessidade urgente. — Havia de meter a cabeça e varar por quantos obstáculos se lhe antepusessem.
* * *
Amélia ficou estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus projetos de viagem, tão calmo e resoluto foi o tom em que o fez; mas, voltando do primeiro choque, rompeu num grande pranto e atirou-se de bruços na cama, soluçando muito aflita. “Que era uma desgraçada! Que Amâncio a queria abandonar, depois de a ter desonrado e perdido!”
—Eu volto, filha! Disse ele, procurando fazer-se meigo. — Vou tratar de meus interesses, ver minha mãe, e volto para o teu lado! Não tenhas receio de que te engane! Eu ainda se quisesse, não podia ficar por lá, já não digo por ti, mas, que diabo! Pelos meus estudos. Pois acreditas que eu cairia na asneira de abandonálos, agora que estou tão bem encaminhado?...
— Não sei! Respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente, com as feições sumidas na vermelhidão do choro. — Você, é impossível que não tenha no Maranhão alguém à sua espera!... E essa com certeza não há de ser pobre como eu, não terá a boa-fé que eu tive!...com essa você não porá dúvidas nenhuma para casar!...
E voltaram-lhe os soluços, como um temporal que recresce.
— Estás a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra de honra em como nunca me esquecerei de ti! Que mais queres?!
— Pois então casemo-nos e partirás depois!...
— Isso é impossível! Já te disse um milhão de vezes! Oh! – Minha mãe espera-me há quatro vapores seguidos! Imagina tu como não estará ela, coitada, com a morte do velho! não hei de agora, em vez de minha pessoa, lhe apresentar uma carta pedindo licença para casar!... Que espécie de filho seria eu nesse caso?! Enquanto a pobre viúva se desfaz em lágrimas; enquanto na família tudo é luto e desgosto, o bom do filho pensa em casamento e, sem dúvida, prepara as festas do noivado!” Não! gritou ele energicamente. — Isso não faria eu, nem se me cosessem a facadas! Pelo menos, enquanto estiver com esta roupa sobre o corpo...
E sacudiu com força a aba de seu fraque de lustrina.
— Enquanto estiver com esta roupa, não penso em mulher! nada! antes de tudo, sou filho! Percebes?! Antes de tudo, tenho de olhar por minha pobre mãe, que é muito capaz de morrer se não me ver ao seu lado!
E foi, cheio de excitação, debruçar-se no peitoril da janela, fitando as plantas do jardim, a roer as unhas.
Houve um silêncio. Amélia já não chorava; imóvel, apoiando-se ao espaldar da cama, entontecia a vista contra as ramagens cruas do tapete.
— Nesse caso, ele que venha ter contigo... disse, afinal, sem erguer os olhos.
— Ora! Resmungou Amâncio, voltando-se vivamente na janela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.