Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Gabriel estendeu­se na sua poltrona, deixou cair para trás a cabeça, e espetou o teto com o mesmo olhar dos últimos capítulos.

Entrementes, Gaspar ganhava a rua, e tomava o primeiro tilburi que lhe passara perto.

— Largo do Rocio n. tal, disse ele ao cocheiro, depois de consultar a carta de Ambrosina.

O carro disparou. Pouco depois, o Médico Misterioso era conduzido, por um criado inglês, para uma saleta de espera da casa da Condessa Vésper, cujo luxo caprichoso e de primeira mão o perturbou levemente.

XXXVIII

EM CASA DA CONDESSA

Ouvia­se conversar, por entre risadas, na sala próxima.

Do som das vozes de homem destacava­se o metal estridente de uma garganta feminina.

— Quer falar à Sra. Condessa? perguntou o criado em inglês.

— Sim, respondeu Gaspar, dando o cartão.

E notou que, daí a pouco, a conversa da sala próxima era interrompida e logo ouviu um rumoroso farfalhar de sedas.

— Entre para cá, doutor! gritou Ambrosina aparecendo.

E Gaspar, depois de atravessar um pequeno gabinete, penetrou, no salão, onde conversavam animadamente.

— Dr. Gaspar Leite, disse Ambrosina, apresentando­o aos que lá estavam. Meu médico... acrescentou ela com um gesto muito gracioso.

Gaspar sorriu.

O salão era vasto e bem guarnecido, mas pouco confortável; faltava­lhe essa alma misteriosa e simpática, que os moradores vão insensivelmente comunicando aos móveis que o cercam terminando por emprestar a cada um deles alguma cousa do seu próprio caráter.

A gente sentia­se ali mal à vontade, como se estivesse em uma casa de vender trastes. É que era tudo novo em folha; os móveis rescendiam ainda ao verniz do marceneiro, as cortinas das portas e os panos das cadeiras tinham a goma com que saíram da fábrica, as cachemiras da mesa e do piano guardavam as dobras da caixa em que foram transportadas da Europa para o Brasil.

Todos aqueles trastes não nos diziam nada, não nos comunicavam cousa alguma; estavam ali, coitados! como uns pobres estrangeiros, que não sabiam falar a nossa língua. Não tinha a gente vontade de assentar­se naquelas cadeiras, encostar­se naquelas dunquerques, nem pisar naquele tapete, com medo de que viesse o mercador recomendar­nos que lhe não tirássemos o lustre da mobília.

Era esta a sensação que Gaspar experimentava ao entrar na sala de Ambrosina, e mentalmente ia comparando a insociabilidade de tudo aquilo com a franca camaradagem dos seus velhos trastes de família.

Entretanto, a bela criatura o tomara pela mão e lhe apresentava elegantemente às suas visitas.

— Este é o Sr. Rocha Coelho, deputado geral pela província da Bahia. É a primeira vez que vem ao Rio; escusa dizer que é pessoa de alto merecimento.

O deputado levantou­se apertou a mão de Gaspar, com ar, tão enérgico e grave, que lhe abanava os enormes bigodes negros e lhe fazia tremer a rebarbativa papada.

Ambos folgavam muito em travar relações.

— Este agora é o Sr. Dr. Lopes Filho, advogado distinto!

Gaspar repetiu o jogo da primeira apresentação. Folgaram muito igualmente em se conhecerem.

O terceiro não precisava ser apresentado — era o Reguinho.

Sempre magrinho, fútil, a empulhar os amigos. Os cabelos principiavam­lhe agora empobrecer e grisalhar mas ele conservava o mesmo ar passivo de menor que vive à custa da família.

— Bem; com licença! já se conhecem, vão conversando, disse a dona da casa, saindo a correr, porque ouviu na sala de jantar a voz de uma mulher, que acabava de entrar familiarmente.

Os quatro homens ficaram a olhar por um instante uns para os outros, em uma perturbação cerimoniosa. Mas entrou um criado, a oferecer chá com leite frio, e o Reguinho foi assentar­se ao lado de Gaspar e perguntou por Gabriel.

— Ah! partem amanhã? ora, eis aí o que eu não sabia... disse o Rêgo, depois de ouvir a resposta do médico.

E ofereceu logo magníficas cartas de recomendação para vários pontos da Europa. Tinha muitos conhecidos, amigos, parentes até, gente toda de grande importância! Gaspar aproveitaria muito com aquelas cartas!

O médico desembaraçava­se do obséquio; dizia que a viagem era rápida, de passeio, não valia a pena o Rêgo incomodar­se...

Mas este, com a recusa, redobrou de oferecimentos, e contou depois que estava associado com o pai numa grande empresa que os faria milionários. — Menino! Queremos dinheiro! Queremos dinheiro, sebo! rematou ele, sempre a chupar os dentes.

Pouco depois, tornou Ambrosina; estivera a falar com a modista; as visitas que a desculpassem.

E voltando­se para Gaspar com muita camaradagem:

— Então? que milagre foi este! lembrar­se dos amigos velhos?...

E acrescentou em tom grave, dirigindo­se aos outros:

— Salvou­me a vida! Estive à morte com uma fúria do maluco de meu marido! (E verdade, como vai ele?) perguntou ela a Gaspar e, informada de que Leonardo estava agora no Hospício de Pedro II, continuou, suspirando saudosas recordações: — Serei sempre reconhecida por esse serviço... Além do que, o Dr. Gaspar foi noutro tempo muito meu amigo, dava­me bons conselhos, ralhava­me às vezes...

E Ambrosina fazia­se muito amiga, muito camarada de Gaspar.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...979899100101...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →