Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Dirigiu-se imediatamente para o quarto, e apenas chegou ao limiar da porta, soltou uma exclamação:
– Enfim!
E lançou-se para a carteira. Abriu-a, apertou com o dedo polegar uma mola que havia do lado esquerdo, e no fundo da gaveta desse lado abriu-se um escaninho.
Com prontidão e destreza tirou o velho alguns papéis, que aí se achavam. Eram pela maior parte cartas.
João as foi examinando, e passando por elas sem abrir, até que parou em uma que não tinha sobrescrito.
– 12ª! exclamou o velho; enfim!
Abriu a carta e leu:
“Senhor, maldita seja a hora em que nos vimos. Esse amor fatal com que eu vos amava, e que fingistes votar-me para que eu me perdesse, se já desapareceu para nós, a nós deve ter deixado o tormento dos remorsos. Vós me fizestes a mais desgraçada, e eu me fiz a mais criminosa das mulheres. Vós me perdestes, e eu ia ser mãe, e não quisestes ser diante dos homens o pai de vosso filho. Pois bem, sabeis o que eu fiz? tremei... horrorizai-vos: eu matei meu filho; dentro de meu ventre cavei-lhe a sepultura. Agora... preparemo-nos. Teremos de dar contas a Deus, vós da honra, da inocência de uma mulher, e eu da vida de um inocente. Senhor... somos dignos um do outro; nasceram para se encontrar no mundo vós e
Mariana.”
– Enfim, repetiu o velho guardando a carta no bolso.
– Enfim!... bradou Salustiano lançando-se sobre João.
O velho recuou dois passos.
– Que veio fazer aqui? perguntou o moço.
– Vim realizar o que desde muito premeditava, respondeu friamente o velho.
– Que tirou daquela carteira?
– O que não lhe pertencia.
– Uma carta!
– Sim.
– Restitua-ma.
– Não.
– Oh! Sr. João!...
– Não, já disse.
– É porque não sabe que essa carta é tudo para mim.
– É por essa mesma razão.
– Por bem ou por mal, senhor, eu hei de reconquistar essa carta.
– Veremos.
– O senhor abusa do respeito que sempre lhe consagrei.
– E o senhor desonra o nome de seu pai.
– A carta!
– Nunca.
Salustiano atirou-se sobre o velho; os braços de ambos se entrelaçaram; e lutaram.
Longa foi a luta, e por fim triunfou o mancebo.
Com um joelho sobre o peito de João, Salustiano bradou-lhe:
– A carta!
– Nunca! respondeu o velho com voz sufocada.
O moço, apesar de todos os esforços de João, lançou a mão no bolso deste, e apoderou-se da carta.
Deixou então livre o seu adversário, e erguendo-se estendeu o braço, e mostrou-lhe com o dedo trêmulo a porta:
– Para sempre fora de minha casa! disse em desordem, e a raiva no coração. O velho respondeu:
– Sim; mas não para sempre; porque hei de voltar para vingar-me. E saiu.
CAPÍTULO XXXVI
OS DOIS IRMÃOS
RODRIGUES estava no seu posto, no alpendre.
Achava-se sentado e meditando em um canto dele.
A sua mão esquerda via-se meio cerrada a porta de seu quarto.
De repente entrou no alpendre, apressado e arquejando de fadiga, um homem que trazia as vestes em desordem, e pintada no semblante a mais viva agitação.
O velho Rodrigues ergueu-se surpreendido, e dando dois passos para o recémchegado, exclamou:
– João!
A personagem que acabava de entrar atirou o chapéu a um canto, e sentou-se na cadeira, da qual se tinha levantado Rodrigues.
Esses dois homens eram os mesmos que em certa noite Jacó vira sentados e conversando à portaria do convento da Ajuda.
Vistos agora à luz do dia e ao pé um do outro, admiraria a semelhança de seus semblantes. A única diferença que se podia notar, era ser João muito mais sangüíneo.
João e Rodrigues eram irmãos gêmeos.
– João! exclamou de novo o velho guarda-portão; que é isso?... o que tens?...
– O que tenho?... respondeu o antigo agente da casa de Salustiano; tu me perguntas o que tenho? é a raiva dentro do coração; é a vingança inspirando projetos infernais.
– Mas como?... fala!...
– Disse tudo.
– Porém vingança contra quem?
– Contra o falsário... o ladrão! murmurou surdamente João.
– Oh!...
– Sim... contra ele.
– É filho dele! disse com voz repreendedora Rodrigues.
– E também filho dela!... acrescentou lugubremente João.
– Embora! tornou o primeiro: juramos protegê-lo, lembra-te.
– Sim... sim... disse o outro com terrível acento: protegê-lo... amá-lo... ainda que ele te pise com suas botas, e te cuspa no rosto! não?!
– Como é isso?
– É assim mesmo.
– Pois ele ousou...
– Tudo, respondeu João com voz surda.
– E tu?
– Tenho sessenta anos... já não sou o mesmo; antigamente atacava cara a cara, e vencedor ou vencido, tudo estava acabado, acabada a luta. Hoje não: estou velho... minhas juntas se acham enferrujadas... lutei com um mancebo, e ele ganhou a partida; mas agora também o caso é outro... não esqueço como dantes. O forte pode bater-se braço a braço; o fraco espera atrás de uma esquina!
– João!
O irmão de Rodrigues soltou uma gargalhada nervosa e horrível; uma dessas gargalhadas filhas do furor e do desespero.
– João! queres ser um vil assassino no fim de teus dias?
– Não! bradou o outro, não!... pois é só atrás das esquinas e com a faca, com a arma da traição que se vingam os fracos?... outra vez não! eu quero estar livre... quero passear à minha vontade pelas ruas!... oh! quem sabe se eu não terei de cumprimentar um galé? ...
– João!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.