Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Ficou resolvido que a missa encomendada por Maria Bárbara seria no primeiro domingo do seguinte mês, e que Ana Rosa iria à confissão.

Mônica, sempre desvelada e extremosa por sua filha de leite, iniciara-se nos segredos desta e, como era lavadeira, todas as vezes que ia à fonte, dava um pulo à casa de Raimundo para trazer noticias dele a laiá.

Uma noite o cônego Diogo, envolvido na sua batina de andar em casa debruçado sobre uma velha mesa de pau-santo, com os pés cruzados sobre um surrado couro de onça, ainda do tempo do Rosário, a cabeça engolida num trabalhado gorro de seda, primorosamente bordado pela afilhada, lia, defronte do seu candeeiro, um grosso volume de encadernação antiga, em cujo frontispício estava escrito: “História Eclesiástica. Tomo undécimo. Continuação dos séculos cristãos ou História do Cristianismo nos seus estabelecimentos e progresso: Que compreende desde o ano de l700 até o atual Pontificado de N.S.P. Pio VI. Traduzida do espanhol. Lisboa. Na Tipografia Rolandina, l807. Com a licença da mesa do desembargo do Paço.” O bom velho perdia-se numas descrições enfadonhas sobre a seita dos Pietistas, fundada nos fins do século XVIII por Spener, cura de Francfort, quando bateram à porta do seu gabinete três pancadinhas discretas e compassadas. Marcou logo o livro, com o palito com que escarafunchava os dentes, e foi abrir.

Era o Dias. Estava cada vez mais magro e mais bilioso, porém com a figura mascarada sempre por aquele inveterado sorriso de astuciosa passividade.

— Venho incomodá-lo, senhor cônego... — Essa é boa!... Vá entrando.

E, como a visita não se animasse a falar, acrescentou depois de uma pausa:

— Mandou a carta que lhe dei?...

— Já ele a tem no papo. Atirei-a eu mesmo pelas rótulas da sua janela, na véspera do tal embarque!

— Já descobriu onde ele mora presentemente?

— Ainda não consegui, não senhor, mas quer me parecer que o patife se aninha lá pras bandas do Caminho Grande.

— Olho vivo. O traste pode surgir de repente e pregar-nos alguma partida!

— Olho vivo! Você tem feito o que lhe recomendei?

— A que respeito?

— A respeito da espionagem.

— Tenho, sim senhor.

— Então! o que já descobriu?

— Por hora nada que valha... E creia o senhor cônego que não me descuido. Além daquela busca que dei no dia de São João, não há instantinho, que possa roubar ao serviço, que não seja para dar fé do que se passa lá por casa. Mas, do que tenho apanhado, só o que me disse respeito ao negócio foi uma conversa entre a D. Anica e a velha...

— A Bárbara?

— Sim senhor.

— E então?

— É que a pequena, depois de pedir muito à avó que se compadecesse dela e obtivesse do pai liberdade para se casar com o cabra, abriu a chorar e a lamentar-se como uma varrida! E “que era muito desgraçada; que ninguém em casa a estimava; que todos só queriam contrariá-la... E porque faria isto, e porque faria aquilo!...”

— Mas o que dizia ela que faria?... Ora que diabo de maneira tem você de contar as coisas!...

— Tolices, senhor cônego, tolices de moça... Que se matava! Ou que fugia!

que se meda a freira!... E porque o casamento pra cá! e porque o casamento pra lã! Enfim, queria dizer na sua, que uma mulher nunca devia casar obrigada! Afina!, atirou-se aos pés da avó, soluçando e dizendo que, se não a deixassem casar com o Raimundo, que ela não responderia por si!...

— Então, a velha já sabe que o Raimundo ficou?...

— Parece. A rapariga, pelo menos, disse que a avó, junto com o pai, haviam de amargar muito desgosto por mor de não consentirem no casamento!...

— E o que fez ela?

— Quem, a pequena?

— Não, a velha.

— A velha enfezou-se e pô-la do quarto pra fora, jurando que antes queria vê-la estrada debaixo da terra do que casada com um cabra, e que, se o patrão...

— Que patrão senhor?

— Seu Manuel, o pai!

— Ah! o compadre.

— Sim senhor Mas sim, se o patrão, por qualquer aquela, cedesse, ela é que não consentiria no casamento da neta, e romperia com o genro!

— Bom, bom! Vamos bem! E a rapariga?

— Ora, a rapariga lá se foi choramingando para o quarto e, se me não engano, meteu-se a rezar.

— Reza, hein?! perguntou o cônego com interesse.

— E! ela reza mais agora...

— Muito bem! muito bem! Vamos maravilhosamente!

— E está toda cheia de abusões... Ainda outro dia, dei fé que ela pendurava alguma coisa no poço; logo que pude, corri para ver se descobria o que vinha a ser.

Ora o que pensa vossemecê que era?...

— Um Santo Antônio.

— Justo. Em um Santantoninho assinzinho!... confirmou o Dias, marcando uma polegada no Index.

— Bem! disse o cônego. Continue a espreitar. Mas... todo cuidado e pouco! Que ninguém perceba!... principalmente minha afilhada, compreende?... Se descobrem que você anda farejando, está tudo perdido!... Finja-se tolo!... Tenha fé em Deus! E animo! Quando apanhar qualquer novidade, apareça-me fogo! Não deixe de espiar! lembre-se de que a arma com que havemos de esmagar o bode, ainda está nas mãos dele!...

— Ora, senhor cônego, mas eu já vou perdendo a fé!... Confesso-lhe que...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...979899100101...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →