Por Aluísio Azevedo (1884)
São sempre vistos, em horas determinadas, no jardim do Rocio, no Passeio Público, assentados nos bancos de pedra, lendo jornais à sombra das amendoeiras, às vezes têm ao lado a botina que descalçaram por amor dos calos; são vistos igualmente nos edifícios públicos em construção, acompanhando as obras com interesse, como se estivessem encarregados disso, fazendo perguntas, ralhando com os operários, numa necessidade irresistível de aplicar, seja como for, a sua atividade desocupada e vadia. Não há motim, não há incinere de rua, por mais ligeiro, em que eles não intervenham, tomando logo a parte principal na coisa, repreendendo o agressor, conciliando o agredido, fazendo enfim acreditar que ali está uma autoridade civil em pleno exercício de suas funções.
São violentos quando lhes falam de política e só se referem aos homens do poder com palavrões brutais e desabridos; a alguns nomeiam sempre com alcunhas determinadas e todos os outros, que ainda não receberam o batismo de sua cólera invejosa, são indistintamente “os ladrões, os patoteiros, os vis, os traidores, os capachos do rei”! Através dos cerrados negrumes daquela miséria e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de legítimo
O Coqueiro, não obstante, se mostrava satisfeito com os seus inquilinos e dizia ter encontrado no Damião o “homem que lhe convinha”.
Aparecia por lá constantemente; gostava de ver como ia o prédio, gostava de dar uma vista de olhos pelos cantos da casa, em silêncio, de mãos no bolso, e sentia um verdadeiro prazer sempre que encontrava alguma coisinha par consertar, — algum pedaço de papel solto da parede, alguma régua despregada, alguma tábua fora do lugar.
A existência nunca lhe parecera tão corredia e tão fácil; só faltava, para complemento das ventura, que o maçante do colega desembuchasse por uma vez com aquele maldito casamento.
— Ah! então é que seriam elas!...
* * *
Mas o “maçante do colega” estava bem longe de pensar em casamento; todo ele era pouco para sofrer a cáustica impassibilidade de Hortênsia.
A caprichosa continuava no seu terrível sistema de não aviar nem desaviar. Amâncio fizera-lhe ir ter às mãos uma segunda cópia da carta subtraída, e ela em resposta aconselhou-o a que não escrevesse outra, sob pena de entregá-la ao marido.
— Pois que vá para o diabo que a carregue! Pensou o estudante, furioso, e resolveu dar o negócio por acabado.
Com efeito, durante um mês inteiro, nas poucas vezes em que teve de falar ao Campos sobre questões de interesses materiais, não passou do escritório.
— Homem! dizia-lhe o negociante. — Você só aparece aqui por fruta, e faz visitinhas de médico! Não há meios de apanhá-lo lá em cima! Neném até já se queixou!
Amâncio defendia-se com os seus estudos e com os sobressaltos em que andava depois das últimas cartas do Norte.
— Por quê? Há alguma novidade?!... perguntou o amigo cheio de solicitude.
— A velha não está boa!... explicou o rapaz. — Desde que morreu meu pai, a pobre de Cristo ainda não levantou a cabeça! Confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!...
E quedava-se abstrato, a fitar o chão, com a fisionomia paralisada por uma tristeza vidente e ao mesmo tempo irresoluta.
O outro não sem animava a interromper aquele silêncio doloroso e respeitável, mas, por fim, lembrou discretamente, com delicadeza, que não seria má uma viagem à província; talvez com isso se evitasse um desgosto maior.. Amâncio era a menina dos olhos de D. Ângela...bem podia ser que, só com a presença dele, a pobre senhora melhorasse!...
O estudante mostrou-lhe a última carta da mãe; e os dois, tendo ainda conversado com o mesmo recolhimento, vieram a concordar em que era indispensável um passeio ao Maranhão; Amâncio retirou-se, fazendo já os planos da viagem.
— Oh! exclamava ele por dentro. — Vou! Não tem que ver! Vou
definitivamente! E provo àquela mulher que não ligo a menor importância ao que ela me fez! Hei de provar-lhe que o seu procedimento em nada me alterou. Que até sigo muito satisfeito e muito satisfeito e muito senhor de mim.
E via-se já na ocasião da despedidas — frio, indiferente, sorrindo às lágrimas de Hortênsia . e sua fantasia, gozando do efeito desses devaneios, armava-lhe, ao sabor da vaidade, cenas muito espetaculosas, nas quais representava ele sempre o papel mais brilhante e mais elevado.
Via Hortênsia a seus pés, lacrimosa e mísera, suplicando-lhe por piedade que não se fosse, que a perdoasse, que se compadecesse de tamanho desespero. “Ela ali estava submissa e arrependida, pronta a cumpri de olhos fechados as ordens de seu querido Amâncio, do seu senhor, do seu Deus, do seu tudo!”
Ele, então, com um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo um charuto:
“Não , filha, tem paciência! E se insistes, vai tudo às mãos do Campos!...”
Hortênsia, ao ouvir estas palavras, estorcia-se numa aflição teatral, e logo que Amâncio se dispunha a partir, desabava de costa, quase morta, justamente como as heroínas dos romances que ele devorara aos quinze anos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.