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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Manipanso?! repetiu o Conselheiro com um frouxo de indignação e de tosse. A Aimée um manipanso?! Ah, que se não fosse por temor ao escândalo, dava eu aqui mesmo a única resposta que merece semelhante sacrilégio! Chovam do estrangeiro as condessas que choverem; a Aimée há de ser sempre a Aimée! Ora sebo!

— Não, Conselheiro, tenha paciência! Pode V. Ex.ª, esbugalhar os olhos como quiser e fazer­se ainda mais roxo do que está, não admito mulher mais bela que a Condessa Vésper! A Condessa Vésper! Ver a Condessa Vésper, e morrer!

— Pois sim! Não aparecem duas Aimées no mesmo século, meu caro senhor!

— Além disso, que mulher fina! Que francês o seu! Que chic! Que verve! Que...

Mas foram interrompidos por um formidável zunzum. Ambrosina nesse instante passava pela rua de Gonçalves Dias.

Ia toda cor de pérola, luvas até às axilas; governava ela mesma, com muita graça o seu phaeton, e da traseira o macaco guinchava, a fazer momices extravagantes.

Correram todos para lá, com um frenesi escandaloso. Os negociantes, em mangas de camisa, abandonavam o balcão; senadores, deputados, proprietários, janotas, comendadores, repórteres e estudantes, tudo que há de bom e tudo que há de mau em trânsito pela rua do Ouvidor, se abalroou numa só onda. Era um delírio de curiosidade!

Vênus passava!

E um pequeno italiano, com um maço de folhas de baixo do braço, gritava no seu mau português "Jornal da tarde! traz o retrato da bela condessa russa! Quarenta réis!"

Os grupos compravam avidamente a folha.

Entretanto, por essas mesmas horas da tarde, em casa de Gaspar, dizia este ao enteado:

— Mas, com todos os diabos! és ou não és um homem?!

— Descansa que irei...

— Resolve­te então por uma vez! Está tudo pronto; a velha Benedita aboletada na ordem da

Conceição, os meus doentes recomendados a um colega de confiança, os nossos papéis despachados... só nos falta partir!

—Já te não merecem crédito as minhas palavras...

— Que dúvida!

— Pois olha que não fico zangado contigo por semelhante cousa.

E tomando um ar mais refletido:

— Sei qual é o motivo de tuas desconfianças, mas tranqüiliza­te, meu Gaspar, que não são inteiramente infundadas...

— Estás agora a fazer­te de forte ...

— Juro­te que entre mim e Ambrosina nada mais existe! Ameia­a, amei­a muito, não nego! Fiz loucuras, fiz delírios; adorei­a, enfim! Desde, porém, que ela se despojou da auréola que a minha imaginação lhe emprestara, deixou de ser ídolo, para ser lodo, para ser uma cocote vulgar e ridícula! O que eu nela supunha elevado e digno, nada mais era que o brilhante reflexo do altar em que a coloquei; uma vez fora de lá, o que queres tu que eu nela ame?

E Gabriel, voando pelo passado, acrescentou com febre:

— Sim! eu adorava aquela mulher! Seria, por ela, capaz de todos os sacrifícios; mas, quando a vi de volta à Corte, ostentar cinicamente a degradação e o vício quando a vi feliz e radiante no meio da esterqueira ... Ah! Gaspar! foi tal a repugnância, tal o nojo que senti, que ainda agora pergunto a mim mesmo como pude desprezar­me ao ponto de idolatrá­la?!

— Falas com muito calor, para que eu possa acreditar no que dizes...

— Dou­te a minha palavra de honra que assim é. Ambrosina para mim morreu! A criatura que agora passa todas as tardes pelo Catete, a governar um phaeton, já não é ela, é uma infeliz que se confunde com todas as outras dissolutas.

Mas, em todo o caso, partiremos amanhã...

— Sem dúvida!... Não que me arreceie de ficar no Rio, mas só porque assim é necessário para o meu futuro.

— Ah! se tudo isso fosse sincero!.

— Acredita que é! Digo­te até com franqueza que a mim mesmo não perdôo haver­me iludido tanto! Não sei onde diabo tinha eu a cabeça para me deixar influenciar tão estupidamente por uma mulher medíocre, porque, afinal de contas, como ela se encontram mil a cada passo!...

— Ora! não sentes o que está dizendo!...

— Verás!

— Afianças então que já não sentes cousa alguma por Ambrosina?...

— Ó homem! como queres que te diga que não?!

— Pois então, sabe de uma cousa — tenho aqui uma carta dela para ti...

— Hem?! perguntou Gabriel, com um espontâneo movimento de interesse; mas, caindo logo em si, acrescentou com indiferença: — Ah! podes lançá­lo à rua, porque não a lerei...

— Dás­me então licença que a abra?...

— Toda!

— Porém, com a condição de te não dizer o conteúdo...

Gabriel respondeu com um gesto de desdém. Gaspar rompeu o sobrescrito, desdobrou a carta e leu­a. Mas, à proporção que seus olhos a devoravam, uma ligeira palidez ganhava­lhe a fisionomia.

— Cortesias!... disse ele depois, fingindo tranqüilidade; uma carta de cumprimentos...

E, antes que o rapaz cedesse à tentação de lê­la também, já o médico a havia substituído por outra, que rasgara em pedacinhos e lançara pela janela.

— Bom! disse afinal, tomando o chapéu e a bengala. Posso então contar contigo amanhã?

— Pela milésima vez: sim! respondeu Gabriel.

— Bem. Até logo.

— Adeus.

E quando o padrasto já transpunha a porta:

— E verdade! onde jantas hoje?

— No Mangini.

— Pois até lá.

(continua...)

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