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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em 1790, Belchior Soares deixou por seu falecimento um legado à irmandade para subsistência ou aumento de outro capelão do coro, uma casa na rua do Sacussarará, que depois se denominou rua da Quitanda, e que outrora assim se chamara por um motivo que eu não ignoro, mas não quero dizer, porque estou tratando de um assunto muito sério e não devo provocar o riso aos meus companheiros de passeio.45

Finalmente, o Bispo D. José Caetano, em consideração do aumento das rendas do patrimônio do coro, elevou a dez o número dos beneficiados ou capelães, e aumentou as côngruas destes.

O Bispo D. Frei Antônio do Desterro, em provisão de 29 de novembro de 1764, deu estatutos para o regime do coro, estatutos que foram reformados com aprovação do nosso atual e venerando bispo em 1854, como se vê da provisão de S. Exa Revma de 27 de outubro desse ano.

“O trecho entre a Rua do Carmo (7 de Setembro) e a do Ouvidor (então de Gadelha) recebeu diversos nomes, tais como travessa de Lucas do Couto, de Tomé da Silva, do Malheiros e do Sacussará. Davam este último nome ao canto onde tem sede o estabelecimento Borlido. Houve quem pensasse que Sacussará é de origem tupi! “Conta-se a seguinte anedota:

“Certo morador da rua passou mal a noite por força de incômodos para os quais a medicina moderna emprega os preparados de hamamelis virginica (hemorróidas). Ao chegar de manhã à janela, dá de cara com um vizinho, cirurgião (sic) inglês. Este inquire do doente a causa dos seus males. ‘Oh! Isto não é nada. Faz isto (aconselha ao doente um remédio) e seu...sarará.’

“O inglês dera o nome aos bois. Serviu-se de um termo que as conveniências mandam calar.”

O patrimônio da instituição do coro da irmandade de S. Pedro se compõe de cento e treze apólices de 1:000$, de duas de 800$, de cinco de 600$, de uma de 400$ e de quinze moradas de casas que rendem 14:550$000.

Cumpre notar que o número de apólices relativamente avultado que aparece, tanto no patrimônio do coro, como no da irmandade, é em sua máxima parte o fruto da conversão de prédios que a irmandade e o coro possuíam. A venda desses prédios e a compra de apólices foram uma medida financeira da administração do monsenhor Antônio Pedro dos Reis, medida que deu em resultado um aumento de renda, o que é uma útil e excelente lição que deve ser aproveitada por todas as corporações de mão-morta, quando o país, mostrando-se em mais animadoras condições econômicas, puder oferecer-lhes as vantagens que em 1854 e 1855 ofereceu à irmandade de S. Pedro.

Tenho dito quanto sei a respeito da instituição do coro os irmandade de S. Pedro. Passo, portanto, a contar a história da terceira e última instituição, que é a dos socorros aos sacerdotes e irmãos pobres, que me parece, em verdade, a mais interessante de todas, por alguns episódios e algumas circunstâncias que a ela se prendem, e de que não dão conta as memórias e os manuscritos que se podem consultar; mas que eu consegui ler em alguns bons e conscienciosos arquivos de oitenta e noventa anos, arquivos que pouco a pouco vão desaparecendo, como desapareceremos todos.

Em 25 de julho de 1756, o irmão secular Antônio Fernandes Maciel fez à irmandade de S. Pedro doação da quantia de 800$, para que com os juros desse dinheiro se dessem anualmente, no dia de Todos os Santos, dezesseis esmolas de 1$ cada uma a dezesseis pobres de mais necessidades, à eleição da mesa, preferindo-se na distribuição os próprios irmãos. Ficando, além disso, a irmandade obrigada à pensão de quatro missas anuais e dois responsórios por alma do instituidor.

Esta doação era em verdade tão insuficiente para produzir socorros aproveitáveis aos irmãos necessitados, e além disso, as condições com que ela se fizera tão facilmente permitiam que as fraquíssimas esmolas fossem dadas a pobres que não pertencessem ao grêmio da irmandade de S. Pedro, que não é admissível referir àquele ano de 1756 o princípio da instituição de que vou tratar.

A instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da ir mandade de S. Pedro começou em 1812, e foi devida à caridade do sargento-mor Alexandre Dias de Resende.

Quero dizer-vos alguma coisa a respeito deste homem piedoso, cuja história deixaram esquecida os nossos escritores, e apenas hoje se pode colher da memória dos bons velhos, últimos representantes que nos restam do século passado.

Alexandre Dias de Resende era homem pardo. Seu pai tinha sido um carpinteiro laborioso e econômico, que lhe deixara uma pequena fortuna, que ele soube aumentar pouco a pouco, entregando-se ao comércio, de modo que, além da sua casa mercantil, adquiriu também a propriedade de uma grande chácara no caminho de Mataporcos para

S. Cristóvão.

(continua...)

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