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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Foi direitinha à porta do “Purgatório-trigueiro”.

– Ah!

– Tirou debaixo da mantilha e estendeu para fora um lindo braço, e com formosa mão...

– Então viu também que o braço era lindo, e a mão formosa?

– Sem dúvida; porque em um dos dedos dessa bela mão havia um anel de brilhantes.

– Oh! que homem admirável; até nisso reparou! como pôde ver esse anel?

– Brilhou, como só brilha uma pedra de alto preço.

– Está bom... deixemos o anel.

– Ao contrário: o anel é uma circunstância muito importante. Ele só, vale uma prova no libelo acusatório.

– Por quê?

– Porque a viuvinha recebeu há três dias da mão de seu noivo um anel de brilhantes, e não o tirou mais do dedo.

– Como soube disso?

– Uma escrava da viuvinha o contou lá à senhora.

– Por conseqüência?

– Por conseqüência recaem todas as suspeitas sobre a viúva.

– E que mais?

– A mulher de mantilha bateu à porta do “Purgatório-trigueiro”, abriram-lha, ela entrou, e esteve lá mais de uma hora.

– E depois?

– Voltou para o “Céu cor-de-rosa”.

– Não sabe mais nada?

– Sei que a tal senhora tirou a mantilha dentro do “Purgatório-trigueiro”.

– Isso importa pouco; mas como o soube?...

– Porque, quando ela foi para lá, a mantilha arrastava pelo lado esquerdo, e quando voltou, estava muito mais curta desse lado, e ia varrendo a rua pelo outro.

– Sabe só isso?

– Não: sei ainda mais alguma coisa.

– Vá dizendo.

– O velho coruja vai todos os dias conversar com a velha bruxa.

– Ontem?

– Esteve lá ao anoitecer.

– Hoje?

– Para lá foi ao romper do dia.

– De que tratou?

– Sempre do amor do enjeitado e da órfã.

– De que trataram hoje? o que disseram?

– Não pude saber: o diabo da velha, quando o coruja entrou, mandou a negra fazer as compras para o almoço.

– Tem ainda alguma coisa a esse respeito para dizer?

– Por hoje mais nada.

– Então pode voltar depois de amanhã às mesmas horas.

– Serei pronto. Nunca me esqueço o quanto convém ter em lembrança os dias de aparecer nos casos de apelação.

– Estamos justos.

As últimas palavras de Salustiano significavam uma despedida; mas Jacó ficou firme em sua cadeira com o semblante prazenteiro, e os olhinhos vivos como sempre.

Salustiano pareceu incomodar-se com a demora de Jacó, e disse:

– Quer mais alguma coisa?

– É provável.

– Diga.

– Quero que me dê cem mil-réis.

– Oh! há três dias que lhe dei igual quantia.

– Sim, respondeu o ex-escrivão soltando uma risada; mas V. Sa. esquece-se de que agora temos dois negócios.

– Dois? como é isso?

– Pois então?... agora tem V. Sa. de pagar-me o trabalho de ser o espião de polícia e dos seus amores.

– Convenho.

– E depois... aqueles papéis...

– Oh! o senhor é exigente demais! por aqueles papéis, disse Salustiano empalidecendo, deu-lhe meu defunto pai por uma só vez quatro contos de réis.

– Sim... sim... mas por causa daqueles papéis estive na cadeia oito meses e perdi o meu querido ofício.

– E faltou à sua palavra!

– Como é isso?...

– O senhor havia recebido quatro contos de réis para queimar o processo.

– Assim era eu tolo! aqueles papéis são verdadeiras letras de dinheiro, que eu tenho a juros.

– E nem ao menos se lembra de que já não poucas vezes o tenho liberalmente socorrido?

– Sim; mas V. Sa. tem obrigação restrita de pagar-me perdas e danos.

– Em uma palavra e para acabar de todo com estas questões, o senhor quanto quer receber de uma vez por esse processo?...

– Cedendo-lhe todo o direito que tenho a ele?

– Por certo.

– Chama-se a isso queimar a minha fortuna, disse sossegadamente o ex-escrivão.

– Enfim...

– Enfim... dar-lhe-ei esses papéis com a mão direita, exatamente no momento em que V. Sa. me depositar na esquerda uma quantia igual à que me deu o senhor seu pai.

– Quatro contos de réis! é muito!

– Então não temos nada feito. Conservarei o processo.

– Oh! mas é preciso acabar com isto; quando volta o senhor aqui?

– Já disse que dou grande importância aos dias de aparecer: depois de amanhã virei receber as suas ordens.

– Traga-me o processo.

– Dar-me-á os quatro contos? Sim.

– Palavra de honra?

– Sim.

– Bem. Às ordens de V. Sa.

– Até depois de amanhã.

– Mas ah! disse Jacó suspendendo-se, pois que já ia saindo, falta ainda alguma coisa.

– O quê? perguntou Salustiano.

– Os cem mil-réis.

– Ainda!

– São juros vencidos; a satisfação do principal é conta à parte.

– Depois de amanhã...

– Perdoe-me V. Sa., mas eu preciso hoje dessa quantia.

Salustiano arremessou-se para dentro do seu quarto; Jacó estendeu o pescoço, e viu o mancebo abrir uma carteira de jacarandá já meio usada, e tirar dela alguns bilhetes.

Salustiano, na agitação em que estava, deixou a chave na carteira, e voltou ao gabinete com o dinheiro.

– Eis aqui os cem mil-réis, disse ele entregando os bilhetes a Jacó.

O ex-escrivão, apenas recebeu o dinheiro, tomou o chapéu, fez uma profunda cortesia ao moço, e foi saindo.

Salustiano o seguiu de perto, e desceu com ele as escadas.

Pouco depois de haverem os dois deixado o gabinete, entrou João.

O velho ia sentar-se na cadeira que pouco antes havia ocupado, quando notou que a porta do quarto de Salustiano estava aberta.

(continua...)

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