Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Como todos estes homens, a quem eu amo, desconhecem o meu coração!... como é que meu pai pôde dizer-me — falarás livremente —! como é que este homem animou-se a escreverme — de que vale, de que serve o amor de um pobre!... — então este... este me compreende ainda menos do que meu pai!...
E depois começou a ler as páginas do livro da alma do moço loiro.
XXX
Ao crepúsculo
À luz dos últimos raios do sol, lia Honorina as páginas escritas do livro de amor do moço loiro: uma profunda melancolia, às vezes acerba, estava em quase todas elas derramada.
Julgava-se o moço loiro verdadeiramente infeliz? ou sua tristeza era ainda fingida, como a que afetara na noite do sarau de Tomásia?... exprimia naqueles papéis uma dor terrível e real, ou neles jogava sua derradeira carta para ver se ganhava a partida?...
Longo e afatigador fora acompanhar a filha de Hugo de Mendonça na leitura que começara; parece talvez melhor transcrever aqui apenas o que for suficiente para dar uma idéia dessa peça, que, em suma, é tão vã e inconseqüente, como qualquer outra do mesmo gênero, como qualquer carta de amor.
No entanto, por deferência a seu autor, conserva o título e a epígrafe, com que se orna. Era pouco mais ou menos o seguinte:
LIVRO DE MINH’ALMA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Je t’aime!
Et le dire ici, c’est le bonheur suprême!...
V. Hugo
I
Eu vi uma mulher verdadeiramente bela.
Seus cabelos são negros e luzidios como o azeviche; seus olhos grandes, pretos e ardentes dardejam vistas de fogo tão penetrantes como os raios do sol.
Sua fronte branca, elevada e lisa é o trono do mais nobre sossego; seu rosto pálido, melancólico e doce o assento da graça mais arrebatadora; seus lábios encarnados, virginais e puros a fonte das mais angélicas delícias.
E abaixo de seu colo garboso, como o da garça, há um mar de leite, que, quando ela suspira, se agita... se inquieta... e... então lutam aí de mistura pudor e desejos; inocência e amor; candideza e voluptuosidade!... e então quem a está olhando, sente... anela... arde.
Seus braços são alvos e torneados; e suas mãos delicadas e finas; seus dedos dir-se-iam brandas hastes de cristal, cada uma das quais fosse coroada por uma pétala de rubra rosa. Seu pisar é subtil como o da pomba... o volver de seu vulto engraçado como o fugir da sombra... o seu falar meigo e harmonioso como a melodia de um anjo.
Ela tem a gentileza da aurora; a frescura do favônio; a suavidade e pureza do arroio do deserto.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um olhar de amor de seus olhos, uma palavra de amor de seus lábios, e um suspiro de amor de seu seio deve ser o complemento de todas as felicidades que se podem dar cá na terra... Porque enfim... ela é uma mulher verdadeiramente bela.
II
E antes de ver essa mulher, já eu a amava muito; porque já a tinha ouvido.
Era uma noite serena e fresca: eu passeava melancólico e abatido à borda do mar, quando de repente uma voz — ah! uma voz como outra igual nunca dantes havia soado!... suave, melíflua e tocante, que, entrando por meus ouvidos, ia até à medula de meus ossos, até ao âmago de meu coração, que se entranhava por minha alma!... — entoou um hino à inocência.
Debalde o canto acabou... debalde; porque eu o estava ouvindo sempre, e dentro de mim mesmo... e ali fiquei estático, entre o céu e a terra, entre a consciência do meu nada, de minha pobreza, de minha desgraça; e essa voz fascinadora, que pôde fazer-me crer que é possível a felicidade cá embaixo, quando se vive toda uma vida com os olhos embebidos nos olhos, com os ouvidos perto dos lábios desse anjo, que canta assim.
O sinal da meia-noite arrancou-me do meu encanto... lembrei-me, então, que sobre a minha cabeça, debaixo de meus pés, e em derredor de mim havia mundo e miséria; porque até essa hora eu tinha esquecido tudo... tudo... ocupado somente com duas idéias que eram a onipotência de Deus e a existência dessa mulher.
A lua estava clara e brilhante... vi, a curta distância, aberta a porta de um jardim, e no meio deste erguer-se uma frondosa mangueira debaixo da qual tinha saído a voz que me arrebatara. Entrei... um braço invisível e forte me arrastava para aí... eu queria, ao menos, beijar as pisadas dessa mulher.
Avancei alguns passos... a claridade da lua mostrou-me dois vultos de moças recostadas em uma janela; senti dentro de mim um desejo invencível de ouvir o que diziam as duas moças, de julgar de sua beleza se possível fosse...
Não as vi tão bem, como anelava...
Mas o que eu ouvi não me esquecerá mais nunca!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Meu Deus!... meu Deus!... vós não sentis que a sensibilidade é o maior dos tormentos do homem pobre?... não é bem verdade que os pobres deveriam poder viver sem coração?...
Pois o que há de fazer o homem pobre, quando ama?...
Abafar o seu amor?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.