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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— São horas! disse suspirando o Bernardino Santana. Pelas janelas entrava, acentuada, a viração da tarde. O Cazuza Bernardino arrancara a mulher de junto do cadáver. D. Mariquinhas saiu soluçando gritos. As mucamas choravam ruidosamente, em coro. Fechou-se o caixão à chave. Organizou-se o préstito. O José do Lago ia à frente com a caldeirinha. Macário seguia-o com a cruz. Vinha logo após a irmandade do Santíssimo, com o Chico Fidêncio à frente, empunhando o pendão. Depois era o féretro carregado por seis amigos do pai do finado. O preto Filipe vinha logo atrás, carregando o mocho. Os convidados cercavam o préstito, sem ordem.

Quando o caixão transpunha a porta da rua, ouviu-se no interior da casa um grande grito de mulher.

— É a D. Mariquinhas que está com um ataque, disseram.

— Aquela está pronta, notou o Regalado. O Cazuza bem mostra que é trabalhador.

O enterro seguiu pela segunda rua até ao cemitério. Havia mulheres às janelas e crianças às portas das casas. Ouviam-se expressões de pesar por toda a parte. Coitadinho, tão moço e tão bonito! E dizem que morreu de paixão!

Uma grande tristeza envolvia a vila. O tempo mudara por volta de cinco horas, e o céu estava toldado. Um vento carregado de umidade soprava do lado do sul. O sol escondia-se lentamente por trás da serra.

No caminho os homens que carregavam o caixão renovaram-se duas vezes. Quando o préstito parava, a conversação estabelecia-se a princípio em voz baixa, e depois em tom natural, como num passeio.

No cemitério, quando depuseram o caixão de Totônio Bernardino no fundo da cova escura e fresca, o professor Aníbal Americano Selvagem Brasileiro recitara uma poesia que começava assim:

MORTO POR AMOR NÊNIA

E morreste na flor da mocidade,

Teu pai, coitado, aí ficou chorando...

Macário não se recordava do resto. Mas eram versos muito bonitos que o Costa e Silva prometera mandar para o Diário do Grão-Pará, apesar do Regalado dizer que o tal professor era um idiota.

O Costa e Silva, porém, confirmara a promessa. Ficasse o Sr. Aníbal descansado. Havia de mandar os versos, e os mandaria já, porque queria ter o gosto de os ler impressos antes de sua partida para o Madeira.

Quando o pobre do Totônio Bernardino ficou bem enterrado sob uma grande camada de terra negra e úmida, e os convidados começaram a retirar-se, o Chico Fidêncio passou o pendão do Santíssimo às mãos do Quinquim da Manuela, e chamando o sacristão Macário, levou-o para um canto, passando-lhe um braço pelo pescoço, numa familiaridade agradecida.

Queria mostrar-lhe uma cópia da correspondência que enviara pelo último paquete ao Democrata de Manaus. Tratava da missão à Mundurucânia.

E naquele canto do cemitério, à fraca claridade do crepúsculo da tarde, o Chico Fidêncio leu o seguinte trecho:

"O escritor destas modestas e despretensiosas linhas gaba-se de não se deixar iludir pelos homens de roupeta e chapéu de três bicos que o senhor D. Antônio encomenda para Roma, ou forja no Seminário maior para a obra da romanização (permitam-me o vocábulo) da sua diocese; mas sabe curvar-se diante dos verdadeiros apóstolos do Nazareno, que não vendem indulgências, mas expulsam os vendilhões do templo.

Por mais livre-pensador e despido de abusões ridículas que um homem se preze de ser, não pode deixar de admirar o zelo (digno de melhor causa!) desses ministros de Cristo, que, desprezando os regalos da vida que lhes facilita o erário público, fornecendo-lhes um excelente lugar à mesa do orçamento, atiram-se aos perigos da catequese dos íncolas da floresta, através de mil privações e misérias, para granjearem a palma dum martírio sublime, mas inútil para á sociedade, porque os índios são uma raça decadente e refratária ao progresso, e que, conforme já se provou na grande República Americana, só podem ser civilizados a tiro. Padre Antônio de Morais era um desses raros exemplos de abnegação e culto do Evangelho. Era um soldado da idéia (antiquada!) que soube morrer no seu posto, e que deve servir de modelo aos carcamanos que nos mandam de Roma. O escritor desta, mais do que qualquer outro, tem o dever de fazer-lhe justiça, porque, vendo os seus ares modestos e os seus olhos baixos, cometeu o erro de tomá-lo por um desses muitos hipócritas que zombam da religião e da sociedade, introduzindo a discórdia no seio das famílias, e que tanto abundam no clero paraense. Felizmente, para que os ilustres feitos desse apóstolo da fé de nossos pais não ficassem desconhecidos, o Acaso conservou-nos o seu modesto, mas digno companheiro, o honrado e zeloso sacristão da freguesia, Sr. Macário de Miranda Vale, salvo da sanha dos parintintins pelo cego instinto roedor dum pobre animalejo, no qual o povo ignorante e embrutecido pelos padres quer ver um enviado da Providência Divina..."

CAPITULO X

Felisberto, entreabrindo a porta do quarto, meteu pela fresta a curiosa cabeça, e perguntou:

— Agora está melhor?

(continua...)

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