Por Aluísio Azevedo (1884)
Para estes últimos cuidados arranjou-se um homenzinho meio corcunda, português, esperto e rafeiro como um rato um pouco falador, mas muito experimentado naqueles serviços. Coqueiro dar-lhe-ia alguma coisa por mês e um canto da casa para dormir. “Uma pechincha!”
Fechado o negócio, tratou o proprietário de dividir a sala de visitas e a varanda do sobrado em pequenos repartimentos de tabique, forrados de papel nacional. É inútil dizer que neste ponto foi indispensável a intervenção pecuniária de Amâncio, que ficou por conseguinte com direito sobre uma parte dos rendimentos do prédio.
E também não é menos inútil declarar que o provinciano, nem de longe, sentiu jamais o cheiro da tais rendimentos.
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Mas o certo é que as obras se fizeram, e a célebre casa de pensão de Mme. Brizard, outrora tão animada e concorrida, transformou-se num desses melancólicos sobradões de alugar quartos, que se observam a cada canto do Rio de Janeiro e onde, promiscuamente, se aninha toda a sorte de indivíduos, mas de indivíduos que já foram alguma coisa ou de indivíduos que ainda não são nada.
Aí, as mais belas e atrevidas ilusões vivem paredes-meias com o mais denso a absoluto ceticismo. Velhos boêmios, curtidos nos venenos e todos os vícios e no segredo de todas as misérias, encontram-se diariamente, ombro a ombro, com os visionários estudantes de preparatórios.
É nessas praias desamparadas à ventania da sorte que a sociedade costuma arrevessar o destroço dos que naufragaram nas suas sua águas, mas é daí também que ela pesca às vezes novas pérolas para p o seu diadema. Há de tu — homens de todas as nacionalidades, sujeitos devida misteriosa, solteirões libertinos e neutralizados pelo venéreo, artistas completamente desconhecidos que se imaginam vítimas do meio, e supostos talentos que vivem para amaldiçoar a fortuna dos que conseguiram vencer na vida.
Quase todos eles têm na sua vida um fato, uma época, uma coisa extraordinária, para contar: um, apresenta a honra de lhe haver morrido nos braços tal homem célebre; outro, diz que foi amante da senhora condessa de tal; outro afiança e jura ser o verdadeiro , se bem que obscuro, promotor e tal acontecimento histórico; outro, revela um romance de amor que lhe cortou a carreira, mas que o imortalizará em vendo a luz da publicidade; outro, confia numa invenção, “é o seu segredo”, um projeto mecânico, ou industrial ou econômico — político; outro, não aceita emprego nenhum do atual governo, e espera a ocasião de “pegar numa espingarda e fuzilar as velhas instituições de seu miserando país”; outro, enfim, ( e são os menos raros) têm apenas para exibir em honra própria a circunstância de algum parentesco ilustre.
Ah! Não se encontram aí notabilidades de nenhuma espécie, mas sim
parentes. Este , é sobrinho de tal poeta ilustre; aquele ,é irmão do ministro tal, que deu o nome a tal rua; estoutro, cunhado ou primo em terneiro grau do glorioso artista Fulano dos anzóis.
E os tipos, quando lhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como se participassem das glórias do festejado parente; pelo menos, ninguém os apresenta a qualquer pessoa, sem acrescentar logo, com assombro: “Ó senhor! Por quem é...não me confunda!...”
É também desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem certas figuras que, às vezes, nos espantam na rua, — tossicar dentro de um sobretudo enorme, um xale — manta em volta do pescoço, um bengalão entre os dedos e na fisionomia um ar melancólico e ao mesmo tempo irritado.
É daí, desses quartos silenciosos, úmidos e tristonhos, como sepulturas vazias, que surgem com o seu passo inalterável e pousado os sinistros aranhões, que vemos passear estranhamente pelos jardinas públicos, ao sol das boas manhãs de inverno.
Coitados! São em geral homens sem meios de vida, protegidos por algum figurão qualquer, de quem, ou foram colegas na academia, ou ainda continuam a ser parentes com a mais cruel pertinácia. Quando falam desse protetor feliz e rico não se animam a dizer mal, mas à sua fisionomia acode invencível sorriso cheio de velha bílis acumulada e sôfrega por transbordar. Uns vão regularmente comer a certas casas comerciais, outros se arranjam pelas impossíveis casas de pasto da Cidade – Nova, os “fregues”, onde as refeições não passam de duzentos réis. Alguns têm o almoço seguro à mesa de um velho amigo de melhores tempos, o jantar em casa doutro; às sextas – feiras são infalíveis nas comezainas gratuitas dos frades de São Bento. Uns, passam a noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando café nos quiosques às quatro e meia da manhã e então, durante o dia seguinte, dormem a fartar; outros, recebem donativos de alguma irmandade religiosa, à qual se filiaram em épocas de prosperidade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.