Por Aluísio Azevedo (1897)
— Foi! será talvez ainda hoje, mas cada dia que passa é um degrau que ele sobe! Sem instrução, sem dinheiro, sem protetores, conseguiu todavia não se deixar morrer. Já é muito! E não se deixar corromper; o que é tudo! Ah! tu não podes fazer idéia do que é a existência, aos vinte anos, quando a temos de extrair de nós mesmos; nunca viveste nesse inferno, mas em compensação, nunca desfrutarás o paraíso que se alcança depois de atravessálo. E sabes por que razão Gustavo resistiu e venceu com tanta coragem às suas dificuldades? É porque tem um ideal. Eu próprio, ao ler os seus primeiros trabalhos literários, não pude deixar de rir, e cheguei a ter compaixão do pobre pretensioso; o segundo trabalho foi melhor, porém, que o primeiro, e, ao sexto ou décimo, já ninguém sorria, e muitos principiavam a confiar no futuro do novo literato. Vê como ele caminha agora!
Pela sua perseverança, pelo seu esforço, começa a galgar posição. Já é alguém! os jornais ocupamse dele em todo o Brasil, e pouco lhe falta para ter um nome feito. Agora é que Gustavo já não precisa absolutamente de nenhum de nós dois, e principia a sentir, por mim e por ti, uma compaixão muito mais legítima do que aquela que me inspirou noutro tempo. E, à proporção que for ele caminhando, essa compaixão, se não trabalhares, irá crescendo, na razão direta do seu desenvolvimento e na inversa da tua decadência... Sim! porque tu, se não trabalhares de qualquer forma, hás de fatalmente decair. É justamente essa diferença que há entre tu e ele. Tu gastas e ele ganha; ambos caminham para os extremos — ele da fortuna, e tu da miséria!
Suponho que estás em erro...
— Eu tenho certeza de que não estou. Todos nós nos achamos dentro do mesmo círculo destas leis de existência. Entretanto, o único fato que estabelece a superioridade de Gustavo sobre ti, é simplesmente a circunstância de haver ele nascido pobre, e tu rico. Para dizer tudo, acho até que tens mais talento do que ele e poderias, se não fosse a riqueza, ir muito mais longe e muito mais depressa.
— Mas, a que trabalho me hei de eu agora dedicar? estou velho, Gaspar!
— Qual velho, o quê! Para remediar um mal nunca é tarde! Principia por acabar de vez com a vida que levas, e vê se te casas. A família é uma responsabilidade efetiva, que te porá em ação para outras conquistas.
— Casarme? Ah, isso é que não é possível!
— Não sei por que, mas adiante!
— Também acho pouco fácil romper de golpe com os hábitos e as relações que me cercam.
— Isto é o menos; depois da viagem que vamos fazer, nada disso existirá. Podes na volta começar vida nova.
Gabriel concentrouse por algum tempo, e afinal levantandose da poltrona, bateu com a mão fechada sobre a mesa:
— Pois está dito! exclamou ele. Vou trabalhar! Hei de ser um homem!
— Muito bem! disse Gaspar, abraçandoo. Só assim não levarei remorsos para a sepultura...
— Afiançote que não os levarás!
— Conto contigo!
— Mas, nós precisamos partir o mais breve possível.
— Quanto antes!
E os dois iam entrar nos projetos da sua nova existência, quando a criada os interrompeu. Era uma carta para Gabriel.
— Semvergonha! resmungou este, depois de a ler.
— O que é? perguntou Gaspar.
— Nada... é aquela peste da Ambrosina que acaba de chegar da Europa, e tem o descaro de escreverme...
— Mau... mau!... exclamou o médico, deixandose cair numa cadeira.
XXXVII
PASSAGEM DE VÊNUS
A Condessa Vésper continuava a ser a ordem do dia na rua do Ouvidor. Seu nome corria de boca em boca, pronunciado, com quebramentos de olhos e sibilos de volúpia.
Por toda a parte se falava nela.
— Não imaginam! É uma escultura! uma verdadeira escultura! dizia um sujeito bem vestido num grupo em casa dos Castelões. Viajei por quase toda a Europa, parte da Ásia, conheço África, bati a América de um lado a outro, gastei com as mulheres de mais afamada beleza, tive mulatas e negras, louras irlandesas, espanholas morenas, frias inglesas, e francesas de toda a casta, mas confesso que nunca vi um corpo comparável ao desta! — É simplesmente assombroso!
E o homem, entusiasmado pelo efeito que as suas palavras produziam na roda, deixavase arrastar por elas e exagerava ferozmente os dotes físicos de Ambrosina, gozando da suposta superioridade de ser ele ali o único que a conhecia de perto, e fazendo disso um glorioso direito de a defender como cousa sua, sem admitir que ninguém no mundo conhecesse mulher mais bela e sedutora.
— Não! deixe lá! opunha um velhote, com um sorriso cheio de autoridade e boas recordações; deixe lá! Há de ser muito difícil encontrar um corpo como o da Aimée! Aquilo é que era mulher!
E o velho mordia os beiços com o que lhe restava os dentes.
— Ora, Conselheiro! bradou o outro revoltado; vemme cá V. Ex.ª falar na Aimée!... Veja esta!, veja e dirmeá depois se se lembra mais da Aimée! Ora, ora! logo quem — a Aimée! Um manipanso!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.