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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Pelo amor de sua mãe?...

– Pelo amor de minha mãe.

– Bem: pode perguntar.

– Senhora, diga-me, em nome do céu, é verdade tudo quanto dizia há pouco?...

– É verdade.

– Senhora! exclamou Cândido caindo aos pés de Mariana, vós sois minha mãe!..

– Oh!... pobre moço!... balbuciou a viúva.

– Vós sois minha mãe!... continuou ele beijando a barra do vestido de Mariana; vós sois minha mãe! desde muito o coração dentro do peito mo dizia; sem saber por que, eu vos amava com um amor cândido e belo, como somente é o amor filial; eu vos olhava com santo respeito; a vossa voz soava dentro de minha alma; vossos sorrisos me animavam! quando eu pensava em minha mãe, vossa graciosa figura se desenhava diante de mim!... em meus sonhos de filho vinha um anjo, e apontava para uma mulher, cujo rosto estava coberto com um véu, e me dizia “eis aí tua mãe”. Eu corria para essa mulher, arrancava-lhe o véu, e o rosto que eu via era o vosso. Ah! vós sois minha mãe!... bendito seja Deus! vós sois minha mãe!...

Mariana sacudiu tristemente a cabeça, e respondeu:

– Não sou sua mãe.

– Onde está pois vosso filho?...

A viúva tornou a tremer da cabeça até os pés, e, apontando para cima, disse: – Está no céu.

– Morto!...

– Sim, morreu...

Mariana deveria ter dito – matei-o; por isso sua resposta foi como um surdo gemido.

Cândido ficou petrificado.

A viúva envolveu-se de novo em sua mantilha, e despediu-se dizendo: – Eu o deixo; um dia Deus lhe pagará o que vai fazer por mim. E partiu.

CAPÍTULO XXXV

SALUSTIANO

A CASA em que morava Salustiano, e que ele havia herdado de seu pai, rico e honrado negociante, estava situada em uma das mais freqüentadas e comerciais ruas da cidade do Rio de Janeiro.

Importa tão pouco saber o nome dessa rua como descrever essa casa. É de sobra dizer que ela era de dois andares, e que no segundo andar tinha Salustiano estabelecido o seu gabinete particular, com o qual se comunicava o quarto em que dormia.

No dia que seguiu a noite amarga em que Mariana tanto tempo se deixara ficar ajoelhada aos pés de Cândido, estava Salustiano em seu gabinete ocupado em examinar diversos papéis e livros mercantis, trabalho em que o ajudava um velho alto, de rosto vermelho e de cabeça calva.

Esse velho chamava-se João, e era o agente principal da casa de Salustiano.

João era um homem de poucas palavras, de olhar atrevido, de gênio de fogo,

de coração bom, e de têmpera de ferro.

Pela volta das onze horas apareceu um caixeiro à porta do gabinete, e disse:

– Está aí o sr. Jacó.

– Que entre para aqui, respondeu Salustiano.

O caixeiro retirou-se,

– Sr. João, continuou Salustiano, suspendamos este trabalho. Tenho que falar a sós com o homem que acaba de ser anunciado. Desça ao primeiro andar e logo que se retirar aquele que nos veio interromper, suba de novo para continuarmos a trabalhar.

O velho, sem dizer palavra, limpou a pena com que estava tomando notas, prendeu-a atrás da orelha, e saiu.

Quando ia descendo a escada, vinha subindo o homem que se anunciara.

O caixeiro que acompanhava o homem reparou que, contra todos os seus hábitos, o velho João tratou aquele sujeito com familiaridade e vivas demonstrações de estima.

Os dois apertaram fortemente as mãos, disseram finezas e mostraram-se mutuamente amigos.

Era um fato admirável na vida de João.

Finalmente o recém-chegado foi introduzido no gabinete de Salustiano, e o caixeiro deixou os dois a sós.

O homem sentou-se na cadeira em que antes estivera sentado João.

Era ele baixo, um pouco gordo, e um pouco calvo; tinha olhos vivos, e mostrava-se alegre. Vinha vestido de fraque roxo abotoado até em cima, e de calças pretas. Calçava botinas de cordovão de lustro, e chamava-se Jacó.

Já não pode haver dúvida nenhuma; era o escrivão que morava na rua de...

exatamente defronte do “Céu cor-de-rosa”.

Travou-se entre Jacó e Salustiano a seguinte conversação:

– Muito bem, senhor Jacó: o senhor é sempre pontual.

– É um hábito da vida passada; quando eu era escrivão, chegava à casa dos juízes sempre dez minutos antes da hora das audiências.

– Não é esse o seu único mérito: o senhor é capaz de descobrir o maior segredo deste mundo.

– A vida passada! a vida passada! o tino, a prática dos interrogatórios...

– Vamos pois; que notícias me dá?

– Poucas, porém boas.

– A elas, meu caro.

– Ontem, depois das onze horas da noite, a lua estava clara como o dia...

– Dispenso todos os segredos que o senhor possa ter descoberto na lua.

– Hábitos da vida passada! nos corpos de delito o luar é uma circunstância que sempre se faz notar... as vezes importa muito.

– Adiante.

– Bem: pouco depois das onze horas da noite saiu do alpendre do “Céu cor-de-rosa” um vulto de mulher...

– Oh!

– Envolvia-se em uma mantilha: era com efeito uma mulher.

– Está bem certo disso?

– Sim; o andar era majestoso e engraçado... aquela mulher nunca tinha usado mantilha.

– Por quê?

– Porque envolvia-se nela como em um xale. Mas o andar, que era majestoso e engraçado, era ao mesmo tempo tão delicado, as passadas tão curtas e ligeiras, que não podia deixar de ser o andar de uma mulher.

– Bem; e depois?

(continua...)

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