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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

E a mulher há de por força sujeitar-se à lei, que os homens lhe têm imposto: se alguma tentasse reaver... exercer direitos muito nobres e legítimos, que Deus lhe concedeu, e o mundo lhe arranca; se alguma ousasse dizer — eu sou livre, — teria horríveis tempestades a assoberbar, e, por fim, sucumbiria; porque o mundo entende que só há dois caminhos para a mulher: o da escravidão e o da vergonha.

E ainda quando ela, sentindo-se insultada, gritasse — calúnia! calúnia!... o mundo rir-seia... e responderia sempre — vergonha!... vergonha!... porque somente o homem tem o direito de fazer face à opinião dos outros... e a mulher não pode ser senão aquilo que o mundo quiser que ela seja...

E, apertada no estreito círculo dos deveres domésticos, a mulher não terá nunca outras honras, outra glória a desejar, senão aquelas que se devem à fidelidade da esposa, à extremosa maternidade, às virtudes domésticas enfim; e, quando uma desgraça cair sobre ela e sobre a sua família, ela, a quem se não permite outro cuidado, outro culto, que não seja o de sua família, e o de si, isto é, ela que está apertada no estreito círculo dos deveres domésticos, é mais que o homem lamentável.

Porque o homem tem o comércio... as armas... a política... muito mais ainda... e, finalmente, a mulher.

E a mulher tem unicamente o homem.

Ora, se ele, que pode ser distraído por tantos interesses diversos, no tão vasto campo que se lhe abre para dar pasto a seu espírito, ainda assim é digno de lástima quando desposa uma mulher que não ama, ela, se abafa uma paixão em que se esperançava e liga sua vida inteira a um estranho, a quem jura obediência e amor eterno, consuma o maior de todos os sacrifícios, apaga assim a só luz, que lhe pode tornar brilhante o caminho da vida.

Por conseqüência, ninguém deve exigir de uma mulher o sacrifício de seu amor.

Porque a única esperança que ela pode ter na vida é amar e ser amada.

Porque o único direito que se lhe concede no mundo é (às vezes) o de aceitar ou não um noivo.

Porque é justo que ela escolha entre todas as cadeias, que lhe oferecem, aquelas que menos pesadas julgue, e mais bem douradas pareçam a seus olhos.

Porque, enfim, é necessário que a mulher ame a seu marido, para que possa ser esposa feliz e mãe extremosa.

E, sem o querer, sem o pensar, Hugo de Mendonça pede à sua filha o sacrifício de seu amor tão terno e tão doce; pois, ainda que ele tenho dito — responde livremente — não pode darse verdadeira liberdade em Honorina, que a todo o momento vê diante de seus olhos a imagem da pobreza nua... desgrenhada... dolorosa... estendendo emagrecidos braços para prender entre eles a seu pai.

E, portanto, terá Honorina de ser uma nova mártir, que vá aumentar o número já tão crescido dessas outras nobres mártires, que aí vão passando pela vida... pálidas... silenciosas... e que muita gente as julga felizes; porque elas, sempre generosas, sabem abafar seus suspiros... engolir seus gemidos... e esconder seus tormentos de um mundo egoísta e sem piedade, no qual a mulher é quase sempre uma vítima!...

Mas a meditação da moça foi interrompida por Lúcia, que entrou na sala.

— Sr.ª D. Honorina! disse ela.

— O que é, mãe Lúcia?... respondeu a jovem levantando a cabeça, que tinha pousado sobre uma mão.

— Um pajem, que não conheci, chamou-me da porta do jardim, e, dizendo-se escravo do Sr. Jorge, entregou-me esta carta, que da parte da Sr.ª D. Raquel lhe é dirigida.

— Oh!... a minha Raquel!... dá-ma... mas esse pajem, mãe Lúcia?...

— Retirou-se imediatamente.

— Embora... é uma carta da minha Raquel... que virá talvez animar-me um pouco.

Honorina ficou outra vez só e abriu a carta; havia, além de um curto bilhete, algumas páginas escritas em separado...

A moça leu primeiramente o bilhete com violenta comoção.

“Honorina. Eu sei tudo! a casa do Sr. Hugo de Mendonça vai desmoronar-se... e um homem se oferece para sustê-la: a esperança de teu pai está toda concentrada em ti... pende de teus lábios; e tu salvarás o autor de teus dias, e a família do nome que tens, aceitando a proposição de teu primo. Oh!... e que filha resistiria ao aspecto da desgraça de um pai?!... se eu fosse rico!... se eu fosse rico, iria de joelhos despejar meus tesouros a teus pés; mas tão pobre!... que importa que meu amor seja ardente e desmedido? de que vale, de que serve o amor de um pobre?... é, portanto, preciso esquecer... apagar para sempre a memória do passado; mas, Honorina, se esta minha paixão tão desgraçada... se esta, que eu morro, morte do coração pode merecer alguma piedade, aceita, recebe, recebe essas páginas do livro de minha alma!!!... a derradeira esperança que me resta, é que elas serão lidas por teus olhos, e finalmente, queimandoas junto de ti, vê-las-ás tornadas em cinza feia e negra... negra, como o futuro do pobre... como o meu futuro! aceita-as, pois, e adeus!... sê feliz... esquece-me...”

Terminando a leitura do bilhete, a moça misturou duas lágrimas brilhantes com um sorriso acerbo, cheio do fel da ironia, e murmurou tristemente:

(continua...)

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