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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O Costa e Silva e o Mapa-Múndi apoiaram as palavras do sacristão com sinais de deferência. O perfume sutil da lisonja entontecia o sacristão, dando-lhe vertigens. A casa parecia andar à roda. Na claridade baça da sala, pontos negros espalhavam-se. Macário naquele lugar, naquela ocasião, era incontestavelmente a primeira pessoa.

Ia ficando tarde. A irmandade do Santíssimo chegara, de opa encarnada e tocha na mão e rodeava o cadáver.

— Ora até que enfim! suspirou o Bernardino Santana, vendo chegar o capitão Mendes da Fonseca, o último que faltava. O coletor vinha esbaforido, suado, de chapéu alto - o único - e guarda-sol debaixo do braço. E logo à entrada da sala teve uma ligeira altercação com o Dr. Natividade, que cresceu para ele:

— Ora diga-me, senhor capitão, que história de chapéu-de-sol é uma? Fique V. S.a sabendo, senhor capitão, que graças a Deus, eu não preciso de ficar com os chapéus-de-sol dos outros. Graças a Deus, eu não preciso! exclamou, voltando-se para o Macário, que se aproximava para os harmonizar.

O capitão mastigara uma desculpa. Eram coisas de senhoras. Não fora ele, fora a senhora D. Cirila que teimara que o chapéu-de-sol estava na casa do juiz municipal - mas não era verdade. O chapéu estava com o João Carlos.

— Ora muito bem, peço a V. S.a que para outra vez não repita a graça. Graças a Deus, não estou acostumado a receber desfeitas, e não preciso ficar com o que é dos outros. O governo ainda me paga para comprar um chapéu-de-sol. Sou pobre, é verdade, sou de família obscura, mas graças a Deus, sempre gozei em Pernambuco da maior consideração. Nunca ninguém pôs em dúvida o meu caráter.

E o Dr. Natividade, nervoso e impressionado, tirou o lencinho da algibeira do fraque e enxugou o rosto e as mãos. Depois tirou o pincenê e pôs-se a limpar-lhe os vidros com o lenço, murmurando:

— Graças a Deus, é a primeira vez que isto me acontece. Mas o Bernardino chegava carregando a tampa do caixão mortuário. João Carlos ajudou-o a encaixála nos machos, e os preparativos para a saída começaram.

Nessa ocasião o professor Aníbal Americano aproximou-se do capitão Fonseca e perguntou-lhe baixinho:

— Devo ler agora a nênia, ou deixo-a para o cemitério?

— Que nênia, seu Aníbal?

— Uma nênia que fiz pela morte do Totônio. Não é obra-prima, mas fiz o que pude.

— Acho melhor no cemitério, opinou o Fonseca. É mais solene.

Bernardino Santana convidou o Costa e Silva, o Mapa-Múndi, o Pedrinho Sousa, o João Carlos, o Bartolomeu de Aguiar e o Dr. Natividade para carregarem o caixão.

O Dr. Natividade escusou-se, sem dar as razões. O Bernardino foi convidar o capitão Fonseca que aceitou. Mas o Natividade veio confiar ao Macário os motivos da recusa.

— O senhor compreende? Vim ao enterro por obra de caridade, e porque, graças a Deus, não levo o meu ressentimento até o túmulo. Mas a dignididade impedia-me de carregar um rapazola que há tão pouco tempo foi o causador de me fazerem uma desfeita.

Macário não se lembrava. O Dr. Natividade, de mãos atrás das costas, pincenê fixo nos olhos, auxiliou-lhe a memória:

— Na noite do casamento do Cazuza... aqui... no baile... a desfeita da Milu?...

Macário já se lembrava. O juiz municipal resumiu, numa convicção profunda: — Já vê que a dignidade me impede.

O Bernardino Santana despedia-se do filho, apertando nas mãos as mãos geladas do cadáver. O velho chorava, numa dor expansiva:

— Pobre rapazinho! Tão moço, tão bonito e tão esperto! Ele vai-se, eu, traste velho, é que fico! Coitadinho! Até parece que está dormindo!

E impressionado com a causa a que atribuía aquela morte tão sentida, repetia:

— Tudo foi ele ficar tão teimoso, a ponto de não querer tomar os remédios! Remédios tão bons e tão caros!

E num soluço dolorido:

— Pobre rapazinho! Tua mãe que está no céu há-de perguntar por que não tomaste os remédios. Mas que culpa tenho eu, fiz tudo, tudo.

O Valadão e o Fonseca agarraram-no, dando-lhe coragem:

— Tenha ânimo, homem! A morte é obra de Deus. Resigne-se e lembre-se que ainda tem outro filho!

O Cazuza aproximou-se do pai, pálido, sem lágrimas. Era uma dor forte. Filho e pai abraçaram-se junto ao cadáver de Totônio.

— Agora só me restas tu, meu filho. Desculpa o meu sentimento... mas ele também era filho.

E o Bernardino desatou de novo a chorar. No meio da sua dor, a lembrança duma providência a dar acudiu-lhe. Voltou-se para o Quinquim da Manuela, e recomendou por entre lágrimas:

— Olha o Filipe que leve o mocho atrás do caixão, para o descanso.

Uma senhora, toda de luto, entrou, seguida de três ou quatro mucamas. Era a D. Mariquinhas das Dores que vinha dizer o último adeus ao cadáver do cunhado. Os que cercavam o caixão afastaram-se para dar-lhe lugar. A jovem senhora descansou um braço sobre a borda do caixão e pôs-se a chorar, assoando-se de vez em quando num lencinho rendado.

(continua...)

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