Por Inglês de Sousa (1891)
E Macário, contemplando o bonito fraque azul-ferrete que o cadáver tinha vestido, o colete de gorgorão preto, a bela gravata e os finos sapatos de polimento, pensava que os rapazes educados nas capitais não têm a mesma têmpera que os da vila, e que o Bernardino Santana, não pela proibição do casamento com a Milu, mas pelas larguezas e facilidades que permitira ao filho era culpado daquela morte prematura...
Nisto Q Bernardino Santana, todo de preto, com a calva descoberta à viração da tarde, numa das mãos uma tocha e na outra uma coroa de latão, aproximou-se dele, e pôs-se a dizer com os olhos rasos de lágrimas:
- Ora está vendo, seu Macário sacristão? É uma desgraça! O rapazinho morreu como um passarinho. E não havia modos de lhe fazer tomar o remédio. Desde que adoeceu, não se lhe pôde pôr na boca uma colher do remédio. É uma desgraça!
Puxou do bolso da sobrecasava um grande lenço de chita, enxugou os olhos, assoou-se e continuou:
— E você que o conheceu, seu Macário sacristão, lembra-se dele? Como era alegre, e bom menino! Se não fossem aquelas tolices com a Milu, eu nunca teria tido ocasião de zangar-me com ele. Pois, desde que caiu na cama mudou como uma coisa extraordinária. Não falava, não respondia à gente, e não queria tomar remédios. E olhe que não eram remédios de cacaracá, de pouca monta... Eram remédios caros... e o rapazinho nada! Por mais que eu gritasse, ralhasse, nada! Uma teima assim, nunca vi em dias de minha vida!
E o Bernardino Santana deixou a coroa de latão sobre a mesa, entregou a tocha ao Pedrinho Sousa e foi perguntar ao Quinquim da Manuela se a cova estava pronta.
Macário também afastou-se de junto do cadáver, e procurou saber qual a razão da demora, pois julgava que seria o último a chegar.
— É por causa do Fonseca, disse-lhe o Costa e Silva, ainda não chegou e Bernardino quer que se espere por ele.
Nesse momento o professor Aníbal acercou-se do grupo do Costa e Silva.
— Morreu de amor, o coitadinho! disse ele concertando os óculos e cuspindo longe.
— Qual morreu de amor! exclamou o Regalado. O que ele teve foi uma boa galopante, posso asseverá-lo! E se não fosse tão teimoso, se tivesse tomado os remédios que lhe dei, teria ficado bom. A moléstia começou por uma constipação desprezada. Sobreveio uma febre palustre, e em poucos dias a febre tomou o caráter tífico e... os tubérculos logo se declararam... enfim uma embrulhada! Se o pai o tivesse obrigado a tomar os remédios, teria ficado bom.
— Pois eu, tornou o professor Aníbal, como ouvi dizer que ele morrera de paixão por não casar com uma sobrinha do Neves Barriga, fiquei com pena e arranjei uma nênia para o caso. Não é lá coisa como de Lamartine ou de Casimiro de Abreu, porque eu não sei fazer versos e nunca fui poeta. Mas por pena do pobre do Totônio labutei toda a noite e compus a nênia...
Aníbal Brasileiro concertou os óculos, cuspiu, e meteu a mão no bolso da sobrecasaca para tirar alguma coisa, dizendo:
— Trago-a aqui para ler no cemitério. Intitula-se: Morto por amor!
— E o senhor a dar-lhe! exclamou o Regalado impaciente, levantando a voz para ser ouvido do Bernardino Santana que vinha nessa ocasião do interior da casa, trazendo um mocho de pau e dois grandes castiçais com velas de cera. Já lhe disse ao senhor professor, que o rapaz não morreu de amor, mas duma galopante.
— É o mesmo, murmurou desapontado o Aníbal, deixando a nênia no bolso e afastando-se para o lado do vereador João Carlos.
Então o Costa e Silva quis saber do sacristão se o enterro seria acompanhado pela irmandade do Santíssimo.
— Sem dúvida, respondeu Macário, alisando o cordão da opa.
O Bernardino Santana é irmão do Santíssimo. A irmandade aí vem toda com o Chico Fidêncio à frente. O Chico Fidêncio é quem traz o pendão. O Regalado, admirado, exclamou:
— O pândego do Chico Fidêncio de pendão em punho!
E sorriu, pasmado.
Mas nem o Costa e Silva nem o Mapa-Múndi o acompanharam na surpresa. Nada mais natural! O Chico Fidêncio era maçom, inimigo dos jesuítas, mas não era contrário à verdadeira religião!
Macário ponderou, convicto:
— O professor não é tão ateu, como geralmente se diz... Ele lá tem a sua história de não querer saber de padres, mas acredita na religião, e é boa pessoa.
— Isso na sua boca, senhor Macário, aplaudiu o Costa e Silva agradecido, é um bonito elogio.
Macário confessou então que andava enganado com o Chico Fidêncio por causa daquelas histórias do defunto padre José, que Deus houvesse. Agora o desejo dele Macário, que tinha sobre os seus débeis ombros o encargo espiritual de Silves enquanto o senhor bispo não mandava outro vigário - era restabelecer a harmonia, a paz na sociedade de Silves. Para isso empregaria todos os esforços e sacrifícios. Felizmente as coisas iam bem encaminhadas porque o Chico Fidêncio também agora confessava que se enganara com o santo padre Antônio.
— Macário enxugou uma lágrima - e com o sacristão, ao qual fizera muitas injustiças.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.