Por Aluísio Azevedo (1881)
— Não chores, minha flor... segredou-lhe afinal. Tens toda a razão... perdoa-me se fui grosseiro contigo! Mas que queres? todos nós temos orgulho, e a minha posição ao teu lado era tão falsa!... Acredita que ninguém te amará mais do que te amo e te desejo! Se soubesses, porem, quanto custa ouvir cara a cara: “Não lhe dou minha filha, porque o senhor é indigno dela, o senhor é filho de uma escrava!” Se me dissessem: “É porque é pobre!” que diabo! - eu trabalharia! se me dissessem: “ porque não tem uma posição social!” juro-te que a conquistaria, fosse como fosse! “Porque é um infame! um ladrão! um miserável!” eu me comprometeria a fazer de mim o melhor modelo dos homens de bem! Mas um ex-escravo, um filho de negra, um — mulato! — E, como hei de transformar todo meu sangue, gota por gota? como hei de apagar a minha história da lembrança de toda esta gente que me detesta?... Bem vês, meu amor, tenho posição definida, não me faltam recursos para viver em qualquer parte, jamais pratiquei a mínima desairosa, que me envergonhe; e no entanto nunca serei feliz porque só tu es a minha felicidade e eu nada devo esperar de ti! Ah, se soubesses, Ana Rosa, quanto doem estas verdades... perdoarias todo o meu orgulho, porque o orgulho de cada homem de bem esta sempre na razão do desprezo que lhe votam!
Ana Rosa bebeu-lhe, boca a boca estas últimas palavras.
— Entretanto... prosseguiu ele, vencido de todo, já não tenho coragem para deixar-te!...— E abraçavam-se. — Como poderei, de hoje em diante, viver sem ti, minha amiga minha esposa, minha vida?... Dize! fala! aconselha-me por piedade, porque eu já não sei pensar!...
Um novo assobio de bordo veio interrompê-lo.
— Não ouves, Ana Rosa?... O vapor está chamando...
— Deixa-o ir meu bem! tu ficas...
E os dois estreitaram-se, fechados nos braços um do outro, unidos os lábios em mudo e nupcial delírio de um primeiro amor.
Não obstante Manuel e o cônego ainda se deixavam ficar na guardamoria, depois da decepção da última carruagem.
— Cachorro! exclamava o negociante fora de si, a passear de um para outro lado, ameaçando o teto com o seu enorme guarda-chuva. Grandíssimo tratante! — E parando defronte de Diogo:— Caçoou conosco, seu compadre! caçoou conosco, o desavergonhado! Também, que faça cruz, em casa não me põe mais os pés! sou eu quem o diz! Nunca mais!
Ouviram-se três silvos repetidos.
— É o último sinal. . disse o empregado da guardamoria. O vapor vai largar.
Suspendeu a escada.
Manuel, com as mãos cruzadas atrás, o chapéu descaído para a nuca, o corpo a bambolear sobre as suas perninhas curtas, interrogou, muito vermelho, o cônego:
— E o que me diz desta, compadre?.. Então que me diz! desta?!... Ora já se viu?...
— Deixe-se disso!... repreendeu o outro. E encaminhou-se para a porta, abriu o seu guarda-sol de dezoito varetas, e acrescentou, disposto a retirar-se: — Vamos indo. Meus senhores, vivam! obrigado.
Puseram-se os dois a subir vagarosamente a rampa.
— Ora, meta-se um homem com semelhante gente!... resmungava o negociante, batendo com a biqueira do chapéu-de-chuva nas pedras da calçada. Traste! Peralta! Mas também, pode chegar-se para quem quiser!... comigo não conte mais nada! Canalha!
E continuou a praguejar, numa verbosidade de cólera. O cônego interrompeu-o no fim de algum tempo:
— Suaviter in modo,fortiter in re!...
O outro calou-se logo, e prestou-lhe toda a atenção; conversaram uma boa hora, em voz baixa, parados a uma esquina do Largo do Palácio, combinando sobre o que melhor convinha fazer.
— Adeus, disse afinal o cônego. Não se esqueça, hein? E observe bem tudo o que ela responda
— Você aparece por lá?
— Logo depois do almoço.
E, ambos cabisbaixos, cada qual tomou o seu rumo.
Comentava-se já o fato na Praça do Comércio e na Rua de Nazaré.
Manuel chegou a casa e foi atravessando o armazém.
— O doutor Raimundo esteve ai em cima? perguntou ele ao Cordeiro.
— Esteve, sim senhor. porém já saiu. Metia-se no carro, justamente quando eu chegava da cobrança.
— Há muito tempo?
— Há coisa de meia hora pouco mais ou menos.
— Vocês já almoçaram?
— Já, sim senhor.
— Bem! Diga ao seu Dias, quando vier, que não se esqueça de tirar aquelas contas correntes do interior; e você vá à alfândega e veja se no manifesto do Braganza estão aqueles fardos de estopa, número l05 a ll0. Olhe, tome o conhecimento.
E passou-lhe um quarto de papel azulado, impresso. Depois ia subir, mas voltou ainda.
— Ah! é verdade! seu Vila Rica!
— Senhor!
— O pequeno está aí?
— Não senhor, foi ao tesouro.
— Aviaram-se já aquelas encomendas de Caxias?
— Já estão duas caixas de chitas arrumadas. O vapor só sai depois de amanhã.
— Bom...
E Manuel pensou um pouco.
— Ah! Sabe se seu Cordeiro despachou os fósforos?
— Ainda não senhor, porque o conferente, que está nos despachos sobre água, não os pôde fazer ontem.
— Bem, diga ao Cordeiro que veja se acaba com isso hoje.
E o negociante subiu afinal.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.