Por Aluísio Azevedo (1895)
Conselheiro. - Se V. Exa. preza sua honra de homem casado, vá imediatamente à rua do Catete n. 15 e aí encontrará sua mulher nos braços do marido de quem lhe faz esta denúncia.
E declarou a hora e o dia em que era escrito o bilhete, sem contudo expor a sua assinatura. Depois, meteu a folha de papel em um envelope e sobrescritou-a. - Leve imediatamente esta carta ao seu destino. É muito perto daqui. Não se demore.
O criado saiu e ela se atirou à cama soluçando. No fim de alguns minutos ergueu-se de novo; teve um instante de arrependimento, mas sacudiu logo os ombros, chamou pela criada já com a voz firme, despiu-se, recomendou que dissessem ao marido, no caso que este perguntasse por ela, que se achava indisposta e não queria falar a ninguém. Em seguida fechou por dentro a porta do seu quarto e recolheu-se ao leito, aguardando a explosão que julgava ter provocado com a carta dirigida ao conselheiro.
Criança! pensava ter lançado uma faísca na pólvora, e a faísca tinha apenas se cravado na lama.
A carta, segundo a declaração do criado que a levara, foi entregue em mão própria. S. Exa. abriu-a leu-a imperturbavelmente, rasgou-a depois e disse ao portador:
- Está entregue.
Só no dia imediato foi que Branca se encontrou com o esposo; estranhou muito não lhe descobrir na fisionomia a mais ligeira sombra de contrariedade e procurou não deixar igualmente transparecer na sua o menor vestígio das amarguras que desde a véspera sofria.
Baldado esforço! O marido, logo às primeiras palavras que trocou com ela, perscrutou que alguma coisa a constrangia e empregou os meios de descobrir o que era.
- Nada! Nervoso! respondia a pobre senhora, disfarçando as lágrimas.
- Não, não; tens seja lá o que for. É que não queres dizer.
- Ilusão, pura ilusão tua! De que posso eu me queixar? Sou a mais feliz das criaturas!
Nada me falta: tenho o teu amor, tenho a estima de meus amigos, vejo-te prosperar, crescer! Que mais desejo?
Teobaldo aproximou-se dela para lhe dar um beijo; Branca fugiu com o rosto.
- Que significa esta recusa? perguntou ele.
- Não sei, mas não posso agora suportar as tuas carícias.
- E por que?
- Caprichos dos nervos, naturalmente..
- Tu então repeles os meus beijos, Branca?
- Sim, e peço-te que não insistas em querer saber a razão por quê.
- E até quando durará o tal capricho de teus nervos?
- Não sei; é natural que durem enquanto eu viver.
- Confesso que te estranho. Tu, que eras tão meiga, tão amorosa para comigo...
- É exato. Vê como a gente se transforma de um momento para outro.
- Mas é indispensável que haja uma causa para semelhante transformação.
- Não sei; apenas te afianço que não contribuí absolutamente para ela.
- Se tens alguma razão de queixa contra mim, melhor será que falas logo com franqueza. Ao menos dar-me-ás o direito da defesa.
- Razão de queixa? Mas, valha-me Deus! seria uma injustiça, uma tremenda injustiça à tua bondade, ao teu caráter e a todos os teus princípios de moral. Queixar-me? Que idéia!
Pois se jamais fui tão lealmente amada e tão dignamente respeitada por ti...
- Não te compreendo, nem te reconheço. Estás irônica.
- Não; estou simplesmente orgulhosa de ser tua esposa. Pressinto que caminhas para um futuro brilhante; as tuas relações não podem ser melhores: o conselheiro adora-te, o conselheiro! um homem de bem às direitas, um velho respeitável por todos os motivos!
- E é a verdade o que dizes...
- Oh! verdade pura. Estou convencida de que o teu comparecimento à sessão de ontem, há de ainda mais engrandecer-te aos olhos dele. Não há dúvida que vais em uma carreira por todos os motivos invejável!
- Branca, disse Teobaldo, com ar muito sério, se tens algum ressentimento contra mim, peço-te de novo que fales abertamente. Não sei em que possa eu ter incorrido no teu desagrado; a minha consciência está tranqüila, mas desejo apagar de teu espírito toda e qualquer sombra de suspeita, de que me julgues merecedor.
- Já disse que não tenho acusação nenhuma a fazer.
- Mas então por que te mostras tão diferente do que és; por que estás desse modo?- De que modo? Eu nunca me vi de tão bom humor!
- És cruel filha!
- Eu? Pois então o meu bom humor já é uma crueldade?... Ora! tem paciência; mas não sei que fizeste de tua lógica, chegas a ser incoerente! Até aqui tu me lançavas em rosto todos os dias as minhas tristezas, os meus ciúmes, as minhas repetidas queixas de amor; e agora exprobras-me, porque me sinto bem disposta e com vontade de rir. Hás de confessar que isto não é lógico!
- Pois é justamente a tua rápida transformação o que me impressiona e do que desejo saber o motivo.
- Oh! não tem que saber! É que caí em mim...
- Caíste em ti? Como assim?
- É que ontem eu via as coisas por um certo prisma e hoje as encaro por outro.
- Explica-te.
- Desfizeram-se as ilusões, dissolveram-se-me as fantasias; vejo o mundo e vejo as criaturas por um prisma talvez menos consolador, com a certeza, porém, mais justo, mais razoável e muito mais lúcido.
- Não compreendo onde queres chegar com isso...
- Não me compreendes? oh!
- Juro-te que não!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.