Por Aluísio Azevedo (1884)
E, enquanto o irmão devorava o que vinha escrito:
— Vê tu só a hipocrisia daquele sonso!...
— Ele já sabe que esta carta está em teu poder? Interrogou Coqueiro depois da leitura.
— Qual! Nem pode descobrir!
— Ainda não deu pela falta?
— Já. Zangou-se um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se convenceu de que a tinha perdido.
— E agora o que tencionas fazer disto?
— Não sei...Que achas tu?...
— Acho que por ora não convém fazer nada!
— Calar-me?!
— Por ora, decerto! Esta carta pode vir a servir-te de muito , mas é preciso que, em primeiro lugar, apareça a ocasião. Se quiseres, deixa-a comigo, que eu sei o destino que lhe devo dar.
E guardou-a no bolso, depois de um gesto aprobativo da irmã:
— Ele a teria escrito de novo e feito chegar às mãos de Hortênsia, sabes?...
— Não sei, mas posso ver.
— Bem. Em todo o caso, não te dês por achada! Nem uma palavra a este respeito! Precisamos dar tempo ao tempo...podes, todavia, ficar desde já tranqüila, que o que tem de ser — traz força! A justiça não se fez para os cães!...
— É por isso mesmo que eu não confio muito na tal justiça! Observou a rapariga.
CAPÍTULO XVIII
Mas, no fundo, João Coqueiro principiava a “cismar com o negócio”. Segundo os seus cálculos, a irmã, por aquela época, já deveria estar pejada: circunstância esta que daria oportunidade a um escândalo, de antemão, preparado, forçando Amâncio a “reparar sua falta”.
E, no entanto, Amelinha “nada de aviar”! O bom irmão sentia até como um peso na consciência por haver contribuído diretamente para aquela situação.
— Era sempre assim!...pensava ele enraivecido. — Se não precisássemos de um filho, é que os pestinhas haviam de aparecer aí de enfiada!
E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os belos resultados que esperava para si e para ela, invadia-lhe o coração e punha-lhe momentos maus na vida.
Mme. Brizard já não pensava do mesmo modo. Aquela existência pronta, inteiramente desocupada, lhe viera muito a propósito. “Ela, coitada de si! Bem precisava de um bocado de descanso!”
As coisas, de fato, iam-lhe agora admiravelmente: Tinha a sua mesa boa e farta, um bom quarto de dormir, a mucama para lavar-lhe e engomar-lhe a roupa, um camarote no teatro de quando em quando, aos domingos um passeio à cidade, e lá uma vez por outra uma soirée em casa de alguma amiga. “Ah! Não se podia comparar a existência que levava agora com a peste de vida que curtira na Rua do
Resende!”
‘E que então não havia a menor folga; não se podia arredar pé do serviço! E todo o dia reclamações! E todo o dia - o banho morno de fulano! O chocolate de beltrano! Este queria ir sem pagar a conta ; o outro se entendia no direito de dizer desaforos porque pagava! Apre! Assim também não era viver! Seu corpo há muito tempo pedia aquele repouso! Se continuasse a labutar como dantes, — credo! — estourava por aí um dia, esfalfada!
E, com medo de perder a “pepineira” cercava Amâncio de adulações. Tinha-o na conta de um patrão, de uma amo; com direito a todos os carinhos e desvelos. Assim, jamais o contrariava, nunca lhe opunha censuras. — Aquilo que o rapaz fizesse estava sempre muito bem feito!
No seu entendimento mercantil de locandeira, Amâncio não aparecia “como isto ou com aquilo” representava pura e simplesmente “um bom arranjo”. Ali não havia favores, havia negócio, ninguém ficava a dever obrigações. – Ele despendia tanto em dinheiro, mas recebia em carícias e bom trato um valor correspondente.— Estavam quites!
Apenas, como o negócio era rendoso e agradava a boa mulher, esta fazia o que estava ao seu alcance por agüentá-lo o maior tempo possível, como de resto, qualquer um procederia com referência a um bom emprego. Quanto à posição de Amélia, Mme. Brizard a dava por natural e coerente. Não via na cunhada uma vítima ou coisa que o valha, mas tão-somente um membro solidário naquela empresa, enviando os esforços de sua competência para o comum interesse da associação.
Isto, já de deixa ver, era o que pensava a francesa, mas não o que ela expunha; de sorte que o marido ficou muito espantado, quando, falando sobre a necessidade de tratar do casamento de Amélia com o hóspede, lhe ouviu dizer:
— Homem...para falar com franqueza...acho que o melhor é deixar seguir o barco como vai!...
— Como vai!...
E o Coqueiro engoliu a frase indignado:
— Ora essa! Tu, com certeza, não estás falando sério!
— Às vezes, quem tudo quer, tudo perde!...sentenciou a mulher.
— Mas que diabo quero eu?! Retrucou aquele. — Eu não quero senão o que é de justiça! Quero apenas que eles se casem!
A outra, para quem o casamento de Amélia não trazia vantagens imediatas e podia, aliás, comprometer o estado feliz das coisas, saltou logo com uma bateria de opiniões contrárias:” Coqueiro faria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situação o mais razoável e o mais prudente era sem dúvida esperar! A natureza não dava saltos! As coisas haviam de atingir a um bom resultado, sem ser preciso lançar mão de meios violentos!...
— Mas é que ele nos pode escapar!...argumentou Coqueiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.