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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ninguém seria capaz de dizer que ali, naquela velha robusta e trabalhadora, estivesse a rapariga linfática e bamba de trinta anos atrás. A planta, nascida entre a roupa molhada e a grosseira alegria do cortiço, definhara nas salas tristes do comendador, mas uma vez transportada para o meio em que brotara, levantou e vicejou radiosa.

Assim como Genoveva, outros personagens se transformaram; Gustavo, por exemplo, já não era o mesmo sonhador boêmio, a bracejar na desordem e na miséria; trazia agora a vida metodizada e segura, graças exclusivamente à inflexível perseverança do seu esforço. Havia publicado com algum êxito nada menos que três romances, conseguira fazer representar um drama, era colaborador efetivo do "Correio Mercantil" e tinha duzentos mil­réis mensais numa secretaria pública.

Mas, como já estava ele longe de sentir as comoções que experimentou quando viu, pela primeira vez, versos seus publicados?...

Foi num domingo: alguns rapazes haviam fundado pouco antes um jornalzinho, e pedido a Gustavo que mandasse para ele alguma cousa. Gustavo mandou uma longa poesia, em versos soltos, que comeu quase toda uma página. E durante a composição não se pode arrancar de ao pé dos tipógrafos, preso por um delicioso interesse, uma impaciência irresistível e torturante.

Esqueceu­se de jantar, e ao receber as primeiras provas, tremiam­lhe as mãos e saltava­lhe o coração. Afinal, já à noite, saiu da redação com uma folha impressa, e lá foi pela rua, a ler, gesticulando, sentindo em todo ele o eco de cada frase, de cada palavra, de cada sílaba. O mundo em torno era nada ao lado daquele pedaço de papel impresso! Como lhe pareciam pequeninos e vis os burgueses satisfeitos que desciam para os teatros! Como tudo era mesquinho, reles corriqueiro, ao lado daquela produção do seu talento, ali estampada em letra de forma, tal como a obra dos poetas consagrados, cujos nomes lhe enchiam a alma de fecunda inveja!

Mas tudo isso passou, como passou a sensação do primeiro elogio pela imprensa, o sentimento de glória da primeira transcrição espontânea, e o íntimo orgulho do plágio, de um ataque insultuoso ao plagiado.

Larguemos, porém de mão o nosso poeta, e vamos surpreender Gaspar no seu antigo gabinete de trabalho, ao lado de Gabriel.

Olhe o leitor, e verá duas sombrias figuras — um velho calvo, encanecido, todo coberto de luto, e um rapaz louro, prematuramente cansado da existência, e transpirando pelos gestos, pelo olhar, pelas atitudes, o fastio dos fartos e o tédio dos ricos ociosos.

Estão aí assim há duas horas, a conversar frouxamente. o moço fuma charutos seguidos, toscanejando no fundo da sua poltrona, e o velho, assentado ao lado de uma secretária, com a cadeira cercada de papéis rotos, vai, enquanto conversa, passando os olhos pelas cartas, que tira de um grande maço de sobre a mesa e, depois de rasgá­las, arremessa ao chão.

São três horas da tarde, em fins de abril. O dia triste e úmido entra pelas vidraças embaciadas da única janela do gabinete, e põe nos objetos um ar sinistro e melancólico.

O moço queixa­se de aborrecimento, e espreguiça­se de instante a instante, a abrir a boca. O outro, depois de inutilizar os seus papéis velhos, levanta­se e vai assentar­se ao lado dele.

— Mas, vamos a saber, disse; estás pelo que te propus?

— O que é mesmo?...

— Pelo empréstimo dos cinqüenta contos de réis.

— Ah! Quando quiseres...

— Bem! então amanhã, sem falta, me darás.

— Mas o que tencionas fazer desse dinheiro?

— Ainda não te posso dizer; mas descansa, no destino que lhe vou dar, não arriscas um vintém... os próprios juros ser­te­ão restituídos religiosamente. É uma questão toda de confiança...

— Bem! já não digo mais nada.

— Amanhã mesmo te darei os documentos da dívida.

— Como quiseres...

E passaram a conversar sobre outros assuntos.

— Quando partimos?... perguntou Gabriel.

— Para o mês que vêm, naturalmente. Tenho ainda que providenciar sobre muitas cousas; é preciso acomodar a velha Benedita, encarregar algum colega de certos doentes, tratar de uma infinidade de maçadas. Felizmente o Gustavo não me dá o mínimo cuidado.

— Esse nem sequer tira o chapéu quando me vê. Um doido!

— Não é por mal, contradisse Gaspar. Tu é que te não devias incomodar com isso! Ele é um bom moço... tem caráter e tem talento.

— O que, homem? Sabes lá o que ele diz de nós?

— Não há de ser tanto assim...

— Chamou­nos basbaques, em presença de quem o quis ouvir; disse que tanto eu, como tu, éramos duas crianças, dois tipos românticos, que vivíamos na lua!

(continua...)

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