Por Inglês de Sousa (1891)
A sala branca, séria, desguarnecida de móveis? tinha uma melancolia que assaltava o coração da gente, logo à entrada. Da parede do fundo pendia um grande crucifixo amarelado, com chagas hediondas. Sobre pequena mesa coberta de pano preto duas velas de cera alumiavam a face esbranquiçada e menineira duma Senhora das Dores. Quadros com imagens cinzentas de santos milagrosos rodeavam o caixão mortuário, descansando na grande mesa de pinho sem lustre, forrada de pano preto, pingado de cera e picado de traças, e os santos, retratados em litografias baratas, com legendas místicas por baixo, cruzavam os olhos brancos por cima do cadáver, numa desolação. Às cabeceiras da essa improvisada três círios queimavam os longos pavios resinosos, pingando lágrimas amarelas sobre os tocheiros de pau preto, colocados no chão. A luz baça das velas perdia-se na claridade decrescente da tarde. As três chamas, privadas de toda a irradiação, pareciam três brasas oscilando no ar. Um cheiro enjoativo de cera e alfazema enchia a casa e vinha até à rua. Pelas janelas semicerradas entrava a viração da tarde. Lá dentro, nos aposentos da família, ouvia-se um soluçar contínuo e monótono, mas moderado e tímido. Num quintal vizinho cantava um galo melancólico. Na sala fizerase um silêncio quando Macário entrara. Depois um murmúrio começou, acentuou-se e se transformou em conversação cortada, a trechos, em voz baixa, como para não perturbar a solenidade triste da ocasião.
A casa já estava cheia. Junto ao caixão, mexendo distraidamente no lenço que atava os pés do cadáver, o Pedrinho Sousa, muito bem vestido de preto, chorava. Estava pálido e com olheiras pelas muitas noites que velara à cabeceira do amigo, cujo confidente era. Do outro lado do caixão, o Manduquinha Barata, também de preto, forcejava por guardar a seriedade que a ocasião exigia, mordendo os beiços para não rir de qualquer coisa de extraordinariamente ridículo que descobria no vestuário do vereador João Carlos. Valadão contava os seus padecimentos ao Dr. Natividade, que muito penteado, com os cabelos úmidos, parecia ter saído dum banho, e de mãos atrás das costas, bamboleando uma perna, dava conselhos de medicamentos usados em Pernambuco. O Mapa-Múndi, o Costa e Silva e o Regalado conversavam baixinho, em grupo, perto da janela. O Felício boticário murmurava ao ouvido do tenente Pena e do Bartolomeu de Aguiar, alternadamente. Os velhos, ouvindo, sacudiam a cabeça, muito convencidos. O Cazuza Bernardino, de pé à porta da sala, vestindo a bela farda de tenente, com fumo no braço, tinha uma atitude de dor resignada e forte. Quinquim da Manuela entrava e saía, atarefado, cuidando dos últimos arranjos, com interesse e dedicação de bom rapazinho. O senhor vereador João Carlos, atordoado, perseguido pelos olhos insolentes e brejeiros do Manduquinha Barata, procurava disfarçar; abrindo conversa com o professor Aníbal. Mas este, muito preocupado, virava-se para um e outro lado, concertava os óculos e cuspia, sem lhe dar atenção.
Macário, depois de deixar a cruz ao Quinquim da Manuela, foi contemplar o pobre finado, de quem guardara uma impressão de pena e simpatia, misturada duns longes de inveja e desprezo ao mesmo tempo. Sim, era uma coisa assim esquisita o que Macário sentia por aquela criança de dezoito anos, roubada à vida, ao que se dizia, por uma paixão amorosa, e que tão vivos e salientes deixara os traços do seu caráter. Quando o vira pela primeira vez no baile do casamento do irmão, a impressão que lhe causara fora desfavorável. Era um pelintra, um vadio que perdia o tempo palestrando na roda do Chico Fidêncio. Demais, era bonito moço e só vestia roupas feitas no Pará, umas coisas elegantes e novas, que Macário admirava, mas que não teria jamais a coragem de pôr em si. E Macário, até então humilhado, e visto com sarcasmo pelos rapazes alegres da roda do Chico Fidêncio, embirrava solenemente com aquelas elegâncias. Depois vira-o pálido, abatido, com um raio de loucura no olhar, as roupas em desalinho, narrando a desgraça da sua vida e falando em morrer para não suportar os tormentos da separação da sua amada. Agora que pela terceira vez o via era frio e imóvel naquele caixão mortuário, audacioso e terno ao mesmo tempo na sua rigidez cadavérica. E aquela transformação rápida, efetuada em tão poucos meses, como numa vertigem assombrosa que se apoderara daquele mancebo de dezoito anos, elegante e frívolo, apaixonado e ardente, devorado pela lava incandescente duma paixão súbita e mortal, enchia de pasmo e confusão o espírito de Macário. Francamente não o compreendia. Morrer pelo amor duma mulher! E morrer amado! Moço, elegante, instruído, pertencendo a uma boa família, renunciar à vida, deixar-se apanhar estupidamente por uma tísica ou coisa que o valha, só porque o papai não consentiu no casamento com uma matutinha do Urubus, era por demais inexplicável.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.