Por Aluísio Azevedo (1881)
— Perdoa meu amor! eu não, sei o que estou dizendo! Desculpa-me tudo isto, meu querido, meu senhor! Reconheço que és o melhor dos homens mas não partas, eu te suplico pelo que mais amas! Sei ,que é o teu orgulho que me faz mau; tens toda razão, mas não me abandoes! Eu morreria, Raimundo, porque te amo muito, muito! e nós mulheres, não temos como tu tens, outras ambições além do amor da pessoa que idolatramos! Bem vês! Eu sacrifico tudo por ti; mas não partas, tem piedade! Sacrifica também alguma coisa por mim! não sejas egoísta! não fujas! É o orgulho! mas que nos importa os outros, procuro agradar! Anda! Leva-me contigo! Eu desprezarei tudo; mas preciso ser tua, Raimundo, preciso pertencer-te exclusivamente.
E Ana Rosa caiu de joelhos, sem se desgarrar do corpo dele.
— É uma escrava que chora a teus pés! é uma desgraçada que precisa de tua compaixão! Sou tua! aqui me tens, meu senhor, ama-me! Não me abandones!
E soluçou, empalmado o rosto com as mãos. Raimundo, procurando erguê-la, vergava-se todo sobre ela. E o contato sensual daquela carne branca dos braços e do colo da rapariga, e o sarrafaçar daqueles lábios em brasa, e a proibição de tocar em todo aquele tesouro proibido, fustigavam-lhe o sangue e punham-lhe a cabeça a rodar, numa vertigem.
— Meu Deus! Ó Ana Rosa, não chores! Levanta-te pelo amor de Deus!
Ana Rosa continuava a chorar, e um tremor nervoso percorria o corpo inteiro de Raimundo. Foi nessa ocasião que a lanchinha do Portal soltou o seu primeiro sibilo, chamando os passageiros retardados; e aquele grito, penetrante impertinente chegou aos ouvidos do rapaz, ali, na doce reclusão daquele quarto, como uma nota destacado do coro de imprecações com o público maranhense, formigando lá fora nas ruas, aplaudia a sua retirada da província. Ele um relance mediu a situação, calculou a conseqüências ridículas da sua franqueza, lembrou-se das palavras de Manuel, e afinal o seu orgulho rebentou com impetuosidade de um temporal.
— Não, gritou, repelindo bruscamente a moça.
Precipitou-se para a saída.
Ana Rosa caiu a meio, amparando-se numa das mãos, mas ergueu-se logo, tornando-lhe a passagem. Em com um gesto altivo, atravessou-se contra a porta, de braços abertos, sombraceira, nobre, os punhos cerrados. Estava lívida e desgrenhada; a boca contraía-se-lhe numa dolorosa expressão de sacrifício e desespero. Arfavam-lhe as narinas e o seu olhar fulgurava terrível e cheio de ameaça.
Raimundo conservou-se um instante imóvel e perplexo defronte daquela inesperada energia.
— Não sairás porque eu não quero! disse ela com a voz estalada e surda. Não sairás daqui, do meu quarto, enquanto não estivermos de todo comprometidos! — Oh!
Houve então um silêncio angustioso para ambos. Raimundo abaixou os olhos e pôs-se a meditar, muito aflito. Parecia arrependido e humilhado pela sua fraqueza. “Por que voltara?...” Ana Rosa foi ter com ele e passou-lhe meigamente o braço pelas costas. Era outra vez a mesquinha rola medrosa e comovida.
— Tudo que de bom eu podia fazer para casar contigo, bem sabes que já o fiz... murmurou ela, agora sem animo de encará-lo. Papai não consentiu, na esperança de dar-me a outro... E eu não me sujeito a isso!... Hei de esgotar até o último recurso para continuar a ser só tua, meu amigo! E com essa resolução que te prendo a meu lado!... Pode ser que isso pareça mau e desonesto, mas juro-te que nunca defendi tanto o meu pudor e a minha virtude como neste momento! Para salvar-me tenho por força de fazer-me tua esposa, e só há um meio de conseguir que o permitam, é tomando-me desvirtuada aos olhos de todos e só aos teus me conservando casta e pura...
E abaixou as pálpebras, toda ela afogada em pejo. Raimundo não fez o menor movimento, nem deu uma palavra.
Ana Rosa abriu a soluçar.
— Agora... podes ir quando quiseres... acrescentou, desligando-se dele. Agora podes abandonar-me para sempre... fico com a minha consciência tranqüila, porque lancei mãos de todos os recursos para casar contigo... Vai-te! Nunca pensei é que, nesta última provação, ainda o covarde fosses tu! Vai-te embora por uma vez! Deixa-me! - E soluçou forte. - Se mais tarde hei de arrepender-me, é melhor mesmo que se acabe desde já com isto! Eu sou uma infeliz! uma desgraçada!
E chorava.
Raimundo puxou-a carinhosamente para junto dele; afagou-a, chamando-lhe a cabeça para seu peito.
— Não chores, disse-lhe. Não te mortifiques desse modo...
— Mas não é assim?... queixava-se a mísera, com o rosto escondido no colo do moço. Por uma outra que não te merecesse mais, farias tudo!... Tola fui eu em confessar que te amo tanto, ingrato!... Tu não merecias a metade do que fiz por ti! És um fingido!
E soluçava, mais e mais, como uma criança magoada. O rapaz abraçou-se com ela e beijou-a repetidas vezes, em silêncio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.