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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Mas, chegando em certa altura da praia, mandava sempre abaixar a cúpula do carro e afrouxar o passo dos animais; às vezes, chegava até a estacionar por alguns minutos debaixo de alguma árvore, como quem espera por alguém ou pretende descobrir alguma coisa; outras vezes saltava em terra e entretinha-se a uma pequena volta pelo caís. Foi assim que ela, na tal noite da entrevista da mulher do conselheiro, viu o Aguiar surgir na porta de Teobaldo com a mulher deste pelo braço.

- Olé! disse consigo e, auxiliada pela escuridão, pode observá-los à vontade, sem ser pressentida.

Viu-os trocarem em segredo algumas palavras, depois meterem-se resolutamente rio carro que os esperava na rua e que tomou logo a direção da cidade. Leonília acompanhou-os, recomendando ao seu cocheiro de guardá-los a certa distância e não os perder de vista.

Durante todo o tempo que Branca levou no terraço a espreitar o marido, ela rondou a porta da casa; casa aliás já sua conhecida, pois que até pernoitara aí uma noite com Teobaldo, depois de uma grande ceia, que o Aguiar oferecera aos amigos num dia de seus anos.

O primo de Branca estava longe de se supor espiado, e não procurou esconder a sua contrariedade defronte de Leonília.

- Mas com que diabólica intenção fizeste semelhante coisa? perguntou ele, depois de ouvir da cortesã a confissão de que ela o seguira desde Botafogo.

- Ora essa! respondeu Leonília, sem dominar o seu contentamento, para vingar-me, está claro! Quero que repitas agora o que disseste da inquebrantável honestidade de tua prima!

- Pois olha, juro-te que não mentiria sustentando o que afirmei a respeito dela.

- Tem graça!

- Não posso te explicar as circunstâncias muito especiais, que determinaram o que acabas de ver, mas afianço-te que Branca tem sido até hoje uma esposa verdadeiramente casta..

- Ora deixa-te disso, e fala com franqueza.

- Mas, filha, juro-te que estou dizendo a verdade. As aparências muitas vezes enganam.- Bem! Não queres falar, tanto pior para ti... Outros descobrirão aquilo que não me queres confessar.

- Mas se não há nada!

- Não tratemos mais disto; acabou-se!

- Não! Mas é que tu me podes comprometer muito seriamente...

- Pois se tens medo de mim, fala com franqueza e eu farei as coisas de modo a não ficares comprometido. Não admito é que me queiras convencer a mim, de que levas a estas horas uma mulher à tua casa de rapaz solteiro, talvez para discutirem algum ponto de moral doméstica!... Isso, hás de ter paciência, mas não passa... E, por conseguinte, dize lá o que entenderes, mas desde já te previno de que tenho sobre o fato o meu juízo formado.

- Se tens já o teu juízo formado, para que diabo queres então que eu fale?

- Porque com isso não fico sabendo menos do que já sei.

- E se eu não quiser falar?

- Nesse caso darei parte desta entrevista a Teobaldo; e ele que proceda como entender.

- E como conseguirias provar?

- Ora! Isso seria o menos! Bastava-me o cocheiro, que é meu conhecido antigo; e demais não sabes se eu estou só; posso ter testemunhas.

- Mas que diabo lucras tu com a minha confissão?

- Não é disso que se trata! Quero saber é se confessas ou não confessas que és o amante de tua prima?

- Desde que afianças que, se eu não confessar, vais perde-la para sempre... Confesso! - Confessas então que és o amante da mulher de Teobaldo?

- Que remédio!

- E há quanto tempo?

- Desde que a conheço. Bem sabes que ela é a única mulher que amei até hoje...

- Não! Pergunto desde quando ela é a tua amante de fato, desde quando a possuís!

- Não sei, já não me lembro.

- E que tencionas fazer?

- A que respeito?

- A respeito dela. Pergunto se tencionas continuar como até agora, ou visto que a amas,se tens a intenção de tirá-la do marido.

- Isso não é coisa que preciso que ela consentisse.

- Ela não quer?

- Creio que não.

- Não lhe perguntaste?

- Nunca.

- Não creio.

Ele sacudiu os ombros.

- Bem... murmurou Leonília, depois de uma pausa. - Adeus.

- Posso então confiar em ti, não é verdade? perguntou Aguiar, apertando-lhe a mão.- Podes confiar abertamente. Adeus.

- Até outra vez.

Leonília afastou-se, tomou o seu carro e desapareceu. Aguiar, muito contrariado com o que acabava de suceder, foi-se deixando ir pelas ruas, procurando consolar-se com a idéia que ainda havia de possuir como amante aquela que o rejeitou para marido. E, já sentado à mesa do hotel, onde ele costumava cear, dizia de si para si enquanto esperava o chá:

– No fim de contas fui muito feliz em não me ter casado com ela!

X

Enquanto isto se dava, Branca, aflita e estrangulada de indignação, chegava a casa.

Enfiou logo para seu quarto e, atirando a capa à criada, disse-lhe com a voz trêmula: - Chama o João ou o Caetano, aquele que se aprontar mais depressa. É preciso entregar quanto antes uma carta, que vou escrever.

E, depois de esgotar de um trago um copo dágua, assentou-se à secretária e escreveu o seguinte com a mesma precipitação com que bebera:

(continua...)

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