Por Aluísio Azevedo (1884)
— Pois aqui não entra mais ninguém...Eu cá por mim, não mexo nunca nos teus papéis, e ainda nem abri, uma vez sequer, qualquer dessas gavetas...Se puseste a carta aí, aí deve estar por força!
— Qual está o quê! Já despejei a gaveta! Já remexi tudo.
E a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo.
— Então não sei...concluiu Amélia, sacudindo os ombros. E continuou tranqüilamente a enxugar os cabelos, cujo serviço havia interrompido para atender às perguntas do amante.
— Mas a carta também não podia voar! Declarou este em tom áspero.
— Sei lá! Replicou a outra. — Comigo que não a tenho...isso afianço! Diabo! Praguejou Amâncio, sem se poder dominar. Pois, nem uma miserável carta posso ter nessa casa?! Arre! Que inferno!
— Inferno são esses modos que tens ultimamente! De certo tempo para cá é esta boniteza! Parece que falas ao Sabino! Outra que sabe!...quem sabe se tenho aqui algum senhor?!...
— Está bom! Basta!
— Basta vá ele! Seu atrevido! Quero saber que culpa têm os mais com os sumiços que levam as cartas, para ouvir impropérios destra ordem!
— Eu não me dirigi a ninguém! Sebo! Falo cá comigo! Creio que ao menos tenho o direito de zangar-me quando entender!
— Sim, mas é que os outros também não estão dispostos a aturar esses repelões a todo o instante!
— Pois que não aturem!
— Malcriado! Agora, por qualquer coisinha é isso que se vê!
— Qualquer coisinha, não! berrou Amâncio. — É que ontem pus aqui uma carta (soltou um murro na secretária) e a carta desapareceu! Irra!
— Mas quem é que te podia vir aqui tirara a carta, criatura de Deus?! Perguntou Amélia mais branda, encaminhado-se para o amante, a modos de querer chamá-lo à razão.
— Não sei! O fato é que a pus aqui, e ela cá não está!
— Há de estar, homem! Não a encontras agora porque já não tens cabeça, mas, logo que te acalmes, hás de descobri-la...
— Mas onde?! Já corri tudo!
— Deixas estar; eu me encarrego de procurá-la assim que saíres. — Mas é quer eu precisava levá-la comigo! É negócio urgente!
Amélia, como em resposta à última frase do rapaz, abaixou-se sobre os papéis espalhados no chão e começou a examiná-los, um por um.
— Não está aí! Observou Amâncio zangado, a passear de um lado para outro. — Já revistei tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a carta, não tem que ver! Amélia já não respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar o que havia pelo quarto.
— Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta, ao fundo, dentro destas minutas!...Acrescentou Amâncio, depois de um silêncio colérico.
— Mas quando a trouxeste?...disse Amélia, sem tirara os olhos do que rebuscava.
— Ontem à noite.
— Mas eu não te vi com ela...
— Já estavas dormindo, quando a pus na gaveta. — Quem sabe se ficou naquela algibeira?...
E a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de mão para correr a examinar a roupa do cabide.
— Ó filha! Eu não estrava bêbado quando me recolhi! observou Amâncio.
E saiu para se lavar, traçando furioso lençol em volta do corpo, num gesto melodramático.
Quando tornou ao quarto, Amélia já havia arrumado as gavetas e dispunha sobre a cama a roupa que o rapaz devia vestir à volta do banho.
— Então?...perguntou ele , ao entrar.
— Nada! volveu elas, com admiração na voz.
— Com efeito! Isto contado não se acredita!...Rosnou Amâncio, enfiando as meias.
E gritou para fora:
— Ó Sabino! Olha essas botas, moleque!
Amélia, ao lado, metia-lhe os botões numa camisa engomada.
E depois , a escovar-lhe o paletó no corpo, quando o estudante já estava pronto:
— E a carta, de quem era?...
— Do Campos, respondeu ele, sem hesitar.
E saiu. Amélia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.
* * *
E logo que se viu só, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma vez.
— Que devia fazer daquela carta?...como se devia servir daquela arma?...Denunciar o infame? — atirar-lhe à cara a prova de sua vilania e nunca mais o procurar para nada, ou devia simplesmente fingir que não sabia de coisa alguma, e, em segredo, tomar a vingança que lhe parecesse melhor?
Despedi-lo por uma vez — não convinha! Isso nem por sonhos! Ficar, porém, eternamente resignada e submissa, também seria asneira!
Seu amor-próprio estava mordido e sangrava. O procedimento desleal de Amâncio assumia no tribunal egoístico de seu espírito ignorante e mal-educado as proporções jurídicas de um crime, de um monstruoso abuso de confiança, um estelionato. Não podia conformar com a idéia daquela tremenda injúria, lançada contra os seus direitos de mulher nova e bonita.
— Canalha! Murmurava consigo, a esmoer o fato. — Bem me dizia o
coração!...Agora, o que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas descansa que hás de pagar com língua de palmo! Para não seres cão, meu safardana!
Foi-se porém, todo o dia, sem que Amélia deliberasse o destino que deveria dar à carta. Só na manhã seguinte apareceu-lhe uma resolução. Foi ter com o mano, chamou-o de parte e entregou-lha.
— Vê isto, disse.
Coqueiro abismou-se logo desde as primeiras palavras: “Minha adorada e incompreensível Hortênsia”.
— Que vem a ser isto?...Perguntou ele intrigado. — Lê! Respondeu ela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.