Por Aluísio Azevedo (1897)
— Calculo eu, ora esta! Tu não tens rendimentos, não tens emprego, hás de aceitar de alguém os meios de subsistência..
— Em todo o caso, é justamente para lhe não dar o direito de lançarme em rosto a minha miséria, que recuso o agasalho que me oferece! Se o senhor me fala agora deste modo, como não me falaria se eu vivesse à sua custa! Não vou!
— Estás muito enganado! Falote como pai, e quero que me obedeças como filho. O teu lugar é lá em casa! Exijo que vivas em minha companhia!
— Não posso!
— Mas por quê?
— Porque não quero!
— Reflete bem!
—Não! não! e não!
XXXVI
VÉSPER
Palpitava de comoção a edemoninhada zona do Rio de Janeiro, que vai desde o Largo do Paço até à nascente da rua do Lavradio. A parte leviana e galhofeira da população carioca agitavase na rua do Ouvidor, eletrizada de interesse por uma grande novidade.
O que teria acontecido de tão extraordinário, para trazer assim em alvoroço. Os repórteres das folhas e os afiambrados janotas dos pontos de bondes. Que diabo poria em reboliço as redações dos jornais, os salões de carambola e de sociedades carnavalescas, as lojas e armarinhos de jóias e de modas, as confeitarias, cafés e restaurantes do alegre coração da cidade?! Seria a morte do Imperador? seria a queda do Partido Liberal? seria algum levantamento da escravatura? seria a quebra de algum banco? seria uma nova guerra com alguma outra República vizinha, ou seria simplesmente o sorteio da grande loteria da Espanha?
Nada disso. A parte folgazã da população do Rio de Janeiro delirava de entusiasmo, apenas porque no vasto e constelado horizonte da bela pândega fluminense, raiara uma nova estrela, bonitona e petulante, ameaçando ofuscar, só com a sua brilhante aparição, todas as outras que cintilavam no satânico empírio.
Era a ordem do dia a "Condessa Vésper". Por todo o ruidoso centro do prazer carioca se falava com febre da deslumbrante criatura, que atravessara a rua do Ouvidor vestida de veludo carmezim bordado a ouro, faiscante de rica pedraria e jóias orientais.
Vinha diretamente de Paris, depois de percorrer todas as capitais do mundo, em que mantém no vícioamor o seu mercado alto. Trazia de comitiva um secretário louro, membrudo, barbado e enluvado, que lhe dava o tratamento de "Alteza", e um grande mono das Antilhas, que na rua lhe carregava a bolsinha de mão e lhe abria com irresistível graça a portinhola do carro.
Um delicioso escândalo!
Todos corriam a vêla, todos a queriam conhecer. Inventaramse logo em torno dela mil lendas e tradições. Uns a diziam artista, sem dúvida judia e grega, que só entre essas poderia haver mulher tão formosa; outros protestavam com orgulho ser a Condessa Vésper, brasileira legítima, que em Paris casara com um fidalgo russo e depois fugira com um tenor italiano; outros enfim pretendiam que ali andava maganice alta de príncipes, e citavam confusamente, de ouvido em ouvido, o nome do Duque de Saxe e do Conde d'Eu.
Essa estranha condessa era nada mais nada menos que Ambrosina. É que três anos haviam decorrido sobre os acontecimentos relatados no último capítulo, três anos que, dia a dia, nada apresentam digno de nota, mas que vistos em conjunto representam nestas Memórias um importante período de transformações.
Durante esse tempo, tudo e todos se foram modificando lentamente, menos a velhinha Benedita.
Desde o Médico Misterioso até o nosso recente Gustavo, grandes transformações operaram. Genoveva, a legítima descendente da flor das lavadeiras do Rocio Pequeno, já não mora na sua casinha do Engenho Novo; novas dificuldades depois da morte do seu homem e a sua índole rasteira, carregaram com ela para um cortiço, ficando a casinha alugada por oitenta milréis mensais. Tal mudança, digamos francamente, não foi penosa à mãe de Ambrosina, e cremos até que, de muito antes estaria realizada, a não ser certa consideração ao então restaurado Alfredo.
Genoveva tirava bom partido dos seus cinqüenta anos. A gordura parecia querer cortarlhe a atividade, ela porém, azafamada e forte reagia, levantadose às quatro da madrugada, e mourejando que nem um negro durante o dia inteiro. Nunca se sentira tão bem como ali, com seu ruidoso par de tamancos, toalha à cabeça o vestido enrodilhado nos quadris, e toda escorreita e sacudida a bater a sua roupa, entre a deferência e a estima das colegas.
Os moradores do cortiço tinham por ela um respeito particular, davamlhe o tratamento de dona e falavam misteriosamente de uma filha, que lhe entrara para o convento; de um comendador, que desaparecera arrebatado por desgostos, e finalmente de uma riqueza, de cegar! escondida no quintal da casinha do Engenho Novo.
E a viúva do comendador açulava inconscientemente tais fantasias, porque, gostando aliás de tagarelar o seu bocado nas horas de descanso, fugia sempre da conversa quando lhe tocavam nos parentes, ou lhe remexiam no passado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.