Por Inglês de Sousa (1891)
Estavam longe os tempos em que padre José o descompunha aos olhos de todos, sujeitando-o ao desfavor público! O filho da lavadeira de Manaus era um homem importante, de quem se falaria nas folhas, ao que lhe dissera o professor Chico Fidêncio, que, triunfo incomparável! o tratava com muita distinção. Toda a gente lhe tirava o chapéu: boa-tarde, Sr. Macário, como passou, Sr. Macário? As visitas sucediam-se e Macário nunca em sua vida recebera visitas! Esperava todos os dias a do coletor, homem importante, freguês do Elias, e que o estava enchendo de atenções. O capitão Mendes da Fonseca viria insistir com ele para que aceitasse o lugar do José Antônio Pereira que se tornara um tratante maior da marca. Mas Macário não queria deixar a sua querida igreja! Seria ingratidão para com a sua excelsa padroeira! Contentava-se modestamente com a consideração pública, que o colocava numa situação nova e superior.
E não queria mudar de vida, amava o seu emprego, e se Deus algum dia o favorecesse com um filho, legar-lhe-ia essa profissão honrosa e decente. O cheiro do incenso e da cera queimada, a frescura da igreja, o som argentino dos sinos, a gravidade das ocupações, a importância dos detalhes do serviço agradavam-lhe.
Depois aquele lugar proporcionava-lhe uma influência crescente, e agora que Silves estava outra vez sem pároco, e que seis meses pelo menos se passariam antes que a solicitude de D. Antônio remediasse a falta, o sacristão era como vigário leigo, sem tonsura, sem batina e sem direito de dizer missa, mas com todo o encargo espiritual daquele rebanho amado, com todas as vantagens do paroquiato. Era o único a dirigir o serviço do culto, reduzido embora a ladainhas e a enterros, governava a igreja, distribuía ceras e registros, emprestava as cadeiras, as toalhas e os castiçais da Matriz sem dar satisfação a pessoa alguma. Não podendo confessar as beatas, ouvia-as sem mais sigilo do que a sua discrição, aconselhava-as, davalhes remédios. E até já se lembrara, por amor à instrução pública da vila, de continuar com a escola de catecismo dos pequenos que ultimamente padre Antônio abandonara.
Macário embebido nestes pensamentos passeava na sacristia, aguardando a chegada dos irmãos do Santíssimo para ter o prazer de distribuir entre eles, ao sabor das suas preferências pessoais, as tochas, e as cruzes. Era regalia que tinha em muito apreço e que não deixava de mão. O Chico Fidêncio seria naturalmente o mais favorecido. Era preciso corresponder!
Ele estava deitado, e parecia dormir no seu caixão forrado de belbutina preta e ornado de largos galões dum dourado tirante a cobre, afogueado e velho.
A cabeça, coberta de cabelos castanhos anelados, que deixavam a testa livre e vasta, estava voltada para um lado e ligeiramente inclinada para trás; por efeito dum último espasmo tetânico, ou por compostura que mão estranha dera, salientando o magro perfil de tísico e emprestando uma audácia de atitude àquele corpo de vadio que resumira a vida numa única paixão. No rosto comprido e macilento manchas azuladas destacavam-se. Nos lábios finos, sombreados por um nascente buço castanho, vagueava um sorriso, como se no momento supremo do trespasse uma idéia feliz lhe tivesse alegremente colorido o quadro de além-túmulo. Ou talvez a certeza e a aproximação da morte tivesse tornado grato o instante que punha fim às tribulações da vida. Sobre o peito cavado pela moléstia a alva camisa francesa, engomada com esmero, bombeava o plastron de seda preta, amarrotado de leve pelas mãos cruzadas, brancas, diáfanas, veiadas dum azul escuro.
O resto do corpo perdia-se na frouxidão das roupas elegantes e caras, terminando pelos sapatos novos de polimento, entrelaçados por um lenço branco, para que os pés se não separassem. Pobre Totônio! Inutilmente lhe prendiam os pés. Já não poderia fugir em busca do pitoresco sítio do Urubus, onde solitária e triste gemia a sua adorada Emília, de quem para sempre o separava agora a terrível fatalidade da morte. Ao menos o seu juramento fora cumprido!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.