Por Aluísio Azevedo (1884)
Frases e frases desesperadas e cheias de fogo acavalavam-se umas pelas outras, falando em martírios infernais, em suplícios dantescos e terríveis aniquilamentos. E Amâncio, no seu epicurismo estrepitoso e brutal, declarava que “já não podia suportar as meias promessas, os dúbios sorrisos e as lentas torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes perplexas de Hortênsia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um só golpe. Ela que tomasse uma resolução, que despachasse! Se lhe não convinha o amor que ele propunha, declarasse-o com franqueza: — ficaria o dito por não dito! E, assim, escusavam de prosseguir naquele encarniçamento desabrido, de cujo oscilante resultado as dúvidas e incertezas o acabrunhavam e consumiam, mais dolorosamente do que tudo que pudesse haver de terrível e cruel em uma solução desfavorável!”
Quando deu por coreto e limado o que escrevera, tirou a limpo uma cópia, sobrescritou-a e, para que Amélia não descobrisse nada, escondeu todos os corpos de delito no fundo de uma das gavetas da secretária. Depois, como se tivesse alijado um novelo da garganta, respirou desafrontadamente, amorteceu o bico da gás e, abafando os passos e desfazendo-se em cautelas, foi meter-se nos lençóis, muito empenhado em não acordar a amante.
Não levou dez minutos a cair no sono.
Então, Amélia, ergueu-se, ainda com mais cuidado do que ele se recolhera, foi pé ante pé à secretária, tirou a carta e, depois de guardá-la em lugar seguro, tornou de novo à cama, e desta vez adormeceu deveras.
* * *
Leu-a precatadamente no banho, às oito horas da manhã, enquanto esperava que o tanque de mármore se enchesse.
Amâncio ainda ficara no quarto.
Ela, já despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros curvos, uma perna sobre a outra, a cabeça descaída molemente para os combros polposos do seio, tinha em uma das mãos a pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que parecia disposta a consumi-la com o brilho de seu olhos.
Aquela carta a revoltava muito; não por ele, mas por si mesma; não pelo afeto que teria ao estudante, mas pelo ressentimento de seu amor-próprio ofendido. Não lhe podia sofrer a vaidade que um homem, a quem, por merecer, ele fizera tudo que estava em suas mãos; um homem por quem lançar em juízo jogo todos os recursos de sua feminilidade; um homem por quem barateara todo o valimento do seu corpo, tivesse ânimo de desprezá-la por outra mulher!
E, com o olhar imóvel sobre a nudez oriental de seus membros, a boca entreaberta, o colo palpitante, Amélia se concentrava toda na idéia de uma vingança completa, tão completa, tão grande que lhe atulhasse o rombo cavado no seu orgulho e mulher traída.
A água, que escorria da torneira com um trapejar monótono, punha no ambiente desagasalhado do banheiro uma impressão ainda mais fria de umidade e desconforto; e aquele nu destacava-se ali como uma bela estátua desprezada. Sua carne tersa e maciça contraía-se, empinando os lóbulos do peito e enrijando a vermicular protuberância dos quadris.
Nisto, uma abelha voejou à roda da cabeça de Amélia, tentando pousar-lhe nos cabelos; ela agachou-se toda, fugindo logo num movimento medroso de caça que se assusta. Em seguida, puxou a toalha do cabide e pôs-se a dardejá-la contra o dourado importuno.
Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se à borda do tanque, equilibrandose, ora num pé , ora no outro, segurando-se à parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes perdidos da toalha.
Mas a abelha não se deixava prender. Ia e revinha no ar, zumbindo, a sacudir as sua trêmulas asas de escumilha; até que o sol, por uma frincha do telhado, veio buscá-la numa aresta de luz, ainda mais dourada do que ela.
* * *
Nessa ocasião, Amâncio, no quarto, perdia a cabeça, à procura da carta.
— Pois se eu a guardei aqui, com estas minutas!...resmungava ele sozinho, depois de ter já desarrumado toda a gaveta.
Imaginar que Amélia desse com ela, não! não era possível! Não descobriria o lugar, onde Amâncio, tão previdentemente, sepultara a maldita carta; além disso, quando ele se meteu na cama, já a pequena dormia a bom dormir e, pela manhã bem a viu acordar e escafeder-se para banho...Que diabo teria então mexido ali?...As portas ficavam sempre fechadas por dentro!...Supor que tivesse guardado o demônio da carta em outra parte...mas como? Se a deixara justamente dentro das minutas, e as minutas lá estavam?...
Mas Amélia vinha de entrar no quarto ao pé.
— Ó Amelinha! Viste por acaso por aí alguma carta?...perguntou o rapaz indo ao seu encontro.
— Que carta? Fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste mundo.
— Uma carta que nem é minha!...Guardei-a naquela gaveta, — desapareceu!...agora não sei que contas preste ao dono! É uma entalação! Uma verdadeira entalação! Queixava-se o rapaz convictamente.
— Mas , onde a puseste?
— Na gaveta da secretária; estou-te a dizer!
— Então deve estar lá. Procura bem.
— Já vi. Não está!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.