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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Disfarçadamente relanceava os olhos à espessura insinuando a vista pelo crivo das fôlhas, e embora não descobrisse o menor vulto, ela pressentia a proximidade do sertanejo e fôra para certificar-se que usara da astúcia de pronunciar o nome de Arnaldo, chamando-o. 

O ardil surtira efeito. 

Mostrando-se, o sertanejo viera confirmar a suspeita de Águeda, e dera aso a uma nova intriga, que alí prontamente armou a arteira cigana, para escapar à sua vigilância e iludir-lhe a perspicácia. 

 

XV – Tentação 

 

Já tinham soado no sino da capela as últimas badaladas do toque de recolher. 

Por toda a fazenda da Oiticica, sujetia a um certo regime militar, apagavam-se os fogos e cessava o borborinho da labutação quotidiana. Só nas noites de festa dispensava o capitão-mór essa rigorosa disciplina, e dava licença para os sambas, que então por desforra atravessavam de sol a sol. 

Era uma noite de escuro; mas como o são as noites do sertão, recamadas de estrêlas rutilantes, cujas centelhas se cruzam e urdem como a finíssima teia de uma lhama assetinada. 

A casa principal acabava de fechar-se; e das portas e janelas apenas escapavam-se pelos interstícios umas réstias de luz, que iam a pouco e pouco extinguindo-se. 

Nesse momento um vulto oscilou na sombra, e coseu-se à parede que olhava para o nascente. 

Era Arnaldo. 

Resvalando ao longo do oitão, chegara à janela do camarim de D. Flor, e uma fôrça irresistível o deteve alí. No gradil das rótulas rescendia um leve perfume, como se por alí tivesse coado a brisa carregada das exalações da baunilha. Arnaldo adivinhou que a donzela antes de recolher-se, viera respirar a frescura da noite e encostara a gentil cabeça na gelosia, onde ficara a fragrância de seus cabelos e de sua cútis assetinada. 

Então o sertanejo, que não se animaria nunca a tocar êsses cabelos e essa cútis, beijou as grades para colhêr aquela emanação de D. Flor, e não trocaria de-certo a delícia dessa adoração pelas voluptuosas carícias da mulher mais formosa. 

Aplicando o ouvido percebeu o sertanejo no interior do aposento um frolido de roupas, acompanhado pelo rumor de um passo breve e sutil. D. Flor volvia pelo aposento, naturalmente ocupada nos vários aprestos do repouso da noite. 

Um doce susurro, como da abelha no seio do rosal, advertiu a Arnaldo que a donzela rezava antes de deitar-se; e involuntariamente também ajoelhou-se para rogar a Deus por ela. Mas acabou suplicando a Flor perdão para a sua ternura.  

Terminada a prece, a donzela aproximou-se do leito. O amarrotar das cambraias a atulharem-se indicou ao sertanejo que Flor despia as suas vestes e ia trocá-las pela roupa de dormir. 

Através das abas da janela, que lhe escondiam o aposento, enxergou com os olhos d’alma a donzela, naquele instante em que os castos véus a abandonavam; porém seu puro e santo afeto não viu outra coisa senão um anjo vestido de resplendor. Foi como se no céu azul ao deslize de uma nuvem branca de jaspe surgisse uma estrêla. A trepidação da luz, cega e tece um véu cintilante, porém mais espêsso do que a seda e o linho. 

Cessaram de todo os rumores do aposento, sinal de que D. Flor se havia deitado. Ouvindo um respiro brando e sutil como de um passarinho, conheceu Arnaldo que a donzela dormia o sono plácido e feliz. 

Só então afastou-se para acudir ao emprazamento que recebera. 

O aposento de Águeda ficava do mesmo lado da casa, e era o penúltimo antes do quintal, logo depois do quarto de Alina. A janela estava cerrada e escura, mas ao olhar de Arnaldo não escapou uma fita imperceptível que a dividia de alto a baixo, e que êle atinou ser o tênue vislumbre de uma candeia velada. 

Águeda espreitava por essa fresta a chegada de Arnaldo, receosa de que não viesse, e impaciente com a demora. Além do interêsse da recompensa prometida pelo Onofre em nome de Fragoso, outro impulso movia nesse instante a cigana. 

Era mulher, e tinha nas veias o sangue ardente do boêmio tocado pelo sol americano. O prazer de fascinar um homem e cativá-lo a seus encantos, bastaria para excitá-la; acrescia, porém, que êsse homem era um mancebo galhardo e amava outra mulher, o que dava particular sainete à aventura. 

Assim prometia-se a Rosinha uma noite de emoções, que à satisfação de sua vaidade reuniria a fácil execução da trama urdida. Para disfarçar a impaciência da espera, entrou a devanear, e sorria-se pensando que no outro dia, quando se apercebessem do desaparecimento dela Águeda e de Flor, Arnaldo as seguiria com certeza, mas talvez não dosse por causa da filha do capitão-mór. 

No meio dêste devaneio, avistou pela fresta um vulto parado em frente à sua janela. Ergueu-se de chofre e entreabrindo a rótula perguntou em tom submisso: 

— É Arnaldo? 

— Êle próprio que vem saber para que o chamou aquí, a esta hora. 

— Entre! segredou a moça abrindo de todo a rótula e afastando-se para dar passagem. 

— Não podemos falar aquí mesmo? tornou Arnaldo, a quem repugnava penetrar no aposento. 

(continua...)

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