Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Concluamos enfim...
— Alguns dias, porém, depois da sua partida para o campo, a firma de seu pai me foi apresentada... havia uma promessa, uma obrigação dele, contando-se com a qual despesas que se tinham feito, e navios preparados: era um enorme empenho... mas o que podia eu fazer?...
— É que eu ainda não compreendi bastante, Félix!...
— Senhor, eu quero dizer que fui obrigado a contrair novas e grandes dívidas para entrar na negociação com a parte a que se obrigara a casa, que eu estava administrando. — Mas eu tinha o direito de saber tudo, e tu o dever de nada me ocultar!...
— Eis o erro que choro, senhor! porém, eu esperava que desta vez a sorte nos seria menos adversa; e contava que poderia apresentar-me vitorioso, depois de ter salvado de todos os seus empenhos a casa que administrei.
— E então?...
— Calculando os lucros sobre uma perda de metade de nossas embarcações, ainda assim teríamos vencido muito...
— E então?... e então?... e então?
— Oh! há três meses que se têm ido quebrando contra meu coração uma por uma todas as probabilidades que a nosso favor eu tinha!... cada notícia importava sempre uma desgraça!... a primeira, a segunda, a terceira, todas as embarcações perdidas... tomadas!... só nos restava a última... a última, que era também a derradeira tábua de salvação para nós; pois bem! ontem a notícia chegou... perdida! tomada, como as outras!...
— E portanto?... perguntou o negociante apertando violentamente as mãos.
— E, portanto, tudo está acabado...não há mais esperança possível!...
Hugo de Mendonça desabafou um gemido surdo e doloroso.
— E de hoje a três dias, senhor, temos de pagar uma letra na importância de treze contos de réis.
— Oh!...
— E de hoje a três meses uma segunda de quinze contos de réis.
— Félix!...
— E, enfim, de hoje a seis meses ainda uma terceira importando em dezoito contos de réis.
— Que todas três perfazem a quantia de quarenta e seis contos de réis!... disse tremendo Hugo de Mendonça, que estupidamente somara pelos dedos a dívida inesperada.
— É verdade, senhor.
— Sim... ainda quarenta e seis contos de réis que devem ser pagos no mesmo tempo em que se virá pedir-me outro tanto!...
— Era por isso que eu julgava esta desgraça inevitável!...
— Mas há, Sr. Félix, disse Hugo afetando um tom improvisadamente polido; há em tudo isto um lado obscuro... ininteligível!... nenhum administrador ocultou assim por tanto tempo negócios de tal importância ao dono da casa.
— Sr. Hugo de Mendonça, respondeu Félix empalidecendo involuntariamente, eu tenho e trago comigo documentos que esclarecem bastante o meu proceder; por eles se pode ver em que tempo fui contrair essa dívida na mesma casa que, com a que eu administrava, se ia de sociedade empenhar na fatal empresa; neles estão marcados, com a mesma data das letras que assinei, todos e ainda os mais minuciosos esclarecimentos a respeito das embarcações enviadas à costa da África. E de mais, senhor, conto a meu favor honroso procedimento de longos anos de serviço!... ninguém poderá fazer-me a injustiça de crer que enriqueço, fazendo a desgraça da sua casa!...
— Não se lhe disse isso, senhor, tornou Hugo; mas eu creio que no estado em que me vejo, deve-se-me tolerar uma queixa!
— Oh! perdão! perdão, Sr. Hugo de Mendonça!
— Está bem; está bem, Félix... deixa-me os papéis que me sentenciam a miséria.
— Ei-los aqui, senhor.
— Félix entregou a Hugo de Mendonça um pequeno maço de papéis, e alguns momentos depois retirou-se abatido e triste, como viera.
O negociante acompanhou com vistas perscrutadoras o seu guarda-livros até vê-lo desaparecer.
No pensamento de Hugo desenhava-se, ao pé da lembrança de seu infortúnio, uma dúvida que o fazia vacilar muito.
A história, que lhe contara Félix, tinha um não sei quê de fabuloso... seria Hugo vítima de uma trama infernal?... deveria o seu guarda-livros levantar-se rico e feliz sobre a sua miséria?... Mas, ao mesmo tempo que tais idéias surgiam-lhe na alma, Hugo lembrava-se de que Félix havia sido um caixeiro exemplar por sua honra e fidelidade; e a vida inteira do mancebo sem nenhuma mancha, sem a mais leve nódoa, fazia estremecer o negociante arruinado diante da imagem da calúnia.
Enfim, ele começou a examinar os papéis; tudo estava em ordem... tudo cuidadosa e miudamente documentado... e ainda um novo golpe vinha cair sobre Hugo de Mendonça; ele era devedor de grande quantia ao mesmo homem, que, poucos dias antes, lhe viera pedir a mão de sua filha, e fora por ela não aceito!...
Horas terríveis se passaram então...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.