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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O tenente Valadão, João Carlos, o professor Aníbal, o Costa e Silva, o MapaMúndi e o Chico Fidêncio cercaram-no no porto, não consentindo que fosse para a casa sem primeiro pôr tudo em pratos limpos. Pois pusera-o, e, gabava-se, fora obra asseada. Fugindo a um ubá selvagem, que os perseguira por duas horas, numa terrível porfia de remos, sob uma nuvem de flechas, tinham ido ele e o senhor vigário abrigar-se num mato cerrado, esperando que os gentios lhes perdessem a pista. Mal se tinham julgado a salvo dos índios do ubá, foram agredidos por um bando de parintintins; que ali se achavam, naturalmente para dar caça aos mundurucus do ubá. Logo ao primeiro golpe os parintintins atiraram ao chão o ardente missionário que se preparava para lhes fazer um discurso evangélico. Então ele, Macário, vendo o seu protetor e amigo, o arrimo da sua vida, o esteio da religião e da moral, banhado em sangue, perdera a noção do número e da força, e num esforço desesperado e louco - confessava-o - investira com os selvagens, armado de remo, e disposto a morrer, vingando o companheiro. Mas o gentio lá de si para si pensou que um homem tão valente como o Macário se mostrava não devia morrer sem as habituais cerimônias selvagens. Macário fora agarrado e amarrado a um castanheiro. Depois os índios retiraram-se muito alegres para o interior da floresta, levando em charola o corpo do missionário para lhe servir de prato de resistência nos seus horríveis festins noturnos. O sacristão ficara por muitas horas atado ao castanheiro, esperando a cada momento ser, como S. Sebastião, convertido em paliteiro, pelas flechas dos parintintins. Mas ao que lhe parecera, ao partirem aqueles selvagens levando o corpo de padre Antônio, avistaram os mundurucus do ubá, e trataram de os apanhar numa cilada, esquecendo o pobre prisioneiro branco. Ou seria outro o motivo da demora que permitira à Providência Divina, a rogo de

Nossa Senhora do Carmo e do Senhor S. Macário, realizar em favor do sacristão de Silves um grande e verdadeiro milagre. A embira com que os índios lhe haviam amarrado os pés era muito verde. Uma cutia, que por ali passara, sentira o apetite aguçado pelo cheiro vegetal da fibra tirada de fresco, e a roera de tal sorte que com um pequeno esforço Macário pudera libertar os pés. Conseguira livrar depois as mãos, esfregando com força a embira na aresta duma pedra grande que ali estava, a modo que de propósito, e correra para o porto. Os mundurucus do ubá haviam passado, sem dar pela montaria oculta entre as canaranas. Macário tratara de navegar para o lago Canumã, com um grande pesar de não ter apanhado a cutia, que se fora embora, apenas concluída a tarefa de que parecia incumbida. Era ou não era uma obra asseada aquela história da guerra dos parintintins com os mundurucus e da cutia mandada por Nossa Senhora do Carmo?

De fato Nossa Senhora fizera o milagre, porque afinal milagre fora salvar-se Macário dos dois caboclos do terçado que deram cabo de padre Antônio de Morais. A consciência de Macário estava tranqüila. Não mentira. Houvera ou não o encontro do ubá dos mundurucus? Estivera ou não Macário sentado à beira do rio sobre um tronco verde? Tinha ou não tinha visto caboclos de terçado em punho, que tanto podiam ser maués ou mundurucus como parintintins? Fugira ou não na montaria para o sítio de Guilherme? Quanto à morte de padre Antônio, não podia ser posta em dúvida. Poderia ele resistir à fúria com que vinham os dos terçados? O episódio da cutia era na verdade um exagero, mas milagre por milagre, tanto valia o da cutia como o da retirada do ubá que padre Antônio asseverara ser milagrosa, e aquele tinha sobre este a vantagem de não deixar mal o pobre sacristão que nenhuma culpa tinha de não haver nascido com vocação para missionário.

A história fora acreditada, e isto era o principal, apesar dos muitos oh! oh! ora essa! homem, esta cá me fica! abençoada cutia! malvados parintintins! e quejandas exclamações com que o auditório interrompera o narrador.

Toda a gente considerava agora o Macário um homem favorecido por grandes milagres de Nossa Senhora do Carmo, um favorito do céu. A coisa fizera barulho. Fazendo ranger as botas sobre o ladrilho da igreja, Macário sentia-se possuído de legitimo orgulho.

(continua...)

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