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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Branca respondeu que sim, queria certificar-se com os seus próprios olhos.

- E que meios tenciona empregar para isso?

- Espiá-los.

- Mas, de que modo?

- Postando-me defronte da casa.

- E se eles já tiverem entrado e se fechado por dentro?

- Espero que saiam.

- Mas é que dessa forma a prima será descoberta e terá de passar longas horas a esperar na rua, metida em um carro de aluguel, talvez arriscando a sua reputação...

- Que então hei de fazer?

- Seguir os meus conselhos. Eu me comprometerei a levá-la a um lugar, donde a prima poderá observá-los a vontade e sem ser vista.

- Ir em sua companhia?...

- Parece-me que sempre é mais prudente do que ir em companhia do Caetano... Lembrese de que esse velho a ninguém preza neste mundo como a Teobaldo e que não resistirá por conseguinte ao desejo de contar-lhe tudo!

- Pouco me importaria eu com isso!.

- Sim, mas importo-me eu. Se Teobaldo chegasse a descobrir a armadilha, descobriria também quem a armou. Ao passo que, indo a prima só comigo, eu a faria entrar misteriosamente pelos fundos da casa e levá-la-ia a um lugar seguro donde, já disse, os poderia ver, sem que ninguém desconfiasse da sua presença.

O velho Caetano acabava de aparecer à porta da sala, todo paramentado com a sua libré nova, a cabecinha já muito branca e vergada ao peso dos seus setenta anos.

- Espere, Caetano, disse-lhe Branca, encostando-se a um móvel, como para melhor resistir às idéias que a acabrunhavam.

É que ao seu espírito altivo e leal repugnava tudo aquilo, sentia-se mal, como se estivesse premeditando uma infâmia.

- Você já não é necessário, declarou Aguiar ao criado, enquanto ela pensava.

O velho Caetano fez uma respeitável continência e apartou-se sem dar palavra, arrastando os seus cansados pés e afagando lentamente com a mão a nuca encanecida. Branca teve afinal um gesto resoluto de cabeça, foi ter com o primo o perguntou-lhe com a voz tão firme quanto era firme o seu olhar:

- Dá-me a sua palavra de honra em como não deixará de ser cavalheiro um só instante enquanto estiver ao meu lado?

- Dou-lhe a minha palavra de honra em como a respeitaria como minha irmã ou minha mãe!

- Bem. Aceito a sua companhia.

E retirou-se por alguns segundos para ir por uma capa.

- Podemos ir, disse ao reaparecer na sala.

O primo deu-lhe o braço e os dois saíram juntos.

VIII

Chegaram sem o menor incidente ao destino que levaram.

Aguiar fez conduzir o carro pela rua dos fundos da casa e apeou-se defronte de um portão, dizendo à prima:

- Entre sem receio.

- Mas...

- Calculando a sua vinda, dei todas as providências para que nada nos estorvasse.

- Como?

- A sala, onde seu marido há de estar com a sujeita, tem uma janela que despeja para aqueles lados.

- Ah!

- Essa janela parece dar simplesmente para a montanha, mas tanto dá para a tal montanha como para um pequeno terraço que existe perto dela, meio oculto pela folhagem de algumas árvores.

- Um terraço?

- Sim. E é ali que os vamos observar.

- E se a janela estiver fechada?

- Tão tolo não era eu que consentisse em tal...

- Como assim?

- Ora, preguei muito de propósito as folhas da janela contra a parede. Além disso, eles não terão empenho em fechá-la, não só porque nem sequer desconfiam de que possam ser espreitados, como também abafariam de calor. Só por essa janela entra o ar no quarto.

Branca deixou-se conduzir até ao terraço; o primo a seguiu, afetando o maior acatamento e o mais solícito respeito.

- Eis a janela, segredou ele ao ouvido da prima.

E apontou para uma janela que de fato estava aberta, deixando devassar parte de uma boa sala bem guarnecida e bem iluminada. Sobre a mesa do centro via-se um grande véu preto, de mulher, ao lado de uma bolsa e mais um chapéu de homem e uma bengala.

Branca reconheceu estes dois últimos objetos, mas não disse uma palavra.

- Venha agora para esta outra banda... segredou-lhe de novo o rapaz, tomando-a delicadamente pela mão e conduzindo-a à extremidade oposta do terraço.

Ao chegar aí, ela sentiu um choque mais violento e amparou-se contra o ombro do primo, escondendo o rosto nas mãos e chorando.

É que vira o marido, de pé, tendo nos braços a senhora do conselheiro.

Agora, Branca já não podia ficar iludida; vira perfeitamente: Ele estava todo de preto, vergando-se para alcançar com os lábios o beijo que a sua cúmplice lhe oferecia. E viu que os dois se estreitavam nos braços um do outro, dizendo entre si alguma coisa em segredo: palavras de amor sem dúvida.

Branca enxugou as lágrimas, puxou de novo sobre o rosto a sua capa, que ela havia afastado para melhor ver, e com um gesto pediu ao primo que a acompanhasse. - Agora está convencida?... perguntou este meigamente.

- Estou. Obrigada.

E ela tomou a direção da saída do terraço.

Aguiar acompanhou-a, sem arriscar uma palavra ou um gesto a favor das suas pretensões amorosas. Percebia que era ainda cedo demais para isso, e que poderia comprometer todo o seu jogo, se naquele momento lhe faltasse a calma.

(continua...)

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