Por Aluísio Azevedo (1884)
Amâncio quis logo saber quem era o sujeito.
— Um tipo! Não o conheces.
— Mas como se chama?
Amélia, depois de alguma hesitação, confessou. — Era o Sousa Antunes...Aí tinha!
— Que Antunes? Interrogou Amâncio, já mordido.
— O Antunes, homem! Aquele sujeito da Câmara. Alto, de cavanhaque, aquele de castor branco, que uma vez encontramos nas regatas, em Botafogo. — Ah!...Já sei, já sei...
E Amâncio procurou disfarçar a sua contrariedade, fingindo que se abismava na leitura. E parecia muito preso à página, enquanto aliás o seu pensamento buscava descobrir no tipo de Sousa Antunes os atrativos que cativaram a mulher do Campos. — Impossível! O tal Antunes era um viúvo talvez de quarenta anos, pai de filhos, e vulgar, sem talento de espécie alguma, vivendo de um ordenado oficial de secretaria, nem tendo, ao menos, qualidades físicas que inspirassem paixão a qualquer mulher, quanto mais àquela! aquela que não pôs dúvida em lhe atirar com uma recusa pelas ventas!...
— Não! Isso deve ser história!...considerou ele em voz alta.
— Qual história, o quê! Retorquiu logo Amélia. — É louca por ele! Quando o avista, fica tonta! Eu vi! ( e arregalou um dos olhos com o dedo). Ainda outro dia, no São Pedro- que escândalo! Não lhe tirava o binóculo de cima! O que a cegou, sei eu...
— Mas como viste tu a saber disto?...
— Ora! Loló é toda das Fonsecas, que estão agora de cama e mesa com a Hortênsia!...
— Fonsecas?...
— Aquelas moças esquisitas, aquelas que foram à soirée!... Lembras-te?...Ó homem! as Fonsecas...as de Catumbi!...
A Amâncio pouco lhe importavam as Fonsecas, o quer ele desejava eram mais algumas informações a respeito do escândalo. Não podia suportar a idéia de que Hortênsia, a mesma Hortênsia que lhe repelira os beijos, tivesse um fraco pelo Antunes, o Antunes do cavanhaque! — Que horror!
* * *
E, depois dessa conversa, principiou a freqüentar a casa do Campos com mais assiduidade. Aparecia regularmente duas vezes por semana e quase sempre se demorava até as horas do chá.
— Mas Hortênsia — qual! Não atava, nem desatava. Era sempre a mesma criatura incompreensível; sempre aquela mesma ambigüidade, a mesma dúvida, o mesmo querer e não querer! Hoje — Um sorriso de esperanças; amanhã — uma frieza esmagadora; depois — ora muito coloridos de ternura, ora lulados de orgulho; tão depressa altiva e sobranceira, como suplicante e humilde; tão depressa risonha como triste, generosa como sovina, dando com uma das mãos para tomar logo com a outra.
O rapaz impacientava-se: — Fossem lá compreender semelhante mulher! Um dia — toda condescendência, toda interesse por ele, no outro — gestos desabridos, ameaças, palavras duras . — Sebo! — Já passava a debique! No fim de contas não valia a pena!
Mas o ladrão da mulher tinha uns olhos tão doces, uns decentes tão brancos, uma pele tão viçosa!...”Não senhor! Era preciso acabar com aquilo! Ele estava fazendo um papel ridículo!...”
E deliberava não pensar mais na mulher do Campos. “Que diabo! Se queria divertir, comprasse um boneco de engonços!...” Quando , porém , dava por si no dia imediato, já os passos o tinham conduzido para a casa do negociante.
Entraria, mas lá dentro havia de ser forte, inabalável! E trepava pelas escadas, imaginando o improvisar um namoro com a Carlotinha, estudando os assuntos de que teria de usar na conversa, calculando os efeitos que a sua afetada indiferença devia produzir no espírito da caprichosa. Bastava, porém, um sorriso de Hortênsia, uma palavra mais terna, um gesto mais amoroso, para o fazer ficar caído, desarmado, seguro como nunca.
— Era o diabo!
Voltava para casa furioso, atirando com as portas, respondendo de má vontade às perguntas que lhe dirigiam.
Amélia o estranhava, sem dar contudo, a perceber coisa alguma. Apenas lhe perguntava, aliás como sempre, onde estivera e, quando o rapaz dizia secamente “Com o Campos”, ela fazia:
— Ah!...
E não tocava mais em semelhante coisa.
Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. Não quis ir à varanda, meteuse no quarto, abriu um livro e aí ficou, junto à secretária, com a fisionomia fechada sobre a página.
Todavia, seu pensamento trabalhava: “Era preciso acabar com aquilo, custasse o que custasse! Era preciso definir as posições! — Ou a mulher do
Campos se explicava, ou ele não poria lá mais os pés!”
E resolveu que o melhor seria escrever-lhe uma carta enérgica, decisiva, exigindo um “sim” ou um “não”. Fosse a resposta qual fosse, contanto que viesse, contanto quer Hortênsia desembuchasse por uma vez!
Mas não queria escrever enquanto Amélia não pegasse no sono. — Ele bem sabia o quanto era a rapariga desconfiada e fina. Só quando a pilhou quieta e presumiu que já estivesse dormindo, foi que se animou a minutar a carta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.