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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— O senhor sabe quem tenha para alugar uma rapariga que entenda de cozinha?...

— Não, minha senhora.

— Se souber, é favor mandá­la cá

— Pois não, minha senhora.

— Quanto ao senhor, não o podemos aceitar, porque só admitimos professores eclesiásticos de reconhecida virtude...

— Então, tenha a bondade de dar­me as suas ordens...

— Deus o ajude!

E as religiosas viraram de bordo, depois de uma cortesia. Gustavo ganhou a porta, mas na ocasião de sair, voltou o rosto, e seu olhar encontrou no caminho o da rapariga bonita, que lá do extremo oposto da sala lhe atirou um sorriso franco e já de joelhos levantados.

No corredor estava a criada, à espera dele, para o conduzir à chácara.

Gustavo chegou afinal à rua.

— Apre! exclamou; que francesa cacete, mas que linda menina!...

E à medida que ele, a retroceder lentamente pela praia de Botafogo, se afastava do colégio das irmãs de caridade, a sua imaginação, moça e fogosa, voltava para lá, a galope.

E a endiabrada ia saltando grades, atravessando quartos, até chegar à perfumada cela da linda religiosa de olhos meigos. Encontrou­a sozinha, a rezar no seu oratório. O grosseiro burel do hábito não permitia que se lhe suspeitasse o desenho voluptuoso das formas, sumia­lhe o corpo, deixando permanecer em evidência apenas o rosto angelical, a que as abas da touca de linho branco serviam de asas de querubim.

— Como eu te amo! dizia Gustavo no seu sonho, a beijar imaginariamente aqueles dois belos olhos castanhos, que se lhe quedavam gravados na alma com o sorriso com que se despediram dele.

E depois, num amor ideal, religioso, etéreo, seu espírito, abraçado ao dela, voava pelo espaço afora, entre nuvens de incenso e coros celestiais, que lhe faziam a ambos tremer de gozo as asas entrecruzadas.

De repente, porém, uma circunstância o chamou à dura realidade da existência: era a necessidade absoluta de comer; tinha o estômago completamente vazio. Deu balanço às algibeiras, e daí a pouco, já instalado numa mesinha de mármore do café de Londres, fazia defronte do seu almoço de trezentos réis as seguintes reflexões:

— Como deve ser delicioso casar­se. a gente com uma criatura daquelas! vê­la sempre a seu lado, amá­la a todos os instantes, e viver só para ela, e só dela! Deve ser muito bom!... Tão bom, quanto é aborrecido almoçar café com leite e pão torrado, quando a alma nos está a reclamar, do fundo das entranhas, alegres bifes com batatas e um bom copo de vinho!...

Ao chegar à república, um dos seus companheiros o recebeu com esta frase:

— Ó Gustavo! queres ganhar uns cobres?...

— Pronto!

— Sabes desenhar, não é verdade?

— Mais que o Pedro Américo! Por quê?

— Pois se quiseres, vamos imediatamente à casa da minha lavadeira. Pediu­me ela que lhe arranjasse um desenhista para retratar o cadáver do marido. Serve­te a encomenda?

— E quanto estará disposta, essa providencial e ensaboadora viúva a pagar para que eu lhe imortalize o malogrado esposo?...

— Não sei... mas o que vier é dinheiro, e nós estamos a tinir.

— Pois mãos à obra! exclamou Gustavo alegremente.

E, depois de munir­se da sua pasta e dos seus petrechos de desenho, saiu com o companheiro para a residência da tal lavadeira, cuja figura, como vamos ver, é aliás muito velha conhecida do leitor.

Era a primeira vez que Gustavo ia desenhar por dinheiro. Até aí seus trabalhos artísticos não passavam de exibições em família, no seio de parentes e íntimos amigos, que a uma voz proclamavam com igual entusiasmo o grande talento do menino; de sorte que o modo frio e quase desatencioso pelo qual o receberam em casa da lavadeira, doeu­lhe no coração como clamorosa injustiça ao seu indiscutível mérito.

Entretanto, ia aparando os lápis, preparando o papel e os esfuminhos; e afinal, tomando a sua pasta assentou­se com esta sobre as coxas, defronte de um longo canapé de palhinha, onde estava o defunto, magro, estirado e duro, como se fora feito de sola.

Principiou a obra, no meio de um grande silêncio compungido, em que se arrastavam suspiros espaçados.

Ouvia­se ranger o carvão sobre o papel de Holanda. Ao lado dele, o amigo que o levara acompanhava com a vista o trabalho, e procurava ajudar o desenhista, lembrando particularmente da fisionomia do defunto.

— Olha que ele tem as ventas mais abertas e o queixo mais magro!... dizia, com a voz misteriosa e benfazeja. Puxa o cabelo mais para a esquerda!

Gustavo não protestava por delicadeza, mas as pessoas que lhe ficavam em frente bem percebiam a sua contrariedade.

Uma velha já se havia chegado para junto do retratista, com o rosto seguro pela mão esquerda e o cotovelo apoiado na direita.

Depois, vieram outros, até que afinal se viu Gustavo cercado por todos os lados. Entre essas pessoas estava, como milagre, a dona daqueles bonitos olhos, que pela manhã, no colégio das irmãs de caridade em Botafogo, se lhe haviam gravado no coração; mas Gustavo, sem desprender a vista do trabalho, deles sentia apenas o doce eflúvio banhar­lhe a alma.

(continua...)

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