Por José de Alencar (1875)
— A estratégia pode servir de muito lá para guerras de soldados, observou Daniel Ferro. Cá no sertão o que decide é a gente e a valentia. O capitão-mór tem uma escolta de cem homens, além dos agregados e escravos da fazenda. Para atacá-lo é preciso aumentar a nossa bandeira.
— Os senhores são todos homens de guerra, acudiu Ourém, e pois não estranharão em mim, que sou homem de lei, um voto de paz. Antes de um rompimento formal, que ainda não se deu, penso que muito acertado seria tentarmos uma acomodação honrosa; e para a ajustar ofereçome eu. Posso partir agora mesmo para a Oiticica, e lá me apresentarei como parlamentário.
— É tempo perdido, replicou Fragoso.
O voto que prevaleceu afinal, foi o do Daniel Ferro. Decidiu-se que a comititva ficaria alí nas vizinhanças de Quixeramobim, enquanto o alferes ia a Inhamuns recrutar uma bandeira numerosa e destemida, com a qual tomassem de assalto a Oiticica, para quebrar a proa do capitãomór e obrigá-lo a dar ao Fragoso todas as satisfações, sendo a primeira delas a mão de D. Flor.
Quando Marcos Fragoso dirigia-se à sua rede, saíu-lhe ao encontro Onofre, que o
espreitava:
— Ainda me apareces? perguntou o mancebo, em quem a presença de seu cabo de bandeira veio de novo atear a ira.
— Quem é que se livra de ser logrado uma vez, ainda mais daquela maneira? retorquiu o coriboca submisso. Mas o caso está em saber tirar a desforra.
— Já não creio nas tuas bazófias, tornou o mancebo desdenhosamente.
— Nestes oito dias, se não for antes, asseguro ao senhor capitão que temos o passarinho na gaiola.
— Ou o sendeiro na peia, retrucou Fragoso, aludindo ao recente de desastre do Onofre.
— O sr. capitão há de ver, se desta feita o engano.
Sempre conseguiu Onofre do patrão que o ouvisse; e então expôs miudamente o ardil que havia tramado, e que já estava àquela hora em via de execução. Para o coriboca era mão de empenho essa, que devia rehabiliatá-lo no conceito do Fragoso, e desafrontar a sua fama de cabra fino e manhoso, abalada pelo último revés.
Logo que a comitiva deixara o sítio da emboscada, Onofre tivera uma conversa com a Rosinha e o resultado foi tornarem furtivamente ao Bargado, com o José, irmão da rapariga. Chegados à fazenda, onde tinham deixado as macas, operou-se nos dois ciganos uma transformação completa.
Rosinha tornou-se Águeda, a viúva perseguida, que vinha da Barbalha implorar a proteção do capitão-mór; e José disfarçou-se no velho que devia acompanhá-la até a Oiticica.
O Onofre sabia do caso acontecido com o Vareja; e Rosinha já conhecia bastante a gente da Oiticica pelas conversas do Moirão, que estava sempre a falar do Arnaldo, e a contar as mandingas do sertanejo.
A recomendação que levava a rapariga era insinuar-se na confiança de D. Flor e a pretêsto de passeio atraí-la a uma cilada, em que o Onofre de antemão prevenido se apoderasse da donzela e a conduzisse ao Marcos Fragoso.
Se falhasse êste plano, devia então Rosinha dispor as coisas para um assalto noturno, avisando ao Onofre da ocasião propícia, e abrindo-lhe a porta da casa para que no meio da confusão fosse raptada a filha do capitão-mór.
Para qualquer dos casos, a fábula do Proença seria de proveito, pis além de explicar o aparecimento da suposta viúva na Oiticica e de granjear-lhe a compaixão das senhoras, contava o Onofre que desse em resultado a partida do capitão-mór com uma forte escolta.
Não partira o fazendeiro, mas enviara o ajudante com cêrca de metade de sua gente, de modo que já não era muito de temer a perseguição que naturalmente o Campelo havia de fazer aos roubadores da filha.
Águeda ganhou facilmente as boas graças de D. Flor; para isso não lhe foi preciso empregar a menor arte, bastou a sua formosura, e o luto que a tornava ainda mais interessante. A donzela tomou-se de afeição sincera pela bela viúva.
Todavia desde logo percebeu a astuta cigana que tinha de lutar com um obstáculo sério, e êsse era Arnaldo. Já estava ela prevenida de algum modo acêrca do sertanejo, pelas proezas que dele contava o Moirão, nos serões da fazenda do Bargado. Mas na manhã seguinte observou uma circunstância que a sobressaltou.
Vira o olhar que Arnaldo fitava em Flor, e concebeu no brilho que acendia aquela pupila negra os lampejos de uma paixão intensa. O sertanejo amava a filha do capitão-mór; e êsse amor, não partilhado, e portanto inquieto e sôfrego, devia envolver a donzela em uma solicitude constante.
Águeda adivinhava a vigilância infatigável dêsses afetos, que vivem de uma doração mística e se enlevam na contemplação do ídolo, investigando todos os gestos e perscrutando no mínimo acidente o pensamento recôndito. Contava, pois, que perto de D. Flor seria a cada instante o alvo da observação de Arnaldo.
Quando saía com a donzela a passeio, notou a cigana que por dentro do mato a seguia um leve farfalhar da ramagem. Em outra ocasião o atribuiria à brisa ou a algum pássaro, e não faria o menor reparo. Nauqela situação, porém, essa circunstância viera avivar a sua desconfiança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.