Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– À saúde desta feliz noite! exclamou a velha com as lágrimas nos olhos.
– Sim... sim; e também à felicidade da tarde que passou!
Os copos esvaziaram-se.
A ceia prolongou-se até às nove horas. A velha e o mancebo conversavam alegremente. Nunca uma noite igual se havia passado no “Purgatório-trigueiro”.
Quando terminada a ceia, a velha escrava de Irias acabava de retirar-se, Cândido lembrou à sua mãe adotiva a promessa que lhe tinha feito.
– Já ceamos, minha mãe; e eu estou ansioso de conhecer o vosso segredo.
– Ainda não... creio que ainda é cedo. Que horas serão?...
– Mais de nove.
– Pois espera até as onze.
– Por que então?
– É uma puerilidade. Quero começar a falar às mesmas horas em que me bateram à porta.
– Em que vos bateram à porta?...
– Sim.
– E para quê? perguntou Cândido curioso.
– É a minha história... é o meu segredo.
– Vós aguçais a minha curiosidade, minha mãe!
– Tanto melhor.
– Falai por quem sois!
– Às onze horas da noite. – E até lá o que faremos?
– Eu, respondeu a velha, pensarei no presente que me trouxeram a essa hora.
– E eu?...
– Tu... ora... tu podes muito bem pensar na tua ventura da tarde que passou.
– Dizeis bem, senhora!... exclamou o mancebo.
E fechando os olhos, com os lábios dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos... pensou em Celina, até...
Até as onze horas da noite.
Quando os sinos deram o sinal dessa hora, Cândido, como despertando de um sono feliz, exalou um profundo suspiro, e abrindo os olhos, viu Irias sentada diante dele:
– Onze horas! disse o mancebo.
– Sim, é tempo, respondeu a velha; eu vou falar...
Irias e Cândido respiraram e arranjaram-se em suas cadeiras, como se aquela tivesse de contar, e este de ouvir uma dessas longas histórias que se contam nas noites de inverno. E a velha falou:
– Há vinte e um anos...
– Há vinte e um anos?! exclamou o mancebo interrompendo Irias; há vinte e um anos?! não é essa a minha idade?
– Creio que sim.
– A vossa história tem pois relação...
– Saberás, se me quiseres ouvir.
– Falai, disse Cândido torcendo as mãos com vivos sinais de impaciente curiosidade.
A velha continuou:
– Era noite; mas não como esta, que vai indo fresca e bela com seu majestoso e claro luar. Era uma noite de tempestade; a chuva caía a cântaros... os relâmpagos acendiam com intermitência cheia de temores um fogo infernal que cegava; os trovões faziam estremecer os móveis e as casas...
– Má noite!... murmurou pensativo o mancebo; má noite!... que presságio!...
– Que é isso? disse Irias; fazes-te melancólico?
– Não é nada, continuai.
– Eu estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora das Dores... rezava tremendo pelos navegantes... e por mim. Nossa escrava respondia às minhas orações... a tempestade... a trovoada continuava cada vez mais horrível, quando às onze horas...
– Às onze horas...
– Uma mão pesada e forte bateu à porta de nossa velha casa... corremos ambas, eu e a escrava: “quem é?..” perguntei.
– Abra pelo amor de Deus; disseram da rua.
– Abri.
Recuei espantada diante de um vulto que entrou: era um homem alto e envolvido em longa capa negra.
– Nada receie, disse ele sem se desembuçar.
– Quem é o senhor? e o que quer de mim?... perguntei.
Em vez de responder-me, o homem fechou a porta por onde acabava de entrar, e ao som dos trovões... perguntou-me:
– A senhora é cristã?
– Eu rezava quando o senhor bateu, respondi.
– Pode-se rezar e não crer, tornou-me. Pergunto se é cristã, se sabe sê-lo.
Por única resposta mostrei-lhe a imagem de Nossa Senhora das Dores, a cujos pés tinha eu estado há pouco.
– Nossa Senhora das Dores! exclamou o homem desconhecido: o símbolo da maternidade! a mãe de todos os homens!... de joelhos pois, senhora.
Eu me ajoelhei de novo diante da imagem, e o desconhecido prosseguiu:
– Em nome da mãe de Deus, que é também, e principalmente, a mãe dos órfãos e dos pobres, aceita, mulher, como teu filho esta infeliz criança recémnascida, que não tem por si no mundo senão o olhar piedoso que do alto do céu está sem dúvida lançando sobre ele a Virgem...
– E tem tudo portanto! acrescentei eu com o coração cheio de fé.
O desconhecido lançou para trás a capa, e entregou-me uma inocente criancinha recém-nascida, que acabava de fazer o seu passeio no mundo ao clarão dos relâmpagos e ao som dos trovões.
Recebi-a de joelhos como estava; era tão galante essa criança! jurei amá-la como se tivesse saído de minhas entranhas; jurei pela Santa Virgem, que seria sua mãe.
A criança dormia tão sossegada!
Olhei para a imagem da Senhora... pareceu-me que sorria... que me estava animando com um olhar protetor...
A chuva tinha parado... os trovões não se ouviam mais: era sem dúvida um milagre de Nossa Senhora.
Examinei a criança... era um menino.
– Como se chama este menino? perguntei.
– Ainda não tem nome.
– Que nome lhe darei?
– O que quiser.
– Sua família?
– Pois não está vendo que é um enjeitado?
– Bem, eu o adoto; é meu filho.
– Deus lho há de pagar, disse o desconhecido. Mas a senhora é pobre... eis
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.