Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
E, pois, Hugo de Mendonça, que, para ficar senhor independente da casa de seu pai, se obrigara a todas as dívidas, que a faziam gemer, começara logo a lutar com imensas dificuldades; todavia, tendo um nome cheio de brilhante reputação e uma vida ainda sem mancha, pôde sustentar-se no mesmo pé em que dantes vivera seu pai; obrigado a sair da corte para tomar conta dos bens, que longe haviam deixado seus parentes, ele pôs os seus negócios sob a direção de um moço que, há dez anos, era o primeiro caixeiro de casa, e que jamais dera azo à menor desconfiança da sua probidade.
Voltando depois de alguns meses de ausência, Hugo achou tudo no mesmo estado... a casa se debatia ainda apertada pelos mesmos empenhos... mancava sempre; mas era inegável que Félix, que a ficara administrando com amplos poderes, fizera admiráveis esforços para sustentála.
Quem julgasse a Hugo de Mendonça pelas aparências, o acreditaria tão feliz como rico; além de ser o gênio naturalmente alegre, o negociante, à semelhança da jovem loureira que, abatida e amargurada no fundo da alma, ainda assim levanta orgulhosa a cabeça diante de suas rivais, fazia por esconder seus concentrados tormentos sob um aspecto de felicidade; mas, para contrastar a alegria de seus dias, ele passava noites cruéis de cálculos baldados; noites que ele gastava em lembrar e somar suas dívidas; em sentir apertar-se-lhe o coração, prevendo que lhe seria preciso voltar-se para sua mãe e sua filha, e pedir-lhes seus bens para perder tudo, menos a honra.
Foi por isso, sem dúvida, que ele estremeceu, ouvindo anunciar a visita de Félix a horas em que o não devia esperar.
O guarda-livros entrou e, obedecendo à voz de Hugo, sentou-se defronte dele.
O mancebo trazia no semblante a expressão de pungente dor; em seus olhos se estava lendo a vigília de uma noite inteira.
— Pois bem, meu Félix, disse Hugo forçando um sorriso; eu estou agourando-nos mal da
tua visita.
Félix fez um sinal afirmativo.
— É que temos novas dificuldades a vencer para sustentar-nos... empenhos novos... e quem sabe?... talvez uma grande desgraça.
O guarda-livros fez novo e igual movimento de cabeça; Hugo de Mendonça tornou-se, então, pálido, como ele.
— Almocemos primeiro, tornou depois de alguns minutos de silêncio; procuremos adquirir forças para assoberbar a tempestade.
Félix quis falar; porém, Hugo de Mendonça, já com muito sangue-frio, repetiu o mesmo conselho.
— Almocemos primeiro, meu amigo; há sempre tempo de sobra para o infortúnio.
Até à hora do almoço Hugo entreteve agradavelmente a Félix e as senhoras, com as quais se tinham ido ajuntar, em objetos indiferentes.
Finalmente, os dois se viram de novo a sós e defronte um do outro no mesmo gabinete. — Agora, meu Félix, disse Hugo de Mendonça, vamos ao que é mais sério e mais triste: que há de novo?... fala...
— Senhor... há uma desgraça... horrível!...
— Mas, enfim, sempre acharemos para salvar-nos algum meio, embora difícil...
— Senhor, disse o moço, o mal é muito grande... é enorme...
— Sem remédio?...
— Talvez... desgraçadamente, talvez sem remédio!
— Mas o que será isso, que por hora não compreendo!... eu me supunha ao fato de todos os meus negócios!...
Félix ficou frio como um cadáver; e sentiu que as palavras de Hugo de Mendonça retiniam cruelmente no fundo de seu coração.
— Félix, continuou o negociante, é preciso falar... vamos...
— Senhor, respondeu o guarda-livros; eu sempre mereci a mais completa confiança do senhor seu pai; e nunca dei motivo para perder a sua. Recebido e educado nesta casa, pobre órfão que eu era, eu vos olhava como meus pais, como vós me olháveis como vosso filho.
— Adiante... adiante...
— Não; tudo é preciso dizer; porque eu cometi um erro, a que se poderá chamar um abuso de confiança, pois que suas conseqüências foram desgraçadas, e que se diria uma grande prova de amizade e dedicação, se o seu resultado correspondesse aos meus desejos e esperanças!
— Basta de preâmbulos, Félix; eu estou ansioso por conhecer esse infortúnio, que tanto te abate.
— Eu o vou dizer; mas assegure-me primeiro, senhor, que eu tenho administrado a sua casa mais como um membro da família, mais como um filho, do que como um assalariado...
— Sim... todos te fazemos justiça: porém, vamos... vamos...
— Eu me explico: é, todavia, necessário partir de longe. Senhor, quando morreu seu pai, eu sabia dos negócios da casa mil vezes mais do que V. S.ª; perdoe-me... o Sr. Raul de Mendonça parecia estimá-lo pouco; e por isso o arredava sempre dos seus conselhos...
— Adiante... adiante...
— O senhor seu pai, poucos anos antes de morrer, se havia empenhado em negociações proibidas e perigosas; e, como tantos outros, sofreu reveses; o resultado foi deixar a casa nas difíceis circunstâncias em que passou a seu poder...
— Sabemos disso...
— Logo que depois da morte dele, a casa ficou debaixo da direção de V. S.ª; eu, recebendo amplos poderes para, em sua ausência, continuar com os negócios, recebi também ordens terminantes para pôr termo a essas empresas fatais e ilícitas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.