Por Inglês de Sousa (1891)
— Se ficasse éramos dois a morrer, morrer por morrer, morra meu pai que é mais velho; ou, por outra, morra padre Antônio que estava morto por isso.
Fizera a viagem até o sítio do Guilherme, com o enorme contentamento de ver-se livre das loucuras do vigário. O seu lombinho rejubilara-se, entumecendo de gozo ao contato do sol que o picava do lado com titilações provocadoras. Os passarinhos cruzavam-se sobre a sua cabeça, como para o saudar pela vitória alcançada, e festejavam-lhe o feliz regresso, pipilando alegremente. Uma viração fresca soprava do Amazonas, acariciando-lhe os cabelos, e pondo-lhe nos membros uma sensação de bem-estar indizível, como se o hálito perfumado da Luísa Madeirense viesse ao seu encontro para o afagar docemente, fazendo-o prelibar as delícias que o esperavam na vila. A canoa cedia facilmente ao remo, se é que o não dispensava, deixando-se arrastar pela corrente na cumplicidade feliz daquela fuga.
Chegara ao sítio do Guilherme - seria talvez onze horas da noite com um luar de quarto crescente. Os cães latiam, mas o dono da casa acudira ao barulho.
— Tome tento na cachorrada, patrício, é gente de paz.
O tapuio não o conhecia, mas a tia Teresa tinha boa memória:
— Gentes, cruzes! É aquele branco do sitro dia que tem o olho tapado!
Até essas palavras tinham-lhe ficado gravadas na cabeça. Não podia esquecer o mínimo incidente do seu afortunado regresso. Desde que deixara a companhia de padre Antônio, tudo lhe correra às mil maravilhas, como se Nossa Senhora do Carmo o quisesse compensar amplamente dos dissabores sofridos. A hospitalidade do Guilherme fora franca e de boa vontade, e a tia Teresa, apesar daquela tolice insulsa com que lhe assinalara a belida, esmerara-se em obséquios e atenções que iam direito ao coração faminto do sacristão de Silves. Todavia a demora no sítio do pescador fora muito longa. O Guilherme tinha de levar ao Ramos uma boa partida de pirarucu salgado, que estava preparando, e não queria fazer duas viagens para aquelas bandas. Quando fosse levar o pirarucu, levaria o branco. E assim obrigou o Macário a esperar cerca dum mês com intensas saudades.
Entretanto a viagem do lago Canumã ao lago Saracá fora feita nas melhores condições possíveis. Macário, refeito das fadigas excessivas que suportara, estirado no fundo da igarité sobre um tupé macio, cruzara os braços e as pernas numa regalada mandriice, resguardando do sol o lombinho com o chapéu de palha, e pensando na esplêndida Luísa, a rainha das formosas. Uma nuvem apenas ensombrava-lhe a alegria de sentir-se deslizar suavemente sobre a superfície do rio, sem que tivesse de calejar as mãos no remo. Era a idéia do embaraço em que se teria de achar para dar explicações aos habitantes de Silves sobre o desaparecimento do vigário coincidindo com a própria salvação.
Mas ainda aí fizera-se sentir a decidida proteção de Nossa Senhora do Carmo, porque ninguém em Silves duvidara da história que Macário contara ao chegar, e de que se não podia lembrar sem que um sorriso de orgulho prestasse homenagem ao seu mais que provado maquiavelismo. Era num aperto destes que Macário queria ver o Bismarck e o conselheiro Zacarias!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.