Por Aluísio Azevedo (1881)
Um tropel de passos rápidos, que vinham da escada, sobressaltou-a, ia fugir, mas Raimundo, aparecendo de improviso, suplicou-lhe com a voz tomada pela comoção, que o escutasse.
Ana Rosa ficou estática.
— Não nos veremos mais, nunca mais, balbuciou o moço, empalidecendo. O vapor sai daqui a poucas horas. Lê essa carta, depois que eu tiver partido. Adeus.
Entregou-lhe uma carta e, sentindo que lhe fugia de todo o animo, ia a descer, muito confuso, quando se lembrou de Maria Bárbara. Perguntou por ela, que acudiu logo, e ele despediu-se, sem saber o que dizia, gaguejando. Ana Rosa, defronte de ambos, conservava-se imóvel parecia estonteada, não dava uma palavra, não respondia, não apresentava uma objeção.
— Adeus, repetiu Raimundo.
E tomou, trêmulo, a mão que Ana Rosa tinha desamparada e mole apertou-a nas suas com sofreguidão e, sem se importar com a presença de Maria Bárbara, levou-a repetidas vezes à boca, cobrindo-a de beijos rápidos e sequiosos. Depois desgalgou de uma só carreira a escada dando encontrões pela parede e tropeçando nos degraus.
— Raimundo! gritou a moça com um gemido.
E abraçou-se à avó vibrando toda numa convulsão de soluços.
O rapaz saiu e achou-se no meio da rua, distraído apatetado, sem saber bem para que lado tinha de tomar. “Ah! precisava ainda fazer algumas compras...” Pôs-se a aviá-las; nem havia tempo a perder correu às lojas. Mas, independente da sua vontade e do seu discernimento dentro dele alimentava-se por conta própria, uma dúbia esperança de que aquela viagem não se realizaria; contava topar com qualquer obstáculo que a transtornasse; confiava num desses abençoados contratempos que nos acodem muito a propósito, quando a despeito do coração, cumprimos o que nos manda o dever. Desejava um pretexto que lhe satisfizesse a consciência.
Entrou em várias casas, comprou charutos, um par de chinelas, um boné, mas fazia tudo isto como por mera formalidade, como que para justificar-se aos seus próprios olhos, cada vez mais abstrato sem prestar atenção a coisa alguma. Foi ao armazém, em que mandara, logo ao romper do dia, depositar as suas malas; contava, ao entrar aí, receber a noticia de que elas já lá não estavam, que alguém as havia reclamado que alguém as roubara, e esta circunstância lhe impediria de sair por aquele vapor; mas qual! todos os seus objetos se achavam intactos e respeitosamente vigiados. Mandou carregar tudo para a rampa e seguiu atrás, esperando ainda que na Agencia lhe dariam a noticia de que a viagem fora transferida para o dia seguinte.
Pois sim!...
Não havia remédio senão ir. Estava tudo pronto tudo concluído, só `lhe faltava embarcar. Despedira-se de todos a quem devia essa fineza nada mais tinha que fazer em tenra; as suas malas estavam já a caminho do cais - era partir!
Senha um terrível desgosto em aproximar-se do mar, e contudo era para lá que ele se dirigia, vacilante, oprimido. Consultou o relógio, o ponteiro marcava pouco mais de oito horas e parecia-lhe como nunca disposto a adiantar-se. O desgraçado, depois disso perdeu de todo a coragem de puxá-lo da algibeira; aquela inflexível diminuição do tempo o torturava profundamente. “Tinha de seguir! Diabo! Só lhe faltava meter-se no escaler!... Tinha de seguir! E, daí a pouco estaria a bordo, e o paquete em breve navegando, a afastar-se, a afastar-se, sem tomar atrás!... Tinha de seguir! isto é: tinha de renunciar, para sempre a sua única felicidade completa - a posse de Ana Rosa! lá desaparecer deixá-la, para nunca mais a ver! para nunca mais a ouvir, abraçá-la possuí-la! Inferno!”
E, à proporção que Raimundo se aproximava da rampa sentia escorregar-lhe das mãos um tesouro precioso. Tinha medo de prosseguir, parava, respirando alto, demorando-se, como se quisesse conservar por mais alguns instantes a posse de um objeto querido, que depois nunca mais seria seu, mas a razão o escoltava com um bando de raciocínios. “Caminha! caminha pra diante!” gritava-lhe a maldita. E ele obedecia, de cabeça baixa, como um criminoso. Entretanto, Ana Rosa nunca se lhe afigurou tão bela, tão adorável, tão completa e tão lhe como naquele momento! chegou a ter ciúme e a censurá-la do intimo da sua dor, porque a orgulhosa não correra ao encontro dele, para impedir aquela separação. E ia deixá-la desamparada, exposta ao amor do primeiro ambicioso que se apresentasse, e a quem ela se daria inteira, fiel, palpitante e casta, porque todo o seu ideal era ser mãe! “Inferno! Inferno!” Inferno!”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.