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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Perderia mais uma ilusão a respeito de meu marido, respondeu ela. - Até aqui ainda não o apanhei mentindo, e confesso que o julgo incapaz de tamanha baixeza.

- E se eu provasse que ele, em vez de passar a noite nessa fantástica conferência, estará por esse tempo aos pés da mulher do conselheiro?...

- Creio que ainda assim eu não acreditaria.

- E se as provas fossem irrecusáveis?

- Nunca perdoaria a ele semelhante infâmia.

- E jura que não fará o mesmo a meu respeito, se eu provar o que disse?

- Pode estar tranqüilo por esse lado, porque nós, as mulheres, só condenamos os atos maus e as faltas da pessoa que amamos. Em nós o ódio é sempre o avesso do amor e só aparece quando este se esconde; o nosso coração é uma capa de duas vistas, cujos lados não podemos usar ao mesmo tempo: ou bem que amamos, ou bem que odiamos.

- Quem me dera então ser odiado pela prima...

Branca sentiu o roçar das tais antenas e tratou logo de cortar a conversa, retirando-se para o seu quarto, a pretexto de sentir-se indisposta.

Aguiar ficou na sala, mas a denúncia dele acompanhou-a, grudando-se-lhe ao coração com tanta insistência, que afinal já a oprimia.

- Um mentiroso! pensava ela, deixando-se cair sobre o divã.

E vieram os soluços.

- Mentir, enganar-me, trair-me como o mais baixo dos homens não faria com sua mulher!... Oh! isso não! Isso já é demais! Isso já não é uma fraqueza, é uma vilania e uma perversidade! Se ele está farto de mim, se não me pode suportar, por que então não fala com franqueza? por que não confessa tudo dignamente? por que me traz nesta dúvida ridícula e mais dolorosa do que a pior das evidências?...

E ainda chorava sobre estes raciocínios quando Teobaldo chegou à tarde. Ela disfarçou as suas lágrimas, acompanhou-o ao jantar, depois conversaram juntos, como de costume, debaixo de um caramanchão que havia na chácara e, só à noite, ao vê-lo já pronto para sair, perguntou-lhe com os braços em volta do pescoço dele:

- Vais sempre à tal reunião?

- Vou, e creio que me demorarei alguma coisa; mas fica descansada, que não irei muito além da meia-noite.

E beijou-a na testa e teria desaparecido logo, se a mulher não o prendesse com mais força.

Ele estranhou:

- Então! disse. Creio que não vou empreender alguma viagem aos pólos!

A esposa tomou coragem e interrogou-o abertamente:

- Quero que me digas uma coisa, mas não mintas! Fala com franqueza.

- Não te compreendo, filha.

- Dize-me: onde vai tu agora?

- Oh! estou farto de repetir! E estalando as sílabas: - Vou a uma reunião comercial, que tem hoje de deliberar sobre um sindicato, apresentado ao governo, pedindo privilégio para o fornecimento de certos materiais de guerra que tencionamos mandar ao Paraguai. Oh! - Jura! Dá tua palavra de honra!

- Ora essa!

- Então não acredito.

- Paciência!

- E vejo que as minhas desconfianças têm razão de ser...

- Desconfianças?

- Sim. Não acredito na tua reunião.

- E com que direito?

- Com o direito de quem tem ciúmes.

- Ciúmes, tu?

- Eu mesma.

- E duvidas de mim?

- Só não duvidarei se renunciares a essa tal reunião.

- Não posso.

- Fica. Peço-te.

- É impossível! Teria um grande prejuízo!

- Fica Teobaldo.

- Não. Seria uma tolice, que eu a mim mesmo nunca perdoaria! Bem sabes que os meus negócios não vão bem, atravesso uma crise muito séria, extraordinariamente séria! A guerra tem me feito um mal diabólico! Se me descuidar, estará tudo perdido, tudo! Nesta reunião de hoje vou tratar do nosso futuro; é o interesse que me conduz e não devo faltar! - Bem, vai!

- Adeus.

- Adeus.

Ele tornou a beijá-la na fronte e depois saiu.

Branca ficou imóvel, junto à porta, a segui-lo com os olhos. Viu-o descer muito lépido a escadaria de pedra, atravessar a chácara e ouviu depois rodar o carro lá fora.

- Qual dos dois será o mentiroso? este ou o outro?... balbuciou ela, deixando pender a cabeça para o peito e entregando-se a uma cisma atormentadora e ensombrecida pela dúvida: Qual dos dois será o infame? Talvez ambos ...

Despertou com a voz do primo.

- Então? Ele sempre foi? perguntou este com um sorriso.

Branca respondeu sem falar, procurando esconder a sua preocupação. Deu uma pequena volta pela sala, afinal foi colocar-se ao lado do primo:

- Onde é a entrevista, sabe?

- No Catete.

- Em casa de quem?

- Na minha.

- Na sua casa?

- Ele pediu-ma e eu não podia negar. Não acha?

- Fez bem.

E ela acrescentou, depois de uma pausa aflita, aproximando-se mais de Aguiar: - Meu primo, o senhor disse que é meu amigo, não é verdade?

- E sustento.

- Pois bem, prove-o, não dando uma palavra a respeito do que eu vou fazer.- Juro que não darei, mas peço em troca uma promessa do mesmo gênero.

- Fale.

- A prima não dirá a Teobaldo quem foi que o denunciou.

- Pode ficar descansado.

Dito isto, Branca foi ao tímpano e vibrou-o.

Apareceu um criado.

- O Caetano que se apronte para sair e venha imediatamente aqui; você vá chamar um carro. Depressa!

- Vai certificar-se? perguntou Aguiar à prima, feliz com aquela intimidade que o aproximava mais dela e como que o fazia seu cúmplice, estabelecendo entre eles um segredo, um pacto e um juramento.

(continua...)

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