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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E os assuntos de suas conversas materializavam-se completamente. Já só discutiam interesses práticos, arranjos de vida e conveniências domésticas: “Era preciso arranjar um jardineiro, que viesse uma vez por semana cuidar das plantas e limpar os tanques. — Era preciso chamar o homem do gás para consertar tal candeeiro que não dava boa luz. — Era conveniente alugar uma criada que soubesse lavar; porque a ladra da lavadeira trocava as camisas e encardia a roupa, que fazia lástima!”

E, à vezes, na intimidade dessas conversas, criticavam os atos de Mme. Brizard e do Coqueiro; censuravam-lhes umas tantas coisas, como, por exemplo: a negligência destes para com o César. “O pequeno ia por um tal caminho, que, se não abrissem os olhos, havia de amargar mais tarde! — Que diabo custava ao Janjão arranjá-lo aí em qualquer casa de comércio ou, pelo menos, fazê-lo aprender um ofício?...Em casa mesmo já lhe podiam ter metido nas unhas a carta do ABC e já lhe podiam ter ensinado alguma coisa...Mas Loló não se queria incomodar! E senão, vissem o que se passava a respeito de Nini; outra fosse a boa da mãe, que as pobre rapariga não levaria semanas e semanas lá na casa de saúde, sem ter uma pessoa que olhasse por ela.”

Eram sempre deste teor os motivos de sua conversa. Amélia, não obstante, fazia-se muito ligada aos menores interesses do amigo: queria saber o que ele gastava por fora, com quem estivera; reprovava-lhe certas relações, certas companhias “que não punham ninguém pra diante”, e aconselhava-o a que se não descuidasse de outras que lhe podiam ainda vir a servir; pregava-lhe sermões a respeito de economias. “O mundo estava cheio de espertos: ele que desconfiasse de todos; cada um só procurava chamar a brasa para a sua sardinha!” Queria estar a par de como iam os negócios do amante na província. “Se o dinheiro ficara em boas mãos; se não havia risco de uma quebra ou de alguma ladroeira”. E muito egoísta, muito mulher, muito agarrada ao que lhe pertencia, desde Amâncio até ao pó de suas gavetas, fazia justamente como fazem os sócios comerciais que parecendo tratar dos interesses abstratos de uma firma, estão mas é tratando dos próprios interesses.

Outras vezes boquejavam sobre os conhecidos, sobre as pessoas de amizade. Uma noite, em que , durante o serão da varanda, se conversou muito a respeito de Hortênsia, Amélia, já no quarto, em fralda, com um joelho dobrado em cima da cama, enquanto tirava grampos da cabeça e os arremessava para o velador, disse, como se continuasse um pensamento:

— Ela, fim de contas, não passa de uma mulher como as outras!...Loló e Janjão. É que, quando gostam de uma pessoa tiram tudo dos outros para enfeitá-la!

— Quem? D. Maria Hortênsia? Perguntou Amâncio, procurando num livro o lugar em que na véspera deixara a leitura. E, depois de um movimento afirmativo da rapariga:

— Não, o Coqueiro tem razão — a mulher do Campos é uma excelente senhora. Muito honesta!

— Ora! É uma mulher como as outras...sustentou Amélia, galgando a cama por cima do amante, para se aninhar ao lado da parede.

— Como as outras, como? Em que sentido?

— Não é lá essas purezas que a querem fazer! Não é nenhuma santa!

— Estás enganada, filha! A Hortênsia é uma mulher muito séria!...

— Quando não se ri...

— Pelo menos até aqui, que me conste, ninguém ainda se animou a dizer nada de sua conduta!

Amélia, então, possuída de um rancor instintivo de classe, de uma surda antipatia de mulher suspeita por mulher honesta, desencadeou os seus argumentos e as suas razões. Trouxe a lume conversas inteiras, que bispara na tal noite do exame. “Amâncio via caras e não via corações!...Aquele — meu bem pra cá, meu bem pra lá, — que todos notavam entre o Campos e a mulher, era só dos dentes para fora! No íntimo, Hortênsia detestava o marido! Achava-o muito bom homem, é verdade, muito generoso, não podia se queixar de que lhe faltasse nada, — boa mesa, boa casa, criados pra servir, teatros, bailes, seu bom carro, seu vestido de preço, — sim senhor! Mas só! Quanto a carinhos — nicles! A respeito de certos confortos de que uma mulher precisas, — era uma miséria! Às vezes, passavam-se meses e meses sem que o marido a procurasse! O pobre homem andava lá com os seus negócios, coitado! E a doida, em lugar de conformar-se com a sorte, punha a boca no mundo e eram queixas e mais queixas pra frente! Que ela, Amélia, não soubera de tudo isso, por parte deste ou daquele — escutara com seus próprios ouvidos!”

— Pois bem, ainda me ajudas!...volveu Amâncio, tomando extremo interesse pela conversa, — ainda me ajudas, porque, se é como dizes, o bom comportamento de D. Hortênsia torna-se muito mais digno de admiração!...

— Sim!...Retrucou a rapariga ironicamente. — Também acho bom, mas moro longe! — De um, quando mais não seja, sei eu, por quem o tal “anjo de pureza” seria capaz de dar uma perna ao diabo! E olha que, se ainda não a deu, foi porque ainda não teve ocasião para isso! Vontade não lhe falta! Ele que se apresentasse e veríamos!

(continua...)

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