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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Um dos grandes empenhos deste ilustre bispo foi moralizar e instruir o clero fluminense, e conseguiu-o em máxima parte, não admitindo ao estado clerical senão candidatos recomendáveis por seus costumes sãos e por sua vida honesta, não distribuindo empregos e honras senão aos que de uns e de outras se tornavam mais dignos pelo seu merecimento próprio. Não dando ouvidos nem aos segredinhos da intriga, nem às solicitações do patronato, e não alimentando um só instante os ciúmes entre os padres nascidos em Portugal e os nascidos no Brasil, que, aliás, mutuamente se hostilizavam de um modo inconvenientíssimo.

Bastaria este procedimento para a glória e recomendação do nome de D. frei Antônio de Guadalupe. Ele, porém, fez mais, e deixou-nos em livros de pedra e cal a história dos seus eminentes serviços.

Para evitar que os eclesiásticos que fossem por seus delitos condenados à reclusão se misturassem com os seculares criminosos, para dar-lhes enfim uma casa de prisão especial, fundou o Aljube, para onde se transferiu a cadeia geral em 1808, e onde atualmente se reúne o tribunal do júri do município da corte.

Como prisão destinada exclusivamente aos padres, o Aljube tinha proporções tão vastas, que eu não sei mesmo o que pensava o bispo, quando o mandou construir.

D. frei Antônio de Guadalupe foi ainda o fundador do seminário episcopal de S. José, a que deu princípio em provisão de 3 de fevereiro de 1739, a benefício da mocidade e do Estado, e isentando-o da jurisdição paroquial.

Também ao mesmo bispo se deve a fundação do seminário dos órfãos de S. Pedro, que depois tomou o nome de seminário de S. Joaquim e, há alguns anos, passou a ser Imperial Colégio de Pedro II.

Enriqueceu com diversos presentes e dádivas algumas igrejas da cidade, e especialmente concorreu para a obra da igreja de S. Pedro com a avultada esmola de alguns mil cruzados, como já ficou dito, e depois doou, para o serviço e ornato do mesmo templo, diversas peças de prata.

De como pôde fazer tanta coisa em tão pouco tempo D. frei Antônio de Guadalupe, explica-se pelos milagres da solicitude, da energia e da dedicação.

Infelizmente para o Rio de Janeiro, D. frei Antônio de Guadalupe foi chamado para a mitra de Viseu. Embarcou-se, e saiu no dia 25 de maio de 1740, a bordo da nau Nossa Senhora da Glória, capitânea da frota. Chegando, porém, a Lisboa, morreu poucos dias depois de haver desembarcado, pois que exalou o último suspiro no dia 31 de agosto de 1740, nos braços dos seus irmãos, os religiosos do convento de S. Francisco.

Eis aqui o dístico com que o magistral cronista perpetuou a memória desse venerando bispo:

Templa Deo, purisque scholae me Praoesule, justis; Proemia dona malis proemia, carcer adeste.

Temos tomado conhecimento com o ilustre D. frei Antônio de Guadalupe, de quem, aliás, terei ainda de falar algumas vezes. Agora cumpre continuar a história da igreja de S. Pedro.

No presente passeio deixei lançada a primeira pedra da igreja de S. Pedro. E como ignoro o nome do arquiteto que deu o plano desse templo, e não tenho a referir circunstância alguma que ocorresse durante a execução do trabalho, julgo melhor dar desde já a obra por acabada, e conduzir os meus companheiros de passeio ao lugar em que essa igreja se levantou, e ainda hoje se mostra, como é de esperar que por muitos séculos se conserve.

Vamos, pois, subindo pela rua dos Ourives, que parece condenada a perder dentro em pouco o seu nome, ou pelo menos a razão do nome que recebeu. Porque é um fato que ela se vai despovoando de ourives. Chegamos, enfim. É aqui. A igreja de S. Pedro está situada na rua dos Ourives, canto da rua de... Como a chamarei eu?

É uma rua que tem tido pelo menos quatro nomes.

Em 1619, ou antes desse ano, chamava-se Rua do Carneiro, por morar nela (entre as dos Ourives e da Quitanda) uma senhora muito respeitável e estimável de nome Ana Carneiro.

Diz o monsenhor Pizarro que, com a fundação da igreja de S. Pedro, perdeu a rua aquele nome. Creio, porém, que há mais tempo já o havia perdido, porque, segundo se lê em um dos livros do tombo da Ilma. Câmara Municipal, essa mesma rua denominava-se, em 1705, rua de Antônio Vaz Viçoso, e em 1717, rua do desembargador Antônio Cardoso, passando finalmente a chamar-se rua de S. Pedro.

Segue-se destas diversas denominações que a rua mudava de nome conforme as celebridades que iam nela residindo, o que me faz esperar que não perderá mais nunca o nome de S. Pedro, que há 128 anos lhe foi dado. Porque, apesar de todos os dotes e merecimento que possam ter, as celebridades deste mundo não ousaram disputar primazia ao porteiro do Céu.

Daí, quem sabe?

(continua...)

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